Reprise de Novo Mundo em 2020 merecia o mesmo sucesso de 2017 - TV História

Reprise de Novo Mundo em 2020 merecia o mesmo sucesso de 2017

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A Globo teve uma estratégia bem pensada para as suas reprises durante a pandemia do coronavírus que implicou no término das gravações de todas as produções inéditas na teledramaturgia. “Fina Estampa” e “Totalmente Demais” foram escolhidas por conta da elevada audiência e sucesso popular. No caso do folhetim das sete, somado a um conjunto de qualidades que faltou no enredo péssimo das nove. Já “Malhação – Viva a Diferença” e “Novo Mundo” a questão dos ótimos índices também fizeram a diferença, mas houve uma preocupação a mais: o lançamento das “continuações”. O seriado adolescente terá um spin-off chamado “As Five” na Globoplay, em novembro, enquanto o caso da trama das 18h será no canal aberto com o título de “Nos Tempos do Imperador”, em 2021. E a produção das seis foi primorosa.

O folhetim que fez um grande sucesso em 2017 não repetiu o mesmo êxito na reexibição. Mas a produção foi uma escolha acertada da emissora para preparar o público para a saga sobre Dom Pedro II (Selton Mello) que contará com alguns personagens de “Novo Mundo”, como Licurgo (Guilherme Piva), Germana (Vivianne Pasmanter), Quinzinho (Theo de Almeida) e a filha de Anna (Isabelle Drummond) e Joaquim (Chay Suede), citando apenas os mais importantes. Alessandro Marson e Thereza Falcão são os autores das duas novelas e a chance de repetirem os acertos vistos na atual reprise é bem elevada. Até porque não é uma continuação explícita. Quem não viu a obra anterior não terá problemas em entender o novo enredo.

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No entanto, quem não viu “Novo Mundo” deveria ter aproveitado a oportunidade. A trama, dirigida com competência por Vinícius Coimbra, primou pelo capricho do primeiro ao último capítulo, mesclando contextos históricos com o folhetim tradicional, havendo espaço ainda para momentos de pura fantasia, remetendo aos clássicos da Disney, como “Piratas do Caribe”.

Os autores conseguiram juntar perfis que realmente existiram a outros meramente ficcionais com maestria, presenteando o telespectador com personagens bem construídos e conflitos convidativos, sem poupar história. Foram ótimas viradas ao longo dos meses e várias cenas de ação bem coreografadas que em nada deveram a filmes do gênero.

A saga de Dom Pedro (Caio Castro) e Leopoldina (Letícia Colin) representou uma sucessão de momentos que todo mundo já estudou na época da escola. Mas, claro, com bons toques de ficção, como não poderia deixar de ser. O telespectador acompanhou a chegada da Família Real —- Leo Jaime e Débora Olivieri maravilhosos como Dom João e Carlota Joaquina —-, a vinda de José Bonifácio (Felipe Camargo), o Dia do Fico, a nomeação de Leopoldina como princesa Regente, entre outros fatos importantes, além da Proclamação da Independência do Brasil (uma das melhores sequências apresentadas). A trama ainda fez questão de ressaltar a importância que Leopoldina teve durante todo o processo da independência. Foram cenas arrepiantes.

A vida dos imperadores também foi bem desenvolvida, optando pelo tom um pouco mais leve, exibindo um Dom Pedro com toques de malandragem e humor, fazendo um contraponto com sua canalhice em trair a esposa constantemente. E a inserção de Domitila (Agatha Moreira), a Marquesa de Santos, foi feita com o intuito de despertar a empatia do público em virtude da vida sofrida que levava, sendo espancada pelo marido e humilhada pela irmã perversa. Entretanto, aos poucos, a personagem foi transformada na grande vilã da história, fazendo uma empolgante rivalidade com Leopoldina. Os autores mais uma vez se mostraram inteligentes, mesmo abusando da ficção em vários pontos. Afinal, nada melhor do que acompanhar a amante ambiciosa sendo confrontada pela majestade empoderada. Letícia e Agatha brilharam juntas.

Os núcleos paralelos se mostraram tão bem trabalhados quanto o central. A comicidade da história ficou muito bem servida com os impagáveis Licurgo (Guilherme Piva), Germana (Vivianne Pasmanter) e Elvira Matamouros (Ingrid Guimarães). O trio protagonizou cenas hilárias e os atores estiveram sensacionais. Ingrid ganhou sua melhor personagem na carreira televisiva e até a morte da atriz 171 foi revista pelos autores em virtude do sucesso daquela carismática trapaceira. Já Guilherme e Vivianne formaram um casal nojento, mas no bom sentido, se é que isso existe. Vale citar o primoroso trabalho da caracterização, deixando os intérpretes irreconhecíveis. A composição dos atores também primou pelo cuidado com os trejeitos, como ‘risadas de porco’, olhos arregalados, enfim. Que show eles deram. Theo de Almeida, aliás, foi mais um integrante da trupe, se revelando uma grata revelação mirim. Quinzinho ficou mudo quase a novela toda, mas nos últimos meses desandou a falar. Carismático demais o menino.

O conflito encabeçado por Sebastião (Roberto Cordovani), Cecília (Isabella Dragão), Matias (Renan Monteiro), Idalina (Dhu Moraes) e Libério (Felipe Silcler) foi outro que despertou atenção, expondo o racismo asqueroso da época e a crueldade da escravidão, mesmo com cenas mais suavizadas. Também foram feitas críticas precisas ao Brasil atual, mostrando que pouco mudou em quase 200 anos, vide a corrupção dos poderosos. O amor da menina branca com o jornalista negro foi bonito de se ver, assim como o carinho que os escravos tinham com ela. A crueldade do poderoso fazendeiro foi digna de um excelente vilão e que privilégio o telespectador teve em acompanhar o desempenho extraordinário de Roberto Cordovani, um premiado ator de teatro que nunca tinha participado de uma novela. Essa produção teve como uma de suas qualidades a valorização do elenco. Não teve ninguém desperdiçado. Todos tiveram espaço para brilhar em algum momento.

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Uma característica peculiar da produção que vale ser ressaltada foi a trilha sonora. Pela primeira fez uma novela não teve cantores ou bandas embalando os temas. Todas as músicas eram incidentais. E como funcionou bem com o roteiro. Os instrumentos foram os protagonistas do núcleo dos piratas, da abertura (uma das melhores já produzidas), das cenas de batalhas, enfim. E todas as trilhas eram bem características, deixando claro para o telespectador quando a trupe de Fred Sem Alma surgiria ou então a vilania de Thomas, por exemplo. Uma inovação bem-vinda.

“Novo Mundo” foi uma novela caprichada e desenvolvida com maestria pelos autores. Fez jus ao sucesso e vários elogios que recebeu de público e crítica, além da média geral de 24 pontos, até hoje não alcançada com exceção do fenômeno “Êta Mundo Bom!” (27 pontos). A reexibição apenas comprovou todas as qualidades vistas anteriormente e uma pena que não conseguiu repetir os elevados índices (a reprise obteve 19 de média). Um resultado inexplicável. Pena.

SOBRE O AUTOR

SÉRGIO SANTOS é apaixonado por televisão e está sempre de olho nos detalhes, como pode ser visto em seu blog. Contatos podem ser feitos pelo Twitter ou pelo Facebook.



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