Regina Duarte nunca entendeu as personagens mais marcantes de sua carreira



A entrevista que Regina Duarte, atual secretária de Cultura do atual governo, deu à CNN, exibida no dia 7 de maio, foi a última pá de cal em sua imagem. As declarações desastrosas de uma das atrizes mais conhecidas do país provocaram uma reação de choque e repúdio, não só da classe artística, como de grande parte do público, com exceção dos fiéis seguidores do presidente. Ainda encerrou a entrevista com Daniel Adjuto, Reinaldo Gottino e Daniela Lima dando um ataque de falta de educação, se recusando a ouvir um depoimento de Maitê Proença cobrando melhorias no setor em plena crise.

A intérprete protagonizou um show de constrangimento ao vivo. Não respondeu aos questionamentos feitos e chegou a menosprezar a tortura cantando aos risos “Pra frente, Brasil! Salve a seleção”, tema da Copa do Mundo de 70 e um dos símbolos da Ditadura Militar. Não conseguiu explicar a razão da falta de homenagens aos artistas mortos recentemente, como Aldir Blanc e Flávio Migliaccio. Chegou a declarar que a secretaria de cultura não era um obituário. Para culminar, inseriu o tema da COVID-19 ao falar da “morbidez que as pessoas estão trazendo” por conta da pandemia. Ou seja, também menosprezou as inúmeras vítimas do Brasil e do mundo. Enfim, uma entrevista desastrosa e indefensável.

Nada contra a ideologia de Regina, afinal, cada um com a sua. Não há certo ou errado na esquerda ou na direita. Mas há opiniões que são e devem ser universais. Ser contra a tortura e sentir empatia por vítimas de uma pandemia letal, por exemplo. Ou se preocupar em defender a sua classe durante o período mais caótico do setor.

Afinal, tudo que envolve o entretenimento cultural implica em aglomeração, algo que a sociedade não pode vivenciar no atual momento. E ao se mostrar como pessoa, ainda que claramente desequilibrada emocionalmente, a atriz prova que nunca entendeu ou gostou de várias personagens que marcaram a sua tão bem-sucedida carreira.

Entre 1979 e 1980, a Globo exibiu “Malu Mulher”, série criada e escrita por Daniel Filho, onde Regina vivia a personagem título. A protagonista, em plena década de 80, cansava das brigas com o marido e tomava coragem para se divorciar. A coragem era a maior característica daquela mulher que ganhou a vida sozinha e enfrentou os vários preconceitos da época. As dificuldades de conseguir um lugar para morar, se sustentar e cuidar da filha eram alguns dos conflitos da trama. Maria Lúcia virou uma referência e a produção foi um marco. Mas a própria atriz declarou, em uma entrevista a Pedro Bial em 2019 (no “Conversa com Bial”), que nunca se identificou com esse feminismo da personagem e nem concordava com as atitudes dela. Ano passado essa declaração pegou muitos de surpresa.

Mas com certeza não é a única personagem marcante de sua trajetória na televisão que a atriz não se identifica. A batalhadora Raquel, de “Vale Tudo” (1989), era uma mulher honesta e trabalhadora. Sofreu um duro golpe de Maria de Fátima (Glória Pires), sua própria filha, e nunca aceitou a falta de caráter da herdeira. Os confrontos eram memoráveis. Não tolerava qualquer deslize e tinha como principal qualidade a integridade. Regina nunca viu problema no fato do presidente defender tanto seus filhos, mesmo quando envolve até investigação da Polícia Federal. E a icônica Maria do Carmo, de “Rainha da Sucata” (1990)? A sucateira que enriqueceu e passou a despertar o ódio da elite paulistana representada por Laurinha Figueiroa (Glória Menezes) não tinha medo de cara feia e enfrentava qualquer um que a menosprezasse. Jamais curvaria a cabeça para o autoritarismo ou sentiria medo de homenagear algum amigo que faleceu por conta de possíveis retaliações.

“Chiquinha Gonzaga” (1999) foi uma artista que se livrou da pressão da sociedade e de relacionamentos abusivos. Ignorou as constantes intimidações dos pais para ser uma mulher “recatada e do lar” e foi seguir seu sonho de viver da música. Ainda terminou sua vida ao lado de um homem bem mais jovem, outro escândalo para a época (faleceu em 1935). Uma figura que definitivamente jamais aceitaria um cargo no atual governo, assim como Helena, de “Por Amor” (1997), que não suportava a postura arrogante de Branca (Susana Vieira) e a forma como rebaixava todos que se opunham a ela. Helena enfrentava a vilã com a mesma dose de ironia. Um combate de igual para igual. Tudo para defender seus pensamentos. Não ficava insegura nem por um minuto.

É uma pena ver uma atriz tão talentosa e com uma trajetória tão brilhante se sujeitar ao pior papel de sua carreira: o de secretária da Cultura de um governo que não respeita ninguém. Antes da entrevista concedida à CNN, a intérprete era vista até como uma vítima. Uma pessoa com boas intenções que acabava podada por todos que a cercavam. No entanto, após as declarações cruéis e a total alienação na última quinta-feira, Regina Duarte provou que está entre os seus. A profissional que tanto cresceu através das artes nunca gostou muito de perfis como Maria do Carmo, Raquel, Helena, Malu… Regina sempre se identificou mesmo com Odete Roitman, Laurinha Figueiroa e Branca Letícia de Barros Motta.

SÉRGIO SANTOS é apaixonado por televisão e está sempre de olho nos detalhes, como pode ser visto em seu blog. Contatos podem ser feitos pelo Twitter ou pelo Facebook.


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