Puro suco dos anos 80, Hit Parade escancara os excessos da indústria fonográfica da década

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Se você não tem familiaridade com os anos 1980, pode se surpreender com Hit Parade. Se você tem alguma referência da década, pode se surpreender ou vai entrar fácil na onda. Hit Parade é a nova série do Canal Brasil, que estreou na última sexta-feira (21), às 22h30. Está disponível nos streamings da Globo (Globoplay e Canais Globo).

Mais do que uma série ambientada no anos 80, Hit Parade é puro suco da década. Aborda, por meio de personagens e tramas fictícias, os bastidores nada politicamente corretos da indústria fonográfica brasileira de então, antes do advento dos CDs. Sabe LP, vinil, e fita k7? É sobre isso.

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Entretanto, esqueça a estética alegre, colorida e extravagante, e o neon verde-limão e laranja. Apesar da aura oitentista servida de mullets e ombreiras, Hit Parade é quase soturna. A alegria contagiante de programas infantis e de auditório se limita às apresentações de bandas e cantores populares, com dançarinas seminuas, júri caricato, macacas de auditório e muito brilho. Quando as câmeras se apagam, a alegria é diluída em whisky e cocaína.

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Mesmo sabendo tratar-se de uma série de ficção, é impossível não relacionar vários entrechos com a realidade. “Qualquer semelhança com fatos e pessoas não terá sido mera coincidência.” Ainda mais se você assistiu à excelente série documental História Secreta do Pop Brasileiro. O criador das duas séries é o mesmo, o jornalista André Barcinski.

Perguntei a Barcinski se Hit Parade era baseada em fatos, mas com nomes trocados para proteger as identidades dos envolvidos: “Muitas das histórias são baseadas em fatos, outras foram ligeiramente ‘aumentadas’ para efeito dramático, mas certamente é uma série ficcional inspirada por casos reais“, ele respondeu.

Hit Parade narra a história do cantor e compositor frustrado Simão, que, depois de ser passado para trás, resolve abrir ele mesmo uma gravadora, com a parceria da mulher, usando de métodos pouco éticos e nada ortodoxos para lançar seus músicos e discos e alcançar o sucesso. Do drama à comédia, Hit Parade é uma paródia sarcástica dos anos 80, que escancara esqueletos guardados nos armários de uma época hoje cultuada.

Do consumo de drogas ao sexo e nudez, Hit Parade não faz concessões. A apresentadora de programa infantil, o apresentador de programa de auditório, a boy band, a dupla em que apenas um canta, o cantor decadente que tenta se relançar, a grande rede de televisão com gravadora própria, a ética maleável, os oportunistas, os jabás, os playbacks, o falso astro estrangeiro, os discos com cantores fakes, o consumo exagerado de álcool e drogas a qualquer hora e lugar, os assédios morais e sexuais, as trocas de favores (morais e sexuais) e outros excessos mais são desvendados ou tem alguma correlação com a realidade.

Não espere uma produção requintada com astros “globais”. A proposta é justamente fugir de qualquer sinal de glamourização. Com produção da Kuarup e direção de Marcelo Caetano (do filme Corpo Elétrico), o roteiro é assinado por André Barcinski e Ricardo Grynszpan. A série foi toda filmada em Belo Horizonte e o elenco é de atores pouco conhecidos do grande público. Para uma produção que trata de música, uma trilha sonora original com músicas que remetem à época retratada.

O protagonista Simão é vivido pelo ótimo Tulio Starling. A mulher de Simão, Lidia, é interpretada pela também ótima Barbara Colen (dos filmes Bacurau e Aquarius e da série Onde Está Meu Coração). O ator Odilon Esteves é o apresentador de TV Lobinho; Robert Frank é o quase vilão Missiê Jack, produtor musical adversário de Simão; e Nash Laila é Natasha, cantora sexy que se torna apresentadora de programa infantil. Também no elenco Luiz Rocha, Docy Moreira e Gabriel Afonso, as participações especiais dos cantores Maria Alcina, Ovelha e Edy Star, e outros.

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