Nem só de Fina Estampa vive o público, que privilegiou a ótima Totalmente Demais - TV História

Nem só de Fina Estampa vive o público, que privilegiou a ótima Totalmente Demais

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A novela Totalmente Demais (último capítulo exibido na sexta-feira, 9) revelou-se uma escolha acertada pela Globo nesse momento de pandemia. A história da Cinderela moderna, com toques de Pigmalião e Luzes da Cidade, voltou a cativar a público, atingindo índices de audiência tão representativos quanto os de sua apresentação original, em 2015-2016. Na primeira exibição, a novela registrou média de 31 pontos no Ibope da Grande São Paulo, contra 29,5 em 2020.

Este é um número bastante representativo se considerarmos que trata-se da reprise de um produto já pronto. Prova de que o público que deu audiência a Fina Estampa aprecia também rever ótimas produções.

A fórmula dos autores Rosane Svartman e Paulo Halm – dupla da mais recente Bom Sucesso, outro êxito – foi o melodrama assumido, misturado a arquétipos universais que poucas vezes falham quando bem conduzidos, ainda mais se aliados a uma produção charmosa, elenco formidável e direção que compreende e traduz eficientemente a proposta do texto. Outro feito é cativar o público de todas as idades, das donas de casa aos mais jovens. As torcidas por #Arliza e #Joliza voltaram a fazer a barulho e houve até quem pedisse um final alternativo que nunca foi gravado.

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O mote central, o longo concurso Garota Totalmente Demais, permeou boa parte da história. Sua duração foi até coerente, já que presenciamos a transformação paulatina de Eliza (Marina Ruy Barbosa), de garota arisca, selvagem, maltrapilha e descabelada a nova musa da beleza. O que incomodou foi a sensação de enrolação e a previsibilidade a cada nova fase do concurso, sempre com Cassandra (Juliana Paiva) e/ou Carolina (Juliana Paes) armando – inutilmente – para Eliza se dar mal.

Com o fim do concurso, os coadjuvantes já haviam desenvolvido suas histórias, principalmente os personagens do núcleo de Curicica. Foi quando Sofia (Priscila Steinman), que julgava-se morta, reapareceu, viva e louca, para se vingar de tudo e de todos. A novela entrou em uma fase sinistra, com uma trama pouco coerente que culminou em um dos desfechos mais absurdos da história de nossas novelas: Sofia foi baleada e morreu (de novo) na frente dos pais. Melodrama potencializado, pouco sutil. Os autores pesaram a mão.

Em entrevista recente ao site Teledramaturgia, Rosane Svartman se justificou: “A gente resolveu reviver Sofia quando a novela teve que ser estendida, mas já tínhamos na manga essa possibilidade, por isso escrevemos que no acidente o carro explodia e os corpos eram carbonizados. Pesamos no melodrama nessa trilha, até porque sabíamos que a Priscila e o ótimo núcleo em que ela estava segurava o tranco. Acho que saiu um pouco do tom do resto da novela”.

Há de se destacar alguns personagens que foram na contramão do melodrama e deram um sabor todo especial à novela, graças aos seus intérpretes e ao texto espirituoso dos autores. Totalmente Demais não teria o mesmo efeito não fossem tipos como a dupla Stelinha e Maurice (Glória Menezes e Reginaldo Faria), sempre com um texto afiado e inteligente. Glória Menezes brilhou como a ranzinza professora de boas maneiras de Eliza.

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Cassandra, personagem divertidamente nonsense de Juliana Paiva, foi outro exemplo de boa união entre o talento do ator e o texto criado para ele. O mesmo para Fábio Assunção (Arthur), Felipe Simas (Jonatas), Vivianne Pasmanter (Lili), Juliana Paes (Carolina), Marat Descartes (Pietro), Pablo Sanábio (Max), Julianne Trevisol (Lu), Orã Figueiredo (Hugo), Guida Vianna (Cida), Malu Galli (Rosângela) e Aline Fanju (Maristela).

No último capítulo, os autores chutaram o balde da coerência e privilegiaram a fantasia: Eliza e Jonatas – que iniciaram o romance maltrapilhos pelas ruas do Rio de Janeiro – terminaram juntos e felizes em Paris, dividindo um gramado com a cantora inglesa Gabrielle Aplin, que tocou no violão o tema do casal, “Home”. Pena que não ficaram no Brasil: justificaria o título da música e não precisaria do chroma key fuleiro, que gerou muita piada na exibição original.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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