Sequência absurda e resposta a crítica marcam semana de Nos Tempos do Imperador

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• Nesta semana, veio a resposta a uma crítica feita na semana passada, de quando o garoto negro Guebo confronta o imperador Pedro II por ele não abolir a escravatura. No capítulo de segunda-feira, após a cena em que uma escrava maltratada é amparada por Pedro II e Tereza Cristina, a ação avança no tempo, para Paris de 1891, e surge o imperador na velhice, reflexivo, com o seguinte texto narrado em off:

Das batalhas que enfrentei, a luta contra a escravidão foi a mais frustrante. Todas as tentativas que fiz pelo seu fim foram gotas de chuva no oceano. Eu estava submetido a uma elite que jamais aceitará a igualdade, pois ela se alimenta da miséria do outro. E para continuar existindo, sempre há de criar novas formas de escravidão. Senão pela chibata, pela privação de oportunidades, que só podem ser conquistadas através da Educação“.

E volta ao tempo normal da ação. Soou como se o imperador se justificasse pela cena anterior, com Guebo. O texto é ótimo, até bonito, e reverbera na atualidade. Contudo, teria sido mais eficiente se viesse logo após a cena do questionamento de Guebo, na semana passada, e não incluída aleatoriamente capítulos adiante. Pareceu cena colocada às pressas, para explicar uma anterior que gerou críticas. Valeu a intenção.

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Desconfio que isso tipo de situação se repetirá muito em Nos Tempos do Imperador.

• Gostei do desfecho do casamento de Nélio, que não aconteceu porque a noiva desistiu e fugiu com o leiteiro. Foi divertido. Porém, é estranho dois núcleos cômicos formados por dois casais bizarros (os Pindaíbas e Germana e Licurgo). Agora, com a história do cassino, eles se juntam e exponencia-se a bizarrice.

• Na cena do capítulo de quinta-feira em que a imperatriz tem uma conversa com a condessa na carruagem, foi impossível entender o que Letícia Sabatella sussurrava. O sotaque italiano também dificultou. Não por causa do sotaque, mas a captação de som estava ruim, ou a atriz falou baixo demais. Aumentei o volume da TV e continuei sem entender niente.

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• Muito bonita a cena da morte de Lurdes no capítulo de sábado! Selton Mello entregou tudo! De quebra, vestígios do filme Vestígios do Dia, na cena com os atores Cássio Pandolfi e Lu Grimaldi.

• No capítulo de quarta-feira, o negro Samuel convidou a noiva branca Pilar para um jantar em um restaurante fino – outra sequência absurda! Novamente a discussão sobre abusar da liberdade criativa em reconstituições históricas. Novela é ficção, não é documentário. Fato. Tendo personagens históricos e tramas reais como pano de fundo, Novo Mundo cedeu a recursos fantasiosos de todos os tipos. E foi ok, nunca houve problema.

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A questão em Nos Tempos do Imperador não está apenas na demasiada liberdade com que o roteiro reproduz fatos e questões históricas. Está no reforço de mitos sobre negros, escravidão e abolição por meio da romantização de uma democracia racial que não existia na época e que não deveria sequer transparecer na ficção como se realidade fosse.

Nunca um negro entraria em um restaurante como aquele, ainda mais acompanhado de uma branca a trocar carícias em público. Nunca uma mulher branca, pintada como “à frente de seu tempo” (que almeja ser a primeira médica do Brasil), teria um discurso tão ingênuo ao sentir-se ofendida porque foram expulsos do local. Eles conhecem as leis que regem a sociedade de seu tempo, e mesmo assim, se põe em risco de serem presos? Não faz sentido!

Claro que a sequência toda – um clichê fartamente usado no audiovisual – reforça a ideia do preconceito a que negros são submetidos – até hoje. Porém, a novela se passa no período pré-abolição, em que era senso comum que negros não frequentassem tais lugares, por mais absurda que essa ideia poderia parecer já naquele tempo.

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Entramos na questão do quanto a telenovela é responsável pela criação do imaginário popular. Do quanto o que aparece na tela da TV, por mais que se entenda tratar-se de ficção, é tomado como realidade. Ao apresentar uma família imperial tão magnânima com negros, a novela apenas corrobora o mito de que a Lei Áurea libertou os escravos e todos viveram felizes para sempre – o que não é verdade.

Já escrevi em texto anterior que esta questão dos negros é sensível demais. Nos Tempos do Imperador já nasceu equivocada em sua premissa, com uma abordagem que não deve mais ser aceita.

• Aproveito para indicar a masterclass O QUE É DRAMATURGIA NEGRA?, com o roteirista Elísio Lopes Jr., de acordo com as informações abaixo.

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