Nem Laços de Família, nem Mulheres Apaixonadas: Por Amor é a melhor novela de Maneco - TV História

Nem Laços de Família, nem Mulheres Apaixonadas: Por Amor é a melhor novela de Maneco

Whatsapp

Não quero causar celeuma, briga, unfollow ou cancelamento. Mas sinta-se confortável para discordar e seus argumentos serão aceitos, porque serão subjetivos tanto quanto são os meus.

Manuel Carlos é conhecido como o cronista da classe média-alta carioca. E por que suas novelas eram tão apaixonantes, se fugiam da realidade da grande maioria dos telespectadores? Porque apesar da estampa idealizada e glamourizada, os personagens e seus dramas eram reais, muito críveis. Não falo das situações (mãe e filha darem à luz no mesmo dia e horário, por exemplo), mas das emoções causadas pelos dramas que esses personagens viviam.

A melhor fase de Maneco – e, acho, isso é consenso – é a que vai de 1995 a 2003, compreendendo quatro novelas: História de Amor, Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas. Todas com direção de núcleo de Ricardo Waddington, o diretor que melhor traduziu em imagens as cenas e falas do autor.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Vamos deixar de fora História de Amor (novela que eu adoro) por ser do horário das seis (diferente das demais, das oito/nove) e por não estar em evidência – Laços de Família passa no Vale a Pena Ver de Novo, Mulheres Apaixonadas passa no Viva e Por Amor, há um ano, terminava sua exibição no Vale a Pena.

Destas três, minha preferida será sempre Por Amor. Preciso deixar claro que essa é uma opinião bem pessoal e tampouco desmerece as demais novelas. Mas, se você me perguntar qual das três tenho mais apreço, respondo esta sem pestanejar.

Mulheres Apaixonadas é ótima pelo caldeirão de temas muito bem explorados. Nunca um novelista foi tão feliz ao desenvolver uma novela em que o protagonismo se revezava quando histórias diferentes ganhavam destaque. Há uma narrativa seriada nessa carpintaria. Maneco segura bem, mantendo o interesse do público.

Ao meu ver, este foi o grande trunfo e a melhor qualidade de Mulheres Apaixonadas. Porém… uma Helena (Christiane Torloni) sem a força dramática das vividas por Regina Duarte e Vera Fischer. Para supri-la, as coadjuvantes ganharam destaque, revezando-se de tempos em tempos. Esta é uma saída muito engenhosa, por sinal. Mas… no frigir, prefiro as outras.

Laços de Família marcou a passagem do ano de 2000 para 2001. Vera Fischer estava ótima; Íris é icônica; Capitu, sofremos juntos; Marieta Severo, que atriz! Contudo, acho que foi a partir desta novela que Maneco começou a achar que só os ricos importavam ao transformar os empregados em escravos bajuladores de seus patrões.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Adoro Thalma de Freitas, mas sua Zilda (“Ó Dóna Hélena!”) – brilhantemente satirizada por Hélio de La Peña no Casseta & Planeta – já escancara as abordagens do autor hoje vistas como abomináveis. Teve ainda o machismo de Pedro (José Mayer) e o assédio de Danilo (Alexandre Borges) – que custou a morte da empregada assediada e grávida, enquanto o assediador terminava por cima, pronto para novas presas.

E ainda por cima uma barriga, não da empregada Rita (Juliana Paes) grávida, mas da novela. O bom do Vale a Pena é que dá para editar muita coisa. Mas ratifico: ótima novela!

Por Amor também teve barriga, depois da segunda metade (aquela condenação de Nando não acabava nunca!), só que menos protuberante que a de Laços. A impressão é que Maneco deixou transparecer cansaço durante a barriga de Laços de Família.

Sinto em Por Amor uma unidade maior da trama e de sua condução. Os personagens se entrelaçam mais harmonicamente que nas duas novelas seguintes. Maneco também está com um texto mais afiado, principalmente ao conduzir personagens como Branca, Isabel e Milena. Claro que não há a poesia das falas de Miguel (Tony Ramos) de Laços, ou a ebulição de temas de Mulheres Apaixonadas.  Mas percebe que esses itens ofuscam a unidade que Por Amor garante?

Nem vou citar personagens icônicos, porque todas têm. E merchandising social e os irresistíveis “white people problems”, comuns à toda obra do autor. Talvez Por Amor faça parte de um momento mais especial para mim – chamamos de memória afetiva e você também deve levar em consideração ao construir seus argumentos.

Fui convincente em minha defesa de Por Amor? A intenção não é fazer ninguém mudar de ideia. Sinta-se livre para contra-argumentar. Qual a sua preferida e por quê?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


PS: Sabia que a sinopse de Por Amor existia desde 1983, época em que Manoel Carlos escrevia a novela Sol de Verão?

A sinopse ficou engavetada, Maneco desligou-se da Globo e retornou em 1991. A Globo pediu que desenvolvesse Por Amor para a faixa das seis, mas o autor alegou que esta seria uma história para o horário das oito. Escreveu então Felicidade. Em 1995, de novo escalado para as seis horas, Maneco foi novamente sondado sobre Por Amor e novamente bateu o pé. Escreveu História de Amor. Em 1997, agora no horário das oito, o autor pode finalmente levar adiante o projeto de Por Amor.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



Leia também