Última novela de estrela da Globo foi um fiasco: “Experiência trágica”

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Tendo como uma das estrelas a então futura jornalista Sandra Annenberg e exibida pelo SBT entre 23 de outubro de 1989 e 5 de maio de 1990, Cortina de Vidro foi uma novela escrita por Walcyr Carrasco com colaboração de Miguel Filiage com argumento de Guga de Oliveira, irmão de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Sandra Annenberg

Foi a primeira experiência de Walcyr em novelas. Até então, ele trabalhava como jornalista e chegou a escrever alguns episódios da série Joana, na extinta Rede Manchete, em 1984.

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Na época, Silvio Santos não queria correr riscos investindo em uma trama própria e acabou contratando a produtora de Guga de Oliveira, a Mikson. A novela foi anunciada nos jornais da época como a primeira feita em regime de coprodução.

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Walcyr Carrasco

Quem desenvolveu o argumento foi o próprio Guga de Oliveira, cuja ação da novela se passaria num prédio onde existem uma agência de automóveis, uma boate, uma academia de ginástica, uma agência de publicidade e restaurantes.

Posteriormente, Walcyr assumiu a autoria do projeto, que teve como ambientação a abastada região dos Jardins, onde está instalado o edifício cilíndrico da revendedora Dacon, inteiramente revestido de vidro, daí o título escolhido pelos atores.

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Milionário se fazia de pobretão

Sandra Annenberg em Cortina de Vidro

A trama folhetinesca contava a história de Frederico Stuart Mill (Herson Capri), um milionário que se fazia de pobretão para se aproximar da jovem bailarina Branca (Betty Goffman), por quem se interessou. No entanto, o disfarce o aproximou da operária Ângela (Sandra Annemberg), que passou a cuidar dele quando perdeu a memória após um incêndio no edifício-sede de sua empresa.

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A emissora, a princípio, resolveu estrear a novela no mesmo horário do Jornal Nacional, mas acabou desistindo da ideia ao perceber que havia uma parcela do público que não assistia aos telejornais locais que entravam no ar após a novela das seis da Globo.

A expectativa deles era que Cortina de Vidro abocanhasse essas pessoas. Com isso, eles esperavam uma audiência na faixa dos 10 pontos. Os mais otimistas esperavam 20. No livro Autores – Histórias da Teledramaturgia, o autor comentou o mal-sucedido trabalho.

“Naquela época, Guga de Oliveira conseguiu vender uma produção independente para o SBT, a novela Cortina de Vidro, e me chamou para escrever. Foi minha primeira experiencia trágica em novelas. Era uma produção independente, com poucos recursos. A novela se chamava Cortina de Vidro porque a história se inspirava no cotidiano de um edifício que existe em São Paulo, o Dacon”, explicou.

Segundo o autor, a ideia era abordar mais a vida das pessoas que viviam no edifício do que em seu ambiente pessoal, já que apenas alguns personagens na trama possuíam uma casa.

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Perda da principal locação

Edifício Dacon

Outro problema que pegou a produção de surpresa foi a notícia da venda da cobertura do edifício em questão. A produtora tentou negociar com os novos proprietários, que não aceitaram o acordo, levando o autor a mudar drasticamente o rumo de sua obra.

“Quando cheguei no capítulo 15, o produtor veio com a notícia de que havíamos perdido o Dacon, porque a cobertura tinha sido vendida, e não tínhamos dinheiro para construir novos cenários. Havia apenas oito pequenos cenários armados em um galpão, e o resto da novela era todo gravado no próprio edifício. Sugeri, então, que o prédio fosse incendiado, porque precisava justificar a saída daquele cenário, que era o mote da trama”, destacou.

Esses problemas acabaram refletindo na produção da trama. Alguns nomes do elenco, prevendo o pior, resolveram abandonar a novela. Artistas como Odilon Wagner e Jayme Periard pediram para se afastar das gravações.

Elenco esvaziado

Liza Vieira

Aos poucos, o restante elenco foi se esvaziando. Liza Vieira, Aldine Muller e Claudio Curi também foram cortados da história. Liza ficou bastante decepcionada com a decisão dos responsáveis da produção. Já Betty Goffman era simplesmente a mocinha da trama e recebeu a notícia de que ia ser dispensada por uma secretária do produtor e diretor Guga de Oliveira.

“Fiquei uma semana arrasada, questionando a minha própria competência. A notícia de que eu sairia me foi dada por um office-boy”, desabafou Lisa à revista Amiga, em fevereiro de 1990.

Quando soube do fim da sua participação da trama através de uma mensagem gravada na secretária eletrônica, Odilon Wagner declarou:

“Nunca fui tão desprestigiado em 20 anos de carreira”, esbravejou.

Polêmicas extras

Antonio Abujamra

Houve relatos de que uma famosa atriz do elenco – que não teve o nome revelado – chegou a tentar o suicídio quando soube que não seria mais aproveitada na novela.

“Isso nos deixou muito chateados. Tentaram até fazer chantagem emocional com o Guga de Oliveira. Como fui obrigado a adiantar o incêndio, pensei em deixar vivos apenas quatro personagens, porém, isso acarretaria dificuldades contratuais. Precisava eliminar alguém de peso na história para dar dinamismo, e a escolhida foi a Branca (Betty Goffman)”, revelou Walcyr Carrasco em entrevista à Amiga, em fevereiro de 1990.

Uma polêmica extra ainda estava reservada para perto do final. O personagem Arnon Balakian, vivido pelo ator Antônio Abujamra (1932-2015), violentou a própria filha, Michele, vivida por Carola de Oliveira, sobrinha de Guga de Oliveira e Boni e que se tornaria a futura “princesa” Carola Scarpa, quando se casou com o playboy Chiquinho Scarpa.

O saldo foi negativo para todos os envolvidos. Cortina de Vidro foi rechaçada pela critica, que não perdoou o estreante Walcyr Carrasco na redação de uma novela. A experiência foi tão traumática que Sandra Annenberg desistiu de atuar na televisão e se tornou apresentadora.

Córa Ronai, em sua crítica ao Jornal do Brasil, definiu bem a experiência que era assistir a trama:

“Cortina de Vidro é, toda ela, uma novela muito coitada. A abertura é horrenda, a produção ruim, o texto constrangedor e as situações são absolutamente primárias”, vociferou em 15 de novembro de 1989.

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