A reprise de Rainha da Sucata no Vale a Pena Ver de Novo reacende a memória do público sobre a atuação de Flávio Migliaccio, que na novela de Silvio de Abreu deu vida a Seu Moreiras, dono da maior quitanda do bairro de Santana. Presença constante nas cenas de humor, o personagem ajudava a compor o retrato cotidiano da trama, marcada pelo contraste entre a elite tradicional e a ascensão social dos novos-ricos.
Nascido em 26 de agosto de 1934, no bairro do Brás, em São Paulo, Flávio Migliaccio construiu uma das trajetórias mais longas e consistentes da dramaturgia brasileira. Iniciou a carreira no teatro, atuando em montagens na periferia da capital paulista, onde integrou um grupo ligado à igreja do Tucuruvi. Após realizar um curso com o diretor italiano Ruggero Jacobbi, estreou profissionalmente no Teatro de Arena, interpretando um cadáver na peça Julgue Você (1956).
No palco, participou de peças marcantes como Juno e o Pavão (1957), Eles Não Usam Black-Tie (1958), A Revolução na América do Sul (1960), As Almas Mortas (1961) e Andorra (1964), entre outras, consolidando-se como um dos nomes ligados à renovação do teatro brasileiro.
Carreira de Flávio Migliaccio na TV
Na televisão, Migliaccio esteve presente em mais de seis décadas de produções. Estreou na Globo em O Primeiro Amor (1972) e ganhou projeção nacional com o seriado Shazan, Xerife & Cia. (1972–1974), voltado ao público infantojuvenil. Ao longo dos anos, participou de novelas como O Astro (1977), Pai Herói (1979), O Salvador da Pátria (1989), Perigosas Peruas (1992), A Próxima Vítima (1995), Senhora do Destino (2004), Passione (2010) e Órfãos da Terra (2019), sua última participação em novelas.
Também integrou elencos de seriados e minisséries como Viva o Gordo (1981–1987), Chico Anysio Show (1982), Parabéns pra Você (1983), O Sorriso do Lagarto (1991), Você Decide (1992–1999), Chiquinha Gonzaga (1999) e Pastores da Noite (2002). Em um de seus últimos trabalhos na TV, ficou marcado como Seu Chalita Assad na série Tapas & Beijos (2011–2015).
No cinema, integrou produções importantes do audiovisual nacional, como O Grande Momento (1956), Cinco Vezes Favela (1962), Terra em Transe (1967), O Homem que Comprou o Mundo (1968), O Donzelo (1970), Verônica (2009) e Hebe: A Estrela do Brasil (2019), ampliando sua atuação para além da televisão.
Por onde anda Flávio Migliaccio?
Na vida pessoal, Flávio Migliaccio foi casado com Yvonne Migliaccio. Era pai do jornalista Marcelo Migliaccio e irmão da atriz Dirce Migliaccio, com quem compartilhou os primeiros passos na carreira artística. Fora dos estúdios, mantinha uma rotina reservada, longe da exposição pública.
Flávio Migliaccio morreu em 4 de maio de 2020, aos 85 anos, em seu sítio no interior do Rio de Janeiro. A morte foi registrada como suicídio e teve ampla repercussão no meio artístico.
Com a reapresentação de Rainha da Sucata, o público tem a oportunidade de revisitar o trabalho de um ator cuja carreira atravessou diferentes fases da dramaturgia nacional e ajudou a construir a memória da televisão no país.
