Merecia audiência melhor: Sangue Bom estreava há oito anos na Globo

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Há exatamente oito anos, em 29 de abril de 2013, estreava a novela das sete que abusou da complexidade de seus personagens, da metalinguagem na história, do ótimo texto e da crítica ao mundo das celebridades. Com 160 capítulos exibidos, Sangue Bom, dirigida por Dennis Carvalho, chegou ao fim em 1º de novembro do mesmo ano abusando da emoção e do bom humor, características que marcaram a trama desde o primeiro capítulo. E o telespectador que acompanhou, torceu, chorou, riu e se envolveu com esse folhetim com certeza terá boas lembranças para guardar.

A história de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari foi a primeira novela inédita da dupla – a anterior (Ti-Ti-Ti) era um remake, assim como Anjo Mau, cujo autoria era somente de Maria Adelaide, já que Vincent na época era só colaborador. E essa estreia foi em grande estilo. Os autores conseguiram apresentar todos os elementos clássicos de uma novela das sete e ainda souberam brincar com muitas críticas sociais que eram inseridas na obra de uma forma ácida e totalmente real.

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Através da Amora (Sophie Charlotte), a personagem que carregou a trama, foi abordado o conflito entre o ‘ser’ e o ‘ter’, em meio ao ‘submundo’ das celebridades, que servia como pano de fundo para toda a história central. A patricinha vivia de sua imagem, apresentava um programa que falava sobre a rica vida dos famosos, chamado ‘Luxury’, e ainda tinha que fingir que era amiga de Lara Keller (Maria Helena Chira), rival que sempre quis roubar seu lugar. Para culminar, sua mãe (Bárbara Ellen – Giulia Gam) era, além de uma péssima influência, uma atriz decadente e que fazia de tudo para aparecer, incluindo adotar crianças.

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O ‘jornalismo-fofoca’ foi muito bem explorado dentro dessa situação através da ferina Sueli Pedrosa (ótima Tuna Dwek), uma repórter faminta por desgraças e polêmicas da vida das celebridades que comandava um programa sensacionalista. Qualquer semelhança com a realidade não era mera coincidência. E ainda houve uma divertida abordagem em cima das mulheres-fruta. A participação da Mulher Mangaba (Ellen Roche) agradou tanto que a atriz ficou no elenco fixo e ganhou até músicas para cantar.

Mas além dessa inspirada crítica ao mundo das celebridades, a novela soube usar a metalinguagem para rir da própria teledramaturgia. Avenida Brasil, Cheias de Charme, Caras & Bocas, Vale Tudo, Belíssima, A Próxima Vítima, Senhora do Destino, enfim, várias novelas foram lembradas e homenageadas. Tina (Ingrid Guimarães), Damáris (Marisa Orth) e Bárbara Ellen foram as principais protagonistas dessas situações. Vale lembrar a vingança de Tina, que até vestiu um uniforme de empregada idêntico ao de Nina, e os diálogos entre Damáris e Nice (Izabela Bicalho), quase sempre fazendo referência às empreguetes.

O drama também foi abordado de forma competente. A dor do abandono, o rancor, o ódio, a mágoa, o sofrimento, o passado que nunca conseguia ser esquecido, os amores, enfim, todos os sentimentos foram tratados com muita sensibilidade. Os personagens que mais apresentaram dramas – incluindo um passado condenável – foram Wilson (Marco Ricca), Glória (Yoná Magalhães), Irene (Débora Evelyn) e Simone (Andreia Horta). Mas Érico (Armando Babaioff), Verônica (Letícia Sabatella), Renata (Regiane Alves), Fabinho (Humberto Carrão), Bento (Marco Pigossi) e, claro, Amora, foram outros que abusaram da dramaticidade. As relações e os conflitos foram tão envolventes e sofridos que não tinha como o telespectador assistir sem se emocionar.

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A ambiguidade foi outro ponto bem colocado na história. Praticamente todos os tipos apresentados não eram só bons ou só maus. Amora foi sem dúvida a personagem mais complexa e controversa da história, carregou inúmeros dramas nas costas, e Sophie Charlotte se entregou por completo. A ‘it girl’ era uma mocinha que tinha várias atitudes de vilã e despertou uma avalanche de sentimentos no público, principalmente quando expôs por completo seu lado frágil e humano na reta final. Fabinho também foi um tipo repleto de controvérsias e Humberto Carrão soube incorporar perfeitamente um ‘bad boy’ que fez muita coisa errada na vida e que, posteriormente, soube dar a volta por cima e mudar por um amor.

O seis jovens protagonistas fizeram bonito e os casais despertaram várias torcidas. Além dos já citados Amora e Fabinho, Bento, Malu (Fernanda Vasconcellos), Giane (Isabelle Drummond) e Maurício (Jayme Matarazzo), formaram um ótimo time e honraram a confiança dos autores. Só é de se lamentar que Giane, além de ter tido algumas características esquecidas – vide sua paixão pelo futebol – tenha demorado tanto para crescer na história e que Maurício não tenha tido uma trama individual mais aprofundada. Porém, não há dúvidas de que houve uma boa evolução quando ambos se apaixonaram. A linda relação entre Malu e Maurício foi ficando cada vez mais bonita, enquanto que Giane e Fabinho foram misturando declarações apaixonadas com provocações, intensificando o charme do casal e a química da dupla. Já Amora e Bento demonstraram sintonia desde o primeiro capítulo, deixando claro o forte amor que os unia.

O elenco foi muito bem escalado e ainda contou com boas surpresas. Sophie Charlotte e Humberto Carrão foram os atores mais exigidos do sexteto central e corresponderam plenamente. Isabelle Drummond, Fernanda Vasconcellos, Jayme Matarazzo e Marco Pigossi também brilharam e o time de protagonistas foi muito bem defendido. Herson Capri, Yoná Magalhães (em sua última novela), Débora Evelyn, Marco Ricca, Armando Babaioff, Letícia Sabatella e Regiane Alves mostraram o quão são talentosos, enquanto que Marisa Orth, Ingrid Guimarães, Joaquim Lopes e Giulia Gam comprovaram a facilidade que têm no humor, sendo os responsáveis pelos momentos mais hilários da novela. Carla Salle (a fútil e idiota Mel) – revelada em Malhação -, Tatiana Alvim (a talifã Socorro) e Samya Pascotto (a inteligente Tábata) foram gratas surpresas.

Entretanto – abusando do clichê, uma vez que havia a floricultura ‘Acácia Amarela’ na trama -, nem tudo foram flores. O prólogo da história foi longo demais e o público tinha a sensação de que tinha algo prendendo a evolução dos acontecimentos. Nada parecia sair do lugar. Bento não foi bem desenvolvido, ficou insuportável com seus discursos politicamente corretos e sua burrice ultrapassou muitos limites. O drama de Felipinho teve um destaque excessivo, Josafá Filho não convenceu e o personagem era um tipo irritante.

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Para culminar, ainda houve uma polêmica envolvendo o ator que acabou sendo afastado da história. A trama envolvendo Perácio (Felipe Camargo), Brenda (Letícia Isnard) e Rosemere (Malu Mader) não foi muito bem desenvolvida e quando foi desdobrada não empolgou, apesar do ótimo desempenho dos atores. Tina foi uma personagem divertidíssima, mas parte de sua história – envolvendo o trauma do casamento e sua internação em um manicômio – foi cansativa.

Alguns atores não foram devidamente valorizados. Vide Louise Cardoso, Daniel Dantas, Norival Rizzo, Tarcísio Filho e Mayana Neiva, além da própria Malu Mader, que foi tendo sua participação diminuída depois que Felipinho se ausentou da história.

Porém, os deslizes ficaram muito pequenos diante da grandiosidade de Sangue Bom e o último capítulo fechou com chave de ouro esse excelente folhetim. A coerência prevaleceu em todos os finais, deixando tudo bem explicado e evidenciado para o público.

Sangue Bom saiu de cena entrando para a lista de maravilhosas produções que, infelizmente, não foram valorizadas pela audiência. A trama marcou 26 pontos no último capítulo – dois a menos que Guerra dos Sexos, cuja média geral foi de 23 pontos – e ficou com uma média geral de 25 pontos, cinco abaixo da meta estipulada para o horário e o mesmo alcançado por Aquele Beijo, considerado um fracasso.

Entretanto, apesar do baixo ibope, Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari cumpriram o que prometeram e exibiram uma novela linda, sarcástica, com uma trilha sonora maravilhosa, com um primoroso texto, repleta de ótimos personagens e que envolveu o telespectador do início ao fim. Quem acompanhou essa deliciosa história – muito bem dirigida por Dennis Carvalho – guardará na memória tudo o que viu e sempre terá boas recordações. Obrigado, autores, foi bom demais!

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