Novela que terminava há 25 anos teve atriz frustrada e ameaça ao autor

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Há exatamente 25 anos, no dia 14 de fevereiro de 1997, a Globo exibia o último capítulo de O Rei do Gado, sucesso de Benedito Ruy Barbosa.

A trama prendeu o público do início ao fim e marcou a TV brasileira – apesar de sua protuberante “barriga” (momento na trama em que nada acontece).

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Foi a última novela da trilogia do autor no horário nobre sobre o interior do Brasil, iniciada com Pantanal (1990) e Renascer (1993). Benedito só voltou à temática com Velho Chico, em 2016.

Listo 10 curiosidades sobre a produção. Confira:

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Primeira fase

A emocionante primeira fase – uma espécie de “Romeu e Julieta” tendo como pano de fundo a decadência do ciclo do café e a inserção do Brasil na Segunda Guerra Mundial – foi um dos melhores momentos de nossa Teledramaturgia. Era uma história à parte, separada da fase definitiva (ainda que mostrasse os antecedentes dos personagens), que chegou a ser exibida no exterior como minissérie.

A direção geral e concepção estética foi do meticuloso diretor Luiz Fernando Carvalho: ares operísticos com elementos do teatro e da narrativa audiovisual em uma fotografia cinematográfica – do festejado diretor Walter Carvalho.

A segunda fase mostrou a modernização e a riqueza do interior paulista por meio da cidade de Ribeirão Preto. A capital paulista e a região do Araguaia também serviram de cenário para a trama.

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Personagens inesquecíveis

Parte da aceitação do público deveu-se a personagens carismáticos e ricos, com várias camadas. Com uma estrutura bem distante do maniqueísmo, tão comum aos folhetins, O Rei do Gado não tinha necessariamente vilões ou mocinhos, mas personagens tão bem construídos que ficava impossível para o público não se envolver com todos os ângulos da história proposta pelo autor.

Antônio Fagundes, Raul Cortez e Carlos Vereza interpretaram tipos que marcaram suas carreiras: respectivamente Bruno Mezenga, Geremias Berdinazzi e o Senador Roberto Caxias.

Patrícia Pillar passou dez dias entre cortadores de cana para compor sua bela e forte Luana, personagem pela qual foi muito elogiada. Fábio Assunção, então com 25 anos, teve seu primeiro grande momento na TV, como o rebelde Marcos Mezenga.

Silvia Pfeifer, no papel da infiel Leia Mezenga, recebeu críticas pela sua interpretação, mas conquistou o público. Com o passar do tempo, Leia tornou-se um ícone das personagens de novelas, seja pelos belos figurinos ou pela caracterização (loura oxigenada), um tanto caricata.

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Atriz frustrada

Na época, ficou notória a frustração de Glória Pires com sua personagem, Rafaela, que fingia ser Marieta Berdinazzi, a sobrinha desaparecida de Geremias (Raul Cortez).

“Eu aceitei confiando plenamente em Benedito, porque tínhamos trabalhado em Cabocla [1979]. Houve algum problema, porque ele não desenvolveu a personagem como havia falado. É horrível quando você espera algo que não vem”, desabafou a atriz em sua biografia “40 Anos de Glória” (escrita por Eduardo Nassife e Fábio Fabrício Fabretti).

Totalmente sem rumo na trama, a personagem teve um desfecho medíocre, terminando desnorteada em uma fazenda que o tio deu a ela em consideração pela avó da moça, a italiana com quem seu irmão Bruno se casara nos anos 1940, e especialmente em troca da manutenção do segredo em torno da morte do advogado Fausto (Jairo Mattos), assassinado pelo próprio Geremias. O fazendeiro vingou a morte do leal empregado e amigo Olegário (Rogério Márcico), morto por Fausto.

“Arregacei as mangas e levei a missão até o fim, dignamente. Foi o que me restou fazer”, completou a atriz.

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Atraso na produção

O Rei do Gado deveria ter estreado após Explode Coração (em maio de 1996), mas houve um atraso em sua produção. A hipótese de espichar a trama de Glória Perez chegou a ser cogitada, mas a emissora a descartou, pois tinha assumido o compromisso de liberar a novelista em maio para o julgamento dos acusados do assassinato de sua filha, a atriz Daniella Perez (assassinato ocorrido em 1992).

A solução foi um tapa-buraco: a mininovela O Fim do Mundo, um texto que Dias Gomes havia escrito para ser lançado como uma minissérie. Assim, O Fim do Mundo foi exibida em 35 capítulos até que O Rei do Gado pudesse estrear com folga, em junho de 1996.

Ameaça ao autor

A Reforma Agrária, a vida dos trabalhadores do Movimento dos Sem Terra (MST) e a luta pela posse de terras foram amplamente discutidos na novela e tiveram grande repercussão na mídia e na sociedade em geral. O Rei do Gado estreou dois meses após a morte de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA), fato que tomou conta do noticiário da época e gerou muita discussão.

“Um dia, o Boni me ligou muito bravo porque eu coloquei os sem-terra na trama. Ele queria saber o porquê de não aparecer essa informação na sinopse”, disse Benedito Ruy Barbosa para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”.

Depois de uma longa explicação e do compromisso de tratar da temática com cautela, o autor recebeu o sinal verde para continuar o trabalho nesse núcleo.

No auge da repercussão sobre o MST, Benedito recebeu um cartão em casa, sem assinatura, em tom de ameaça: “Parabéns pelo que você arranjou. Sou fazendeiro e se aparecer alguém aqui como os de sua novela, aumento o muro três metros para ninguém sair mais”.

O autor sabia que, ao abordar a questão das grandes propriedades destinadas à criação de gado, não poderia deixar de citar a tão sonhada reforma agrária.

“A novela ajudou a fazer as pessoas nos olharem de maneira diferente. Nos deu status de cidadãos”, disse o presidente do MST na época, João Pedro Stédile.

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Críticas de políticos

Benedito Ruy Barbosa recebeu inúmeras críticas de políticos por causa da forma como mostrava ao telespectador o trabalho dos parlamentares. Em uma marcante cena da novela, o Senador Caxias (Carlos Vereza) fez um discurso emocionado sobre os sem-terra enquanto no plenário havia apenas três senadores: um cochilando, outro lendo jornal e o terceiro falando ao celular.

No dia seguinte, o então senador Ney Suassuna subiu à tribuna do senado para protestar contra o que classificou como “distorção da realidade”. Segundo ele, a cena induzia a população a acreditar que não havia senadores honestos no país.

Contudo, a novela contou com as participações especiais dos senadores Eduardo Suplicy e Benedita da Silva, que gravaram para o funeral do Senador Caxias.

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Prêmios

O Rei do Gado recebeu o Certificado de Honra ao Mérito no San Francisco International Film Festival, concorrendo com 1525 produções de 62 países. A primeira fase da novela foi especialmente transformada em minissérie para o Festival Banff, do Canadá, em que foi selecionada como obra hors-concours.

Por suas atuações, Raul Cortez foi eleito pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) o melhor ator na TV em 1996, Leonardo Brício o melhor ator coadjuvante, Walderez de Barros a melhor atriz coadjuvante, Caco Ciocler a revelação masculina na televisão, e Tarcísio Meira ganhou um prêmio especial.

O Rei do Gado foi ainda premiada com o Troféu Imprensa de melhor novela de 1996. Raul Cortez levou o prêmio de melhor ator.

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Estreias

Primeira novela na Globo de Marcello Antony, Caco Ciocler, Mariana Lima, Lavínia Vlasak e Emílio Orciollo Neto.

O Rei do Gado foi a primeira novela inteira (com uma personagem fixa) da veterana atriz Walderez de Barros na Globo (no ano anterior, ela fez uma participação em Cara e Coroa).

A atriz aceitou o convite do diretor Luiz Fernando Carvalho para viver Judite, a empregada de Geremias Berdinazzi (Raul Cortez), com quem ele se envolve no final. A personagem começou pequena na trama e foi crescendo aos poucos e ganhando a simpatia e a torcida do público.

Trilha recordista

A primeira trilha sonora da novela é até hoje recordista de vendagem: o disco O Rei do Gado 1 (com Patrícia Pillar na capa) vendeu mais de 2 milhões de cópias (entre CDs, LPs e K7s), suplantando o recorde anterior, a trilha internacional da novela O Salvador da Pátria, de 1989.

Foi uma época em que os “bolachões” (os LPs) estavam baratos porque os CDs já haviam se popularizado. Os discos de vinil para trilhas de novelas foram abolidos no ano seguinte, em 1997 (“A Indomada volume 1” foi o último).

A trilha sonora volume 2 de O Rei do Gado era composta, em sua maioria, por gravações da fictícia dupla sertaneja Pirilampo e Saracura, vivida na novela por Almir Sater e Sérgio Reis.

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Sequência final

Na última cena, sobe – sobre milhares de pés de café, lavouras de soja, milho e cana de açúcar – um letreiro que diz:

“Deus, quando fez o mundo, não deu terra para ninguém, porque todos os que aqui nascem são seus filhos. Mas só merece a terra aquele que a faz produzir, para si e para os seus semelhantes. O melhor adubo da terra é o suor daqueles que trabalham nela”.

E a câmera volta em Bruno Mezenga e Geremias Berdinazzi, em meio àquele imenso cafezal, como se os dois estivessem discutindo, e deixa a pergunta “Vai começar tudo de novo?”, em referência à eterna briga dos dois antagonistas.

AQUI tem tudo sobre O Rei do Gado: a trama, elenco, personagens, trilha sonora e mais curiosidades.

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