Onça, sucuri e cramulhão: Pantanal conquista o público com realismo fantástico

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Nilson Xavier

Muitos são os fatores para o sucesso de Pantanal: produção de qualidade (elenco, texto, direção, etc.), resgate de uma trama rural no horário nobre, memória afetiva do público e uma das melhores histórias de nossa televisão.

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Aliada à história, outro fator que ajuda explicar o êxito da novela é a sedução pela fantasia, o convite à desopilação da realidade por meio do realismo fantástico do universo de Benedito Ruy Barbosa.

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Pantanal trouxe de volta o ambiente rural mítico brasileiro, do caboclo gentil, viril e valoroso (perpetuado na Literatura e até na televisão, por Irmãos Coragem, novela de Janete de Clair, de 1970-1971), associado ao folclore e às lendas das matas e sertões, temática já bastante explorada por Benedito em sua obra.

A trama trata a dicotomia bem-mal por meio do temor dos personagens a Deus e ao Diabo e do confronto entre a religiosidade rural e o ceticismo urbano (representado pelo núcleo carioca) – no qual se privilegia a religiosidade em detrimento do ceticismo.

Enquanto Filó reza para sua santa e Trindade é possuído pelo cramulhão, Irma caçoa das histórias que ouve sobre a mulher que vira onça e o velho que vira sucuri.

Nestes pontos extremos, está o meio termo: disciplinado pelo Velho do Rio, Jove passa pela transformação interna do cético urbano ao peão que finca raízes para se estabelecer na terra.

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Depois de tantas tramas urbanas carregadas de problemáticas sociais exaustivas, o público se encanta com a fantasia proposta por Benedito Ruy Barbosa, muito eficiente ao embutir complexidade social na simplicidade rural.

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Sem deixar de reivindicar as demandas do homem do campo, o texto, adaptado por Bruno Luperi, costura as tramas de forma envolvente e sedutora. Algo que faltou à última tentativa da Globo na incursão ao realismo fantástico: a novela O Sétimo Guardião, de Aguinaldo Silva.

Semana #10

Sobre a décima semana, quero comentar duas sequências.

Machismo

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Na cena em que Tadeu apresenta Guta como namorada a Zé Leôncio, o pai do peão destrata a garota gratuitamente, tentando invalidá-la por seu comportamento pregresso, em uma demonstração do mais puro machismo execrável:Antes dele, você gostou do Joventino, do Arcides, de sei lá mais quem…

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Depois, Guta desabafa com Jove:

Eu acabei de ser chamada de vagabunda por um cara que grita aos quatro ventos as aventuras e o filhos que ele fez pela vida. (…) Eu tô cansada de ver os homens ditando o rumo do mundo, de ser calada, de ser oprimida, e todo mundo fingir que tá tudo bem.”

Um homem com o perfil de Zé Leôncio talvez nunca consiga desconstruir o seu machismo. Porém, faltou ele ouvir poucas e boas. Particularmente fiquei incomodado com o fato de ninguém defender a garota, nem Jove, nem Tadeu, nem Filó, que estavam presentes.

PIB que não beneficia o pobre

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No capítulo de sábado, o autor levanta uma questão importante quando o latifundiário Zé Leôncio critica o desmatamento feito com a finalidade de plantar ou de criar gado.

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Seu filho Jove concorda: “Para encher o bolso de meia dúzia de privilegiados”.

Zé Lucas ri: “É engraçado ouvir isso da boca de um deles. Deve ser muito fácil criticar o resto do país quando se nasce com a burra cheia”.

Jove afirma que está criticando o modelo econômico e Zé Lucas argumenta que esse modelo alimenta o povo e elevou o PIB do país.

Jove: É, mas gera cada vez menos emprego, menos riqueza pro povo. A gente exporta o nosso bem mais precioso que é a água pra quê? Pra plantar comódite?.

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Com os ânimos alterados, a discussão parte para outro campo:

Lucas: Acho estranho ouvir isso da boca de um sujeito que nunca teve carteira assinada na vida.
Jove: Eu tive tempo pra estudar, cara. Só isso.
Lucas: Tô vendo que você teve tempo de sobra. Quando você estudava eu tive que trabalhar.
Jove: Eu tive tempo e entendi que o sistema tá vendendo as nossas riquezas a preço de banana.
Lucas: Banana é barato, mas pra quem tem fome, enche barriga.
Jove: Enche! A curto prazo né. A longo prazo, é um caminho sem volta.
Lucas: Só diz isso quem nunca teve um prato vazio na frente.
Jove: Falou! Então não vou dar mais minha opinião, porque nunca passei fome, né!

Para pensar.

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