Há 35 anos, novela fez “cambalacho” entrar de vez para o vocabulário popular - TV História

Há 35 anos, novela fez “cambalacho” entrar de vez para o vocabulário popular

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Cambalacho
substantivo masculino
informal pejorativo
1. negócio, esp. aquele em que há fraude, trapaça, intenção de prejudicar a outra parte.
2. plano para enganar outrem ou obter vantagem à custa deste; conluio, tramoia.

Há 35 anos, estreava uma das novelas de maior sucesso da década de 1980, das mais lembradas pelos saudosistas: Cambalacho, de Silvio de Abreu, com direção geral de Jorge Fernando, exibida originalmente entre março e outubro de 1986. É uma novela que guardo em minha memória afetiva.

Eu tinha 17 anos em 1986. Havia curtido os trabalhos anteriores de Silvio de Abreu: Jogo da Vida, Guerra dos Sexos e Vereda Tropical – esta última, de autoria de Carlos Lombardi, mas Silvio atuou como supervisor de texto e não tem como desvencilhá-lo da obra. Portanto, esperar pela nova comédia de Silvio de Abreu era uma expectativa muito grande. E ele não nos decepcionou.

Os primeiros teasers exibiam Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri correndo pelo centro de São Paulo e a pergunta “Você sabe o que é cambalacho?”. A palavra, até então desconhecida para o grande público, soava estranha. Com a novela veio a definição: trambique, trapaça, embuste, enganação. Com o sucesso da novela, a palavra “cambalacho” entrou definitivamente para o vocabulário popular. E nunca mais saiu.

O termo fazia referência aos protagonistas Naná e Jejê (Fernandona e Gianfrancesco), dois adoráveis pilantras que viviam de pregar pequenos golpes a fim de alimentar uma prole de crianças abandonadas que eles recolhiam das ruas. Uns trambiqueiros “do bem” em uma crítica esperta e bem-humorada ao jeitinho brasileiro de levar proveito em tudo.

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A direção de Jorge Fernando – com várias referências pop – aliada ao texto de Silvio – que juntava chanchada brasileira com clássicos de Hollywood – resultaram em um acerto poucas vezes visto em nossa Teledramaturgia. Uma comédia agradável, emotiva e divertida, bem dirigida e interpretada, com a pura intenção de entreter o público sem zombar de sua inteligência.

Para tanto, uma galeria de personagens inesquecíveis. Quando pensamos em Cambalacho, logo vem à mente a figura de Tina Pepper, uma divertida homenagem à cantora Tina Turner, que vivia áureos tempos naqueles anos 1980. Regina Casé teve nesta novela o reconhecimento do grande público, apesar da carreira que já tinha nos palcos e no cinema.

Sobre a trajetória da personagem Albertina Pimenta (nome verdadeiro de Tina Pepper), dois momentos inesquecíveis: quando Tina faz uso das mandingas do livro “O Segredo da Salamandra” para conquistar seus interesses amorosos; e a apresentação no “Cassino do Chacrinha”, com seu hitVocê me incendeia”, após ter se tornado uma cantora famosa.

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Outro tipo marcante que nos remete imediatamente a “Cambalacho” é a vilã Andreia Souza e Silva, vivida por Natália do Valle. Porém, o que seria da personagem não fosse o seu tema musical “Perigooooosaaaaaa!!!”. Uma perfeita composição de personagem potencializada pela música.

Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri como os trapaceiros Naná e Jejê é chover no molhado dos elogios. Com Ana Machadão (Débora Bloch), a garota masculinizada, e Thiago (Edson Celulari), o bailarino, o autor jogava luz a um outro viés da “guerra dos sexos”.

Consuelo Leandro, em uma das raras aparições na Globo, brilhante e divertida como a espalhafatosa e rancorosa Lili Bolero. A personagem odiava a cantora Ângela Maria, vivia falando mal dela, porque acreditava que Ângela, no passado, lhe tomara sua chance como cantora. Ao final, Lili se reconcilia com a “ex-amiga” em uma participação de Ângela Maria na novela.

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Com Tina Pepper (sua filha), Lili Bolero formava uma dupla impagável. As caretas e os berros de Lili, seus figurinos e a caracterização, o amor por Jejê, a raiva pela “bruaca” comadre Naná e a mágoa por Ângela Maria eram o combustível para ótimas risadas. Regina Casé, por sua vez, era a personificação da piriguete sem noção, que se acha linda e irresistível, sem ser!

Um adendo para a trilha sonora da novela. O disco nacional foi produzido sob encomenda por Zé Rodrix, com destaque para o tema de abertura, interpretado por Walter Queiroz, e a música “Armando Eu Vou”, gravada por Cida Moreira. A trilha internacional estava repleta de hits das FMs da época.

AQUI tem tudo sobre Cambalacho: trama, elenco completo, personagens, trilha sonora e muitas curiosidades.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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