Novela da Globo que terminava em 2015 prometia muito, mas virou decepção - TV História

Novela da Globo que terminava em 2015 prometia muito, mas virou decepção

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Foram praticamente seis meses no ar. Iniciada em maio e encerrada em 6 de novembro de 2015, portanto há cinco anos, “I love Paraisópolis” foi uma produção que obteve um retorno interessante da audiência, mas se mostrou um folhetim limitado e decepcionante.

Escrita por Alcides Nogueira e Mário Teixeira, a novela, dirigida por Wolf Maya, chegou ao fim completamente desgastada e sem nada de atrativo para apresentar ao telespectador, após longos meses de história estagnada. A reta final, inclusive, foi arrastada, repleta de situações esdrúxulas, e só evidenciou a fragilidade do enredo.

O início foi bastante promissor e parecia que as aventuras de Mari (Bruna Marquezine) e Danda (Tatá Werneck) despertariam interesse. A dupla mostrou um ótimo entrosamento e as duas primeiras semanas foram voltadas para a atrativa viagem que a dupla fez para Nova York, com direito a belas imagens e ótimas cenas. O romance da mocinha com Benjamin (Maurício Destri) se mostrou acertado e a vilania de Grego (Caio Castro) prometia movimentar o enredo, assim como a de Soraya (Letícia Spiller). Entretanto, essa impressão não ficou por muito tempo, infelizmente.

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À medida que os núcleos paralelos foram sendo ‘apresentados’, a trama central ia se diluindo, até se perder por completo, se mostrando rasa e sem estruturação. A história ficou focada no quarteto composto por Mari, Benjamin, Grego e Margot (Maria Casadevall), andando em círculos e deixando, por exemplo, a Danda (teoricamente uma das protagonistas) de lado.

Por sua vez, todas as situações secundárias se mostraram meras esquetes, totalmente avulsas e sem conexão alguma com os personagens principais. Para culminar, o elenco, que já estava com uma quantidade de atores além do limite do aceitável, foi recebendo mais gente ao longo dos meses, se juntando aos vários intérpretes que mal apareciam na trama.

Foram muitos personagens que pouco acrescentaram e apenas protagonizaram algumas situações teoricamente cômicas, muitas vezes sem relevância para o desenvolvimento da novela. A sensação de estar assistindo a algum quadro do antigo “Zorra Total” se fazia presente com frequência, até porque várias esquetes eram repetitivas e com ‘início, meio e fim’. Vide as trapalhadas de Juju (Alexandre Borges, exagerado); as constantes brigas entre Expedito (José Dumont) com Ramira (Tuna Dwek) e suas tentativas de capar os namorados de Claudete (Mariana Xavier); as desventuras da picareta Rosicler (Paula Cohen); os ataques de Dália (Zezeh Barbosa) e as desilusões amorosas de Lindomar (Gil Coelho).

Já os raros núcleos paralelos que apresentaram algum tipo de conflito não conseguiram se sustentar por muito tempo, perdendo a importância gradativamente, praticamente sumindo da trama. Caso da escola de balé comandada por Isolda (Françoise Forton), por exemplo, além do enredo em torno de Tomás (Dalton Vigh), Paulucha (Fabíula Nascimento) e Clarice (Angela Vieira) —- incluindo ainda os perfis de Eduardo Melo (Joaquim), Carolina Oliveira (Natasha) e Giullia Buscacio (Bruna). Além deles, tipos inicialmente promissores, como Cícero (Danton Mello), Eva (Soraya Ravenle), Fradique (José Rubens Chachá) e Armandinho (Eduardo Dussek), se mostraram sem nenhum tipo de conteúdo. Parecia que estavam ali para nada. Ou seja, em virtude do excesso de personagens e quase todos sem densidade, muitos atores não foram valorizados como mereciam na trama, como os mencionados.

Mas, a maior decepção foi, sem dúvida, a Izabelita, vivida pela grandiosa Nicette Bruno. A cativante personagem tinha tudo para ser um dos grandes destaques. Simpática e extrovertida, a avó de Benjamin começou a apresentar os sintomas do Mal de Alzheimer e lutava contra isso, tentando se manter bem. Entretanto, a mãe de Soraya foi perdendo a importância e a doença simplesmente passou a ser ignorada. Ou seja, ela parecia ter se curado subitamente. Um tema que poderia ser tratado com sensibilidade, e ainda por cima utilizado em prol do enredo, foi jogado fora. O problema da memória só voltou a ser abordado na reta final e somente para servir de artifício para o terceiro sequestro da filha de Margot, em uma clara falta de imaginação dos autores.

E os supostos vilões da trama não cumpriram nem a metade do que prometeram. Gabo (Henri Castelli) e Soraya aparentemente formavam uma boa dupla, mas, em virtude da total falta de enredo, se transformaram em perfis que pouco acrescentaram. Ele bem mais que ela, vale ressaltar. A ‘vilã’ virou uma personagem cômica, como tantos outros da novela, mas ao menos teve uma divertida parceria com Frank Menezes, que deu um show como o mordomo Júnior. Já Gabo ficou imaginando ‘vários planos’ ao longo da trama e nada fez. Ficou avulso no enredo e só nas semanas finais conseguiu se destacar.

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No caso de Grego, houve uma humanização do traficante que tentou matar Benjamin no início da trama. Ele virou um bandido bonzinho, assim como todos os bandidos que habitavam a favela de Paraisópolis, incluindo o Jávai (Babu Santana). Ao menos nesse caso, o lado positivo foi o casal formado por Grego e Margot, aproveitando a química entre os atores, vista anteriormente no sucesso “Amor à Vida”. Tanto que o par virou o único realmente interessante da história, uma vez que Mari e Benjamin cansaram com um romance repetitivo, onde ele se mostrava um mimado irritante e ela uma mulher insegura, incompatível com sua personalidade inicial.

A passividade dos vilões, inclusive, implicou na volta de Dom Pepino (Lima Duarte), que foi alçado à condição de grande vilão do folhetim. Porém, o objetivo dele era exatamente o mesmo de Soraya e Gabo: dominar a empresa de Benjamin e controlar Paraisópolis. Ou seja, não mudou muita coisa no cansativo enredo. A vilania do mafioso apenas deixou todo o conjunto ainda mais irreal, além de tosco, vide o assassinato de Omara (Priscila Marinho), por exemplo, que beijou um peixinho no mar assim que morreu afogada. E as próprias situações protagonizadas pelo poderoso bandido em nada contribuíram para a movimentação da novela.

Outro perfil que parecia promissor e que não foi desenvolvido a contento foi a Ximena, interpretada tão bem por Carol Abras. A personagem parecia ter uma complexidade bem instigante, mas passou uma parte da trama em função do Grego e depois em função do Gabo. Não teve uma condução própria, foi apenas ponto de apoio para dois vilões que também ficaram na promessa. Além dela, de Izabelita, Danda e vários outros mencionados, também vale citar Olga (Paula Barbosa), Sabão (Ricardo Blat) e Deodora (Dani Ornellas) —- que na penúltima semana acabou se casando com Dom Pepino em uma situação sem o menor sentido —- como exemplos de tipos que não foram conduzidos com competência.

Além de todas as questões mencionadas, vale observar, também, que todo o universo em cima de uma das favelas mais violentas de São Paulo ficou absurdo se comparado com a realidade. Afinal, na comunidade os bandidos eram bacanas, não havia gente perigosa e nem problemas. Parecia um lugar perfeito. Claro que não teria como expor o drama pesado no horário das sete. E nem o público queria ver isso. Mas se o intuito era fantasiar, seria muito mais plausível inventar uma favela idealizada e batizá-la com um novo nome. O autor Mário Teixeira, aliás, disse em algumas entrevistas que a intenção deles foi exibir uma novela ‘realista’ com toques leves. Só que se o intuito foi realmente esse, houve uma falha grave.

Apesar dos muitos defeitos, “I love Paraisópolis” teve uns poucos acertos que merecem menção. O mordomo Júnior foi uma figura e Frank Menezes virou um dos destaques com mérito —- suas cenas com Letícia Spiller e Olívia Araújo (a irônica Melodia) eram ótimas e o bordão “Favelaaaaada” divertiu. A condução da elegante Patrícia foi interessante e Lucy Ramos brilhou vivendo uma psicóloga que se orgulhava de ser negra, não levando desaforo para casa. Maria Casadevall convenceu com sua Margot e Letícia Spiller acertou com o tom propositalmente exagerado de sua Soraya. Caio Castro defendeu bem seu Grego e Ilana Kaplan protagonizou uns bons momentos com sua arrogante Silvéria, fazendo uma boa dupla com Luana Martau (Mirela). Alguns pontos positivos em meio a tantos negativos.

A reta final do folhetim acabou sendo condizente com tudo o que foi sendo apresentado ao longo dos meses. Isso porque os capítulos foram arrastados e com algumas cenas grotescas. A ausência de conflitos e tramas estruturadas ficou ainda mais exposta nos últimos momentos da história, que se sustentou por muito tempo exclusivamente através de esquetes, deixando de lado o desenvolvimento de conflitos que poderiam ser atraentes, caso fossem elaborados. O resultado foi uma repetição de situações e estagnação do já esgotado contexto —- houve até uma longa e esdrúxula cena de sonho da Mari, onde a menina imaginava estar com Benjamin em outra vida, com único objetivo de preencher o tempo do capítulo.

O penúltimo capítulo contou com mais um sequestro, desta vez dos filhos de Soraya. Os autores utilizaram apenas esse recurso como ponto de apoio para uma aparente ‘movimentação’ na trama —– afinal, vale recordar que Danda havia sido sequestrada duas vezes e a filha de Margot três vezes. Além da cansativa situação, ainda houve uma sequência completamente tosca, envolvendo o ‘fantasma’ de Omara, que voltou do mundo dos mortos com pedaços de escama de peixe no rosto. Para culminar o festival de momentos surreais, Gabo caiu da janela da empresa em cima de um andaime, não morreu, e apareceu do nada para matar Dom Pepino, que havia sido picado por uma cobra. Cenas que merecem ser esquecidas.

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Já o último capítulo começou com uma sequência mal dirigida, que exibiu um confronto entre Gabo, Benjamin e Dom Pepino. O ex de Soraya confessou que matou o pai do mocinho e a situação poderia ter rendido bons desdobramentos ao longo da trama, mas só foi exposta no final e rapidamente. Os dois brigaram e a chegada do mafioso implicou em outra discussão entre ele e Gabo, que caíram da janela e morreram. As situações foram esdrúxulas. Mas os bons momentos ficaram por conta de Grego. A cena do personagem indo preso e depois, após uma passagem de tempo, indo abraçar Margot e o filho foi bem bonita, assim como o momento em que ele conversa com a tia Paulucha. Outras situações merecedoras de elogios foram o belo depoimento de Ximena, o show de Luan Santana no final, com todos os casais se beijando, e parto de Danda, que divertiu.

“I love Paraisópolis” se mostrou uma grande decepção e pode ser considerada a pior novela de 2015, empatada com “Babilônia”. A média geral foi de 24 pontos, um resultado bem interessante. Mas, nesse caso, audiência não implicou em qualidade —- aliás, o fato da trama das sete ter ganhado algumas vezes do folhetim das nove apenas comprovou que o conteúdo da obra do horário nobre era fraco demais, enquanto o da faixa anterior não tinha nada de excelente. Alcides Nogueira e Mário Teixeira são autores competentes, mas, lamentavelmente, se perderam nesta novela, que teve um começo promissor e um final nada dignificante. Não deixará saudades.



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