Reta final melancólica: Um Lugar ao Sol deveria se chamar Um Lugar na UTI

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Nilson Xavier

Semana #19

Quem assistiu ao capítulo de sábado de Um Lugar ao Sol ficou chocado com os rumos que a autora Lícia Manzo armou para a semana final de sua novela.

Um Lugar ao Sol

Como se não bastasse toda a gama de personagens doentes que a trama apresentou ao longo do tempo (alcoólicos, depressivos, cardíacos, hipertensos, etc), a última semana foi particularmente melancólica, com a morte de Stephany, vítima do marido violento, e o diagnóstico de Alzheimer recebido por Elenice.

O capítulo de sábado foi de cortar os pulsos: Bárbara está em depressão porque foi abandonada pelo marido (outro doente, ético e moral); Aníbal sofreu um acidente doméstico que o deixou em uma cadeira de rodas (o que culminará com sua ida para uma casa de repouso); e Felipe voltou ao Brasil porque descobriu um tumor no cólon. É mole?!

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Sem alívio cômico

Um Lugar ao Sol

Desde o início de Um Lugar ao Sol, ouvi e li reclamações sobre a novela ser “séria” demais, sem alívio cômico. Nunca me incomodou a ausência de um núcleo de humor popular. Porém, a situação piorou da metade em diante, ante o avanço da trama do protagonista e tantos dramas que se repetiam em looping.

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Agora, então, piorou, com doentes pipocando em todos os núcleos. Um Lugar ao Sol deveria se chamar Um Lugar na UTI.

Lembro de apenas uma novela ser tachada de depressiva por causa de temas médicos: Os Gigantes (1979). Hoje, é citada como um dos maiores fracassos da TV Globo, que entrou para a história como um problemão para a emissora (em uma época em que era líder inconteste de audiência e repercussão), tendo custado até a demissão de seu autor, Lauro César Muniz.

Um Lugar ao Sol

Não à toa, Um Lugar ao Sol já amarga o estigma de menor audiência histórica entre as novelas das 8/9 da Globo, superando a malfadada Babilônia, de 2015.

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Não há como defender

Muito se culpou a pandemia, a parca divulgação antes da estreia e a reedição de capítulos por causa de seu espichamento. Contudo, a história que está no ar independe de pandemia, divulgação ou reedição.

O que de fato mudaria os rumos que a trama tomou seria a interferência do público, por meio das pesquisas de opinião – o que não aconteceu porque a novela foi ao ar com seus capítulos já todos gravados.

“Bem feito”?

Um Lugar ao Sol

Lícia Manzo realmente achou que matar uma vilã que sofre violência doméstica despertaria a compaixão do público?

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A autora seguia bem a abordagem sobre violência doméstica, inclusive didaticamente, mostrando o passo a passo que a vítima deve tomar em casos como este. Porém, foi duro ler nas redes sociais “Bem feito!” depois que a autora transformou uma vítima de violência em vilã chantagista e mau-caráter.

Claro que Stephany não era flor que se cheirasse. Era interesseira, de índole bastante maleável – ainda o preconceito que despertava por ser cafona e vulgar. Tudo corria bem até a personagem repetir a trama de Joy, que chantageou Renato depois que descobriu o seu segredo.

1 feminicídio a cada 7 horas

Um Lugar ao Sol

Lógico que uma pessoa que é vítima também pode ser carrasca em uma outra situação ou condição. Lógico que é válido mostrar que quem não segue à risca as recomendações para casos de violência pode arcar com as consequências (Stephany não providenciou a renovação das medidas restritivas contra o ex-marido).

Lógico que é válido esfregar a realidade no público, mostrando que nem sempre tudo termina bem. E não termina mesmo. O Brasil tem 1 estupro a cada 10 minutos e 1 feminicídio a cada 7 horas, de acordo com reportagem recente publicada no UOL Universa.

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Responsabilidade redobrada

Um Lugar ao Sol

E é justamente por esses números alarmantes que a responsabilidade na abordagem do tema precisa ser redobrada.

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A meu ver, foi um erro fazer o público detestar a personagem apenas para justificar outra trama, que nada tinha a ver com a campanha que a autora levantava.

Para incrementar a trajetória do protagonista, a autora sacrificou Stephany e mandou a denúncia de violência doméstica para o lixo. Restou a sensação de que toda a campanha foi prejudicada por causa de um entrecho requentado.

Será que a mensagem passada, em vez de “morreu porque era chantagista”, não reforçaria o conceito machista de que ela apanhava porque merecia?

Que bom que muitas pessoas separam as coisas, compreendem que uma independe da outra, que não é porque Stephany é mau-caráter que ela mereça ser vítima de violência.

Porém, novela ainda é um produto de grande alcance, que entra gratuitamente em todos os lares. Apesar do “recorde negativo” de audiência, Um Lugar ao Sol é um dos programas mais vistos de nossa TV. Daí a necessidade de redobrar a responsabilidade.

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