Deu tudo errado: em 2001, novela das sete quis inovar, mas afundou a Globo - TV História

Deu tudo errado: em 2001, novela das sete quis inovar, mas afundou a Globo

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Tinha tudo para dar certo. Mas acabou dando errado – e muito errado. Sucedendo Um Anjo Caiu no Céu, As Filhas da Mãe estreou na Rede Globo no dia 27 de agosto de 2001, com grande expectativa, na faixa das 19 horas. A trama terminava há exatamente 19 anos, em 18 de janeiro de 2002, com saldo negativo.

Novela de Silvio de Abreu, um dos autores mais bem-sucedidos no horário e dono de grandes sucessos, como Cambalacho, Rainha da Sucata e A Próxima Vítima, entre outros, a produção tinha um elenco estelar, encabeçado por Fernanda Montenegro, como poucas vezes foi visto em obras da Rede Globo.

Tratava-se de uma comédia rasgada, ao estilo das novelas de Abreu, com direção geral de Jorge Fernando. Entre a farsa e a chanchada, As Filhas da Mãe, ou melhor, A Incrível Batalha das Filhas da Mãe no Jardim do Éden, o título completo da obra, basicamente focava o reencontro de uma família e a disputa por uma herança.

No entanto, por inúmeros fatores, As Filhas da Mãe prejudicou o Ibope da Globo e acabou saindo do ar antes do previsto.

Confira alguns desses motivos na lista abaixo.

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Problemas com a classificação indicativa

Antes mesmo da trama estrear, o Ministerio da Justiça a classificou como imprópria para menores de 12 anos, sendo inadequada para exibição antes das 20 horas. O motivo? “Desvirtuamento dos valores éticos”. No entanto, a novela, como ficou provado, não tinha nada demais. O imbróglio se deu por conta da personagem Ramona, vivida por Cláudia Raia, que era transexual, como informou a Folha de S.Paulo em 3 de junho de 2001. Para exibir As Filhas da Mãe na faixa das 19 horas, a emissora teve que entrar com um recurso no MJ e negociar.

Raps para entremear as cenas

Uma das inovações de As Filhas da Mãe foi o uso de pequenos raps para entremear as cenas. A novidade, de acordo com a imprensa da época, foi ideia do próprio Silvio de Abreu. Mú Carvalho, produtor musical da Globo até hoje, recebia a sinopse de cada capítulo e se reunia com os integrantes de sua equipe, como o músico e arranjador vocal Paulinho Soledade e o compositor Dudu Falcão, para criar as musicas. Os raps tinham de 20 a 30 segundos. Para não cansar o público, já estava previsto, desde o início, que a partir do capítulo 30 o número de inserções iria diminuir. Em pouco tempo, no entanto, nos grupos de pesquisa que a emissora constantemente promove, já foi identificado que aquilo era um problema. “A presença do rap explicando as ações dos personagens foi vista com estranheza”, contou Silvio de Abreu em matéria do jornal O Estado de S. Paulo de 8 de outubro de 2001. “Vamos usar o rap agora só quando for muito necessário”, completou o autor.

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Ritmo e agilidade das cenas

Outra inovação de As Filhas da Mãe era um ritmo bastante ágil, o que também não ajudou a cativar os telespectadores. “Os grupos de discussão ajudaram o autor a mexer no ritmo da trama. Abreu conta que entre o público mais velho, acima de 40 anos, e de classes sociais mais baixas (C e D), foram apontadas dificuldades em acompanhar o ritmo frenético das cenas da novela”, explicou a matéria do Estadão. “O público noveleiro, mais conservador, estranhou um pouco o ritmo da novela, mas penso que agora tudo está mais claro, todo mundo já sabe quem é quem na trama”, enfatizou Abreu.

Elenco estelar

Por incrível que pareça, o elenco estelar não ajudou As Filhas da Mãe. A novela contava com nomes do quilate de Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Raul Cortez, Francisco Cuoco, Cláudia Raia, Reynaldo Gianecchini, Thiago Lacerda, Alexandre Borges, Cláudia Ohana, entre muitos outros, além de marcar a volta de Regina Casé às novelas. Em reportagem da Folha de S.Paulo de 10 de setembro de 2001, quando a trama tinha duas semanas no ar e marcava a mesma audiência de Malhação, Daniel Castro destacou que foi detectado que “o problema seria o excesso de personagens e de subtramas”. Foram necessárias, por exemplo, quase duas semanas para apresentar todas as histórias aos telespectadores. Ramona, personagem de Claudia Raia, só apareceu na segunda semana. A Globo também atribuiu a baixa audiência ao racionamento de energia elétrica em vigor na época, mas vale lembrar que os programas policiais, como de Jose Luiz Datena, e as novelas mexicanas do SBT estavam em alta na época.

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Final antecipado

Por causa da baixa audiência, a novela acabou sendo encurtada pela Globo. A meta era de 40 pontos, mas a trama sofria para dar 30. A direção da emissora decidiu, ainda em novembro de 2001, que a obra, que terminaria em março de 2002, seria encerrada em fevereiro, antes do Carnaval, perdendo cerca de 20 capítulos. No final das contas, As Filhas da Mãe acabou antes disso, em 18 de janeiro, com apenas 125 capítulos – foram 60 episódios a menos.

Na época, foi dito que As Filhas da Mãe seria encerrada antes para não encavalar com o final da novela das seis, que também não ia bem. Mas, evidentemente, aquilo era uma desculpa. O próprio Silvio de Abreu, em entrevista ao suplemento TV Folha em 20 de janeiro de 2002, declarou: “foi uma maneira elegante de dizer que a novela ia sair antes porque não estava dando os índices de audiência esperados”.

“Eu queria fazer algo mais sofisticado. As pesquisas mostraram que o público não entendia nada da novela. Nem mesmo percebia que era uma comédia. Eles enxergavam como drama. Não sabem o que é Oscar, Hollywood ou transexual, não têm referências, e, mesmo que eu explicasse, continuariam não entendendo. Não há compreensão intelectual, só emocional. Acharam bonita a relação da Ramona com o Leonardo, mas não entenderam o preconceito dele que impedia o romance”, enfatizou o autor à Folha.

Não que a antecipação do término da novela tenha surtido efeito: depois de As Filhas da Mae, veio Desejos de Mulher, que também não foi bem no Ibope. Mas aí já é uma outra história…



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