Sem saudade: pior novela de Glória Perez estreava há 9 anos na Globo - TV História

Sem saudade: pior novela de Glória Perez estreava há 9 anos na Globo

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No dia 17 de maio de 2013, finalmente chegava ao fim uma das novelas mais criticadas dos últimos tempos. Estreando há exatamente nove anos, em 22 de outubro de 2012 com a difícil e ingrata missão de suceder o fenômeno Avenida Brasil, Salve Jorge iniciou seu ciclo de uma forma nada animadora: recheada de problemas, equívocos e repetições, a história derrubou a audiência do horário e sofreu uma forte rejeição. O tempo foi passando e os erros, ao invés de serem corrigidos, foram aumentando. O resultado final não poderia ter sido outro: a trama saiu de cena massacrada pela crítica, debochada pelo público e considerada o pior trabalho de Glória Perez.

Após acompanhar por muitos meses os movimentados capítulos de Avenida Brasil, o público sentiu a mudança ao se deparar com os capítulos de Salve Jorge e foi inevitável não comparar. Porém, as comparações seriam facilmente esquecidas caso a novela tivesse empolgado através de sua história e de seus personagens, o que não aconteceu. Apresentando o tráfico de pessoas como tema central, a trama se perdeu em meio a situações totalmente inverossímeis, excesso de personagens, direção equivocada e núcleos paralelos irrelevantes.

Abordar o tráfico de mulheres foi um grande acerto da autora. Afinal, além de movimentar a história com um bom suspense, ainda serviria para alertar os telespectadores a respeito de um crime pouco conhecido.

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Entretanto, somente o segundo objetivo foi alcançado, uma vez que a condução dessa temática foi completamente equivocada e cheia de furos. Vítima (Jéssica – Carolina Dieckmann) que, ao invés de chamar a polícia, conta para a vilã (Lívia – Cláudia Raia) que já sabe tudo sobre ela; vilã que mata mulher (Rachel – Ana Beatriz Nogueira) dentro de um elevador sem ninguém ver; vilão (Russo – Adriano Garib) que vai até uma delegacia dizer que uma traficada é sua sobrinha e nem é obrigado a apresentar a identidade; mocinha que grita por socorro na Turquia mas ninguém lhe ajuda por não entender sua língua, embora na novela todos falem português; Polícia Federal que envia uma policial (Jô – Thammy Miranda) para investigar a quadrilha mas acaba enviando também uma vítima (Morena – Nanda Costa) para o antro dos traficantes; uma traficada (Maria Vanúbia – Roberta Rodrigues) arrumar um canivete do nada para se defender, enfim, o que não falta é erro. Mesmo sendo ficção, existe a necessidade de exibir o mínimo de verossimilhança para que o público não se sinta subestimado. Licenças poéticas são necessárias em qualquer teledramaturgia, mas essa trama ultrapassou todos os limites, sendo ainda pior nesse caso porque a história buscava retratar a realidade do tráfico humano.

Infelizmente, os erros não ficaram somente no núcleo central. A novela contou com inúmeros personagens sem função e quase todos os núcleos paralelos eram irrelevantes. Tinha mais personagem do que história. A trama do exército foi um fracasso. Fernanda Paes Leme (Márcia) viveu uma mulher sem conflitos e Flávia Alessandra (Érica) interpretou uma espécie de santa que era passada pra trás a todo instante, mas sempre perdoava. Praticamente uma trouxa. O vilão Élcio (Murilo Rosa) tinha como função fazer armações bem bobocas em cima do Theo (Rodrigo Lombardi) para tentar prejudicá-lo. E falando em Theo, o capitão já entrou para a lista de mocinhos rejeitados da Glória Perez. Um sujeito prepotente, que traiu a namorada várias vezes, transou com a vilã e ainda deixava a mãe se meter na sua vida, não pode ser chamado de ‘ o cara’.

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O núcleo de Leonor (Nicette Bruno) começou tendo a cachorrinha Emily como protagonista e o enredo se baseava na herança da cachorra que todos os integrantes da família cobiçavam. No entanto, essa foi mais uma história que não deu certo e o núcleo foi ficando de lado. O curioso é que, na reta final, todos começaram a aparecer de novo mas a cadelinha simplesmente sumiu. E, após ter brilhado tanto em A Vida da Gente como a bondosa Iná, foi uma lástima ver Nicette com um papel tão ingrato.

Outro caso claro de desperdício de atores foi o núcleo turco. Além de cansar o telespectador exibindo um país com costumes, vestimentas e danças semelhantes a Marrocos e Índia – locais amplamente abordados pela autora em O Clone e Caminho das Índias -, os personagens pouco apareceram e nada acrescentaram à história. Triste ver atores talentosos como Ernani Moraes, Elizângela, Walderez de Barros, Isaac Bardavid, Jandira Martini, Domingos Montagner, Tânia Khalill e Narjara Turetta desperdiçados em um núcleo repetitivo e irrelevante.

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Há ainda os casos de atores que tinham personagens tão pequenos que acabaram sumindo sem maiores explicações. Sacha Bali, por exemplo, apareceu nos primeiros capítulos vivendo Beto, um traficante que era pai do filho de Morena e parecia que perturbaria a vida da mocinha. Não perturbou. Sumiu mesmo. Cristiana Oliveira (Yolanda) e André Gonçalves (Miro) foram outros que desapareceram. Nem parecia que ambos faziam parte da novela. Eva Todor precisou se ausentar por causa de uma queda que sofreu, mas logo se recuperou. No entanto, nunca mais foi chamada. Só deu o ar da graça na última semana e para dizer uma frase. Também é importante citar os profissionais que tiveram aparições esporádicas e com pouquíssimas falas: Rosi Campos (que servia apenas de ‘orelha’ para Áurea – Suzana Faini), Flávia Guedes, Cris Vianna, Cissa Guimarães, Mariana Rios, Jonas Mello e Natália do Valle. A ótima Ana Beatriz Nogueira entraria nessa lista caso não tivesse pedido para sair da novela.

Entretanto, alguns núcleos conseguiram um pouco de destaque, dando boas oportunidades aos atores. Berna e Mustafá tiveram uma boa participação com a história da falsa-adoção de Aisha e o trio Zezé Polessa, Antônio Calloni e Dani Moreno conseguiu protagonizar grandes cenas. Delzuíte acabou se beneficiando desse destaque porque era mãe verdadeira de Aisha, o que acabou favorecendo Solange Badim, uma ótima atriz que infelizmente já nos deixou. Outra situação que conseguiu render foi a alienação parental praticada por Celso, onde o mau-caráter influenciava a filha contra a mãe, Antônia, sua ex. Caco Ciocler e Letícia Spiller fizeram boas sequências. Entretanto, todas essas tramas não podem ser citadas como acertos, pois eram cansativas e andavam em círculos, porém, os atores envolvidos merecem elogios pelas suas respectivas atuações e o destaque que tiveram precisa ser citado.

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E entre os enormes equívocos de Salve Jorge, é preciso enfatizar a direção. Marcos Schechtman, Fred Mayrink e equipe erraram do início ao fim. Todas as cenas de briga (e foram muitas) ficaram a desejar, as sequências envolvendo acidentes e perseguições foram decepcionantes e as orientações dadas a muitos atores – principalmente Cláudia Raia para compor sua Lívia Marini – foram infelizes e deixaram muitos personagens exagerados (Betty Gofman e Neusa Borges são outros exemplos). Outro amadorismo da direção foi em cima da continuidade. Os erros cometidos – como os diferentes tipos de cabelo da Morena – chegaram a constranger. Sem dúvida essa foi uma das maiores falhas da novela, que teve todos seus problemas piorados graças a essa decepcionante direção.

Mas Salve Jorge também teve acertos. Totia Meirelles pôde viver sua primeira vilã e deu um show. Wanda roubou a cena e virou a grande víbora da trama. Adriano Garib finalmente ganhou um papel de destaque e mostrou o ator talentoso que é ao dar vida a Russo, o capanga de Lívia Marini. Paloma Bernardi também merece aplausos pela sua Rosângela, após ter vivido duas mocinhas puras em seus últimos trabalhos. Laryssa Dias, a Waleska, foi uma grata revelação e tem um futuro promissor pela frente. A participação de Carolina Dieckmann deu tão certo que a atriz sairia no capítulo 20 mas acabou ficando até o 75. A atriz fez uma boa dupla com Nanda Costa.

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E o que dizer de Giovanna Antonelli? A Dona Helô virou a protagonista da novela e sua personagem caiu no gosto popular. Mais uma vez o público aplaudiu de pé a atuação da talentosa Giovanna, que ainda fez uma ótima e divertida parceria com Alexandre Nero, o advogado Stênio – infelizmente, a compulsão de sua personagem por compras foi esquecida e acabou entrando na lista de erros. A periguete Maria Vanúbia também merece ser lembrada como um grande êxito. Infelizmente Roberta Rodrigues foi desperdiçada em meio a cenas repetitivas, mas ainda assim sempre se destacava e roubou a cena na última semana da novela. Seus bordões eram divertidíssimos: Pipipi, olha o recalque!, Sou Maria Vanúbia, não sou bagunça!, Quem é você na fila do pão francês? são apenas alguns deles. Já Nando Cunha, embora tenha tido um papel praticamente sem história, divertiu na pele do malandro Pescoço e pode ser incluído nesse pacote de acertos. Thammy Miranda foi um outro caso surpreendente: começou desacreditada e terminou elogiada por causa de sua desenvoltura como a investigadora Jô.

Infelizmente, os acertos ficaram insignificantes diante de tantos equívocos. Definitivamente a história de vida da mulher pobre, moradora do Complexo do Alemão, que se apaixonou por um capitão do exército e se viu nas mãos do tráfico humano, não funcionou e acabou sendo desenvolvida de uma forma totalmente errônea. É de se lamentar também que a autora não tenha aceitado nenhum tipo de crítica, classificando todas as reprovações como ‘pura inveja do bonde dos recalcados’. Ainda tentou, sem sucesso, explicar as situações inverossímeis de sua obra alegando que o telespectador tinha que ‘saber voar’. Também insinuou que muitas pessoas recebiam dinheiro para falar mal da novela. Pena, pois a autora poderia usar esse tempo para refletir em tudo o que não estava dando certo e melhorar, como tentou fazer na época de América.

Salve Jorge terminou apresentando um último capítulo mais longo, exibindo a derrocada de Lívia Marini e seus comparsas, a libertação das traficadas, o casamento de Helô e Stênio e a felicidade de Theo e Morena, o insosso casal protagonista. Mas, sem dúvida, o grande acerto desse final foi o desfecho de Wanda, que virou evangélica na prisão. Uma ótima ironia da autora em cima dos marginais que se ‘convertem’ quando são pegos e também uma estocada em Guilherme de Pádua, o assassino de sua filha.

Finalmente fechou-se o ciclo dessa história para o alívio de muitos. Após tantos meses no ar, tantos erros exibidos e tantas críticas recebidas, a trama de Glória Perez se despediu do telespectador pela porta dos fundos e sem deixar saudade.

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