Novela icônica, barriga e equívocos: 5 elogios e 5 críticas a Laços de Família

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Um grande sucesso da TV brasileira, a novela Laços de Família, de Manoel Carlos, originalmente exibida entre 2000 e 2001, terminará nesta sexta (02), no Vale a Pena Ver de Novo.

Passados 20 anos de sua estreia, vale a pena destacar as contribuições da novela e as qualidades que a tornaram inesquecível ao público, que fazem desta uma boa escolha para reprise.

Também o distanciamento no tempo leva a refletir o quanto o texto de Laços de Família envelheceu mal ou causa incômodo sob o olhar atual.

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Para o bem:

1 – Texto, elenco e direção

A novela cativou fãs pela trama envolvente e a galeria de personagens marcantes e carismáticos, vividos por um grande elenco, com destaque para as interpretações de Vera Fischer, Tony Ramos, Marieta Severo, José Mayer, Carolina Dieckmann, Deborah Secco, Lília Cabral, Giovanna Antonelli, Regiane Alves, Julia Feldens, Leonardo Villar e Walderez de Barros. Além do texto e do elenco, também a direção de núcleo de Ricardo Waddington, responsável pelos melhores trabalhos de Manoel Carlos na televisão.

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2 – A originalidade da trama

De um tempo em que Maneco ainda surpreendia com histórias bem amarradas, a ideia da novela surgiu de uma notícia de jornal. Segundo o autor, em 1990, nos Estados Unidos, uma mulher tinha uma filha que estava com leucemia. Ela engravidou para salvar a menina – seu bebê seria um possível doador de medula – e conseguiu o que pretendia.

3 – Cenas inesquecíveis

Uma coleção de sequências emblemáticas, que entraram para a história de nossa TV: Camila tendo sua cabeça raspada ao som de “Love By Grace” (que deu à Globo sua maior audiência no ano de 2000); Clara revelando a todos, durante uma festa, que Capitu era prostituta; Helena dando uma surra em Íris após ela ter afrontado Camila no hospital; Camila lê “Judas” no espelho do banheiro, escrito com batom por Íris; a morte de Ingrid, vítima em um assalto; e muitas outras. E os barracos, marca registrada do autor: Camila com Íris, Helena com Íris, Clara com Capitu, etc.

4 – Temas médicos

Além do transplante de medula abordado na trama (que na época fez aumentar consideravelmente o número de doadores), Maneco levou ao público outros temas médicos. Tratou abertamente de impotência masculina – ainda um tema tabu para uma novela -, de forma leve, por meio de um casal simpático que caiu no gosto do público: Ivete e Viriato (Soraya Ravenle e Zé Victor Castiel). Também apropriou-se com sensibilidade do problema físico do ator Flavio Silvino para mostrar o cotidiano de um jovem com dificuldades motoras e a garra com que ele tentava superar suas próprias limitações.

5 – A trilha sonora

Os CDs Laços de Família venderam como água. Músicas associadas a personagens que remetem à obra como um todo: “Como Vai Você” (Daniela Mercury), “Próprias Mentiras” (Deborah Blando), “O Pai da Alegria” (Martinho da Vila), “Corcovado” (Astrud Gilberto), “Balada do Amor Inabalável” (Skank), “Man, I Feel Like a Woman” (Shania Twain), “Samba de Verão” (Caetano Veloso), “Perdendo Dentes” (Pato Fu), “Breathe” (Faith Hill), “So Nice” (Bebel Gilberto), “How Insensitive” (Laura Fygi), “I´ll Try” (Alan Jackson), “Spanish Guitar” (Toni Braxton), “Love By Grace” (Lara Fabian), “Save Me” (Hanson), “Rome Wasn´t Built in a Day” (Mosheeba), “Devolva-me” (Adriana Calcanhotto), e outras.

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Para o mal:

1 – Abordagens equivocadas (contém spoilers)

Com o boom de reprises de novelas na última década, criou-se o hábito de julgar as tramas e perfis de personagens com a régua moral da atualidade. Toda obra é fruto do pensamento e do senso comum de seu tempo. Hoje, Monteiro Lobato (“Tia Nastácia é uma negra de bom coração”), Nelson Rodrigues (“Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais”) e Vinícius de Moraes (“As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”) teriam suas obras “canceladas” pelas redes sociais. Ciente de que essas proporções devem ser guardadas, analisemos a trama da empregada Rita (Juliana Paes), que engravidou do patrão Danilo (Alexandre Borges).

Danilo (bonitão, galanteador, rico, em situação superior) seduz a empregada (morena, bela, pobre, de pouca cultura, em posição inferior, social e de gênero) e ela é punida com a morte. Tudo bem que Rita teve sua parcela de culpa, mas porque o lado mais fraco teve que pagar sozinho? Alma (Marieta Severo), a esposa traída, rica e culta, é elevada à categoria de “magnânima” ao adotar os gêmeos bastardos do marido. E Danilo termina do mesmo jeito que começou, como se nada tivesse acontecido: continua a usar seu poder para seduzir mulheres.

Aqui cabe um puxão de orelha a Manoel Carlos. Para além do machismo evidente, essa trama deve ser analisada sob o olhar que o autor sempre teve aos personagens subalternos em suas novelas. Os pobres são sempre puxa-sacos dos patrões, mas sempre em posição inferior, não apenas social, mas também intelectual – vide Mulheres Apaixonadas, também de Maneco, atualmente no Viva. Se a trama de Rita já era difícil de engoliar em 2001, imagina hoje, em que tanto se discute assédio e empoderamento feminino. A maneira como Maneco desenha os empregados em suas novelas sempre me incomodou, mas dessa vez o autor resvalou no preconceito social e de gênero.

Há ainda o machismo de Pedro (José Mayer). Porém, esta é uma característica do personagem: Pedro é machista como o vilão é mau e a mocinha é boa. O problema aqui é que Maneco perdeu a oportunidade de levantar uma boa discussão sobre machismo. Se a novela fosse escrita hoje, Maneco e Pedro seriam severamente criticados. Devemos considerar que estas são referências atuais (a consciência do machismo, do assédio, da misoginia), que não eram levantadas em 2000-2001.

2 – A barriga

Digna da grávida de Taubaté!Laços de Família” teve 209 capítulos que pareceram durar uma eternidade. Depois de sua metade, a trama começou a desandar, com capítulos repletos de muita enrolação. Foi quase a novela inteira para Camila descobrir sua doença. Só após a decisão de Helena de engravidar novamente para salvar a filha, a novela voltou aos eixos. O pior foi Capitu, uma ótima personagem que viu sua trama esvaziada depois da revelação de que ela era prostituta. Maneco foi embromando Capitu até o final.

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3 – A escalação de Gianecchini

Quando a novela estreou, só se falava nisso: quem é o bonitão, marido de Marília Gabriela? A aparência de Reynaldo Gianecchini o transformou em “galã sensação”. Passados dezesseis anos, fica claro que sua beleza escondia um ator imaturo. Gianecchini parecia mesmo esforçado com seu Edu, principalmente no começo, em que tinha muitas cenas com Vera Fischer. Porém, convenhamos, não estava preparado para ser o principal nome masculino da novela das oito da Globo. Este posto foi logo perdido para os experientes Tony Ramos e José Mayer.

Edu perdeu tanto espaço na novela que, depois do casamento com Camila, virou um mero enfeite na trama principal. Gianecchini desabafou em entrevista ao site Notícias da TV, em 2016: “Era a minha primeira novela. Eu não sabia realmente nada. Fui jogado na cova dos leões e falaram: ‘Se vira’. Um personagem enorme, com uma carga de trabalho muito grande. Não dava tempo para ninguém ficar me ensinando”.

4 – Camila e Íris

A personagem Camila (Carolina Dieckmann) irritou tanto os telespectadores que o apelido dado por sua inimiga Íris (Deborah Secco) – Judas – caiu na boca do público. Maneco repetia um tipo comum em suas novelas: as garotas mimadas, chatas e geniosas, como Mira de “Baila Comigo”, Joice de “História de Amor” e Eduarda de “Por Amor”. Aconteceu com Camila o mesmo que ocorreu a Eduarda (Gabriela Duarte em “Por Amor”): alguém criou um site na Internet para o público extrapolar o ódio que sentia pela personagem.

Minha crítica não é para as personagens, mas para a relação do público com Íris. Entendo que ela fosse adorada pela sua função catártica na trama, já que era ela quem dava paulada na odiada Camila. Porém, não vejo muita diferença entre as duas. Íris era tão mimada, infantil e sórdida quanto Camila. O bom é que, ao final, as personagens se humanizaram. Gosto a cena em que elas selam uma trégua, sem aparentes rancores, demonstrando atitudes maduras.

5 – O entra e sai de crianças

Sentimos falta dos fofuchos Júlia Magessi (Nina, filhinha de Clara e Fred) e os gêmeos Natan e Andrey Linhares (Bruninho, bebê de Capitu). Suas participações foram prejudicadas pelo juiz Siro Darlan, que vetou crianças nas gravações da novela, alegando que o ambiente era prejudicial a elas. As crianças (também Carla Diaz e Samuel Melo) saíram de cena por vários capítulos. Voltaram quando a Globo conseguiu derrubar a medida. Este foi um dos fatores que fez com que Laços de Família fosse empurrada para mais tarde, 21 horas. Foi quando a tradicional novela das oito da Globo começou a ser exibida às 21 horas.

AQUI tem tudo sobre Laços de Família, elenco, trama, personagens e curiosidades.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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