Globo uniu autores que mal se falavam em novela e resultado foi desastroso - TV História

Globo uniu autores que mal se falavam em novela e resultado foi desastroso

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De maio a novembro de 1984, ao longo de 174 capítulos, a Globo exibiu Partido Alto (título alusivo ao estilo de samba “partido-alto”, criado no início do século XX), uma inusitada parceria de criação estabelecida entre autores de estilos bastante distintos: Aguinaldo Silva e Glória Perez. À época, ambos estavam no início de suas carreiras como novelistas: ele ainda era um estreante no gênero, enquanto ela havia sido colaboradora em Eu Prometo (1983), a última novela de Janete Clair (1925-1983).

Glória narrou ao livro “Autores, Histórias da Teledramaturgia”, do Projeto Memória Globo, que inicialmente queria fazer uma novela das 18h, mas o então vice-presidente de Operações da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni), decidiu que ela seria responsável por uma produção para o horário nobre (20h) juntamente com Aguinaldo, que era a aposta defendida pelo diretor Daniel Filho.

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“Na sala do Boni, insisti muito para ficar com a novela das seis. Eu me sentiria mais segura. E eu e o Aguinaldo não nos conhecíamos e fazer novela em dupla é um casamento difícil. (…) Mas decidiram fazer o casamento mesmo assim”, relatou.

A solução inesperada de juntar os dois autores gerou um conflito inevitável dos respectivos processos criativos, totalmente opostos. Tanto que Aguinaldo não suportou as constantes discordâncias e pediu para sair da novela pouco depois de sua metade. Ao saber que a Globo havia adquirido os direitos para fazer uma minissérie baseada no livro Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, pediu a Daniel Filho para escrevê-la.

Assim, deixou a problemática relação com Glória para trás. Ao livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, Aguinaldo falou sobre o imbróglio. “Como trabalhar junto se ela escreve de um jeito e eu de outro? Então, é claro que essa tensão toda acabou se refletindo na nossa relação. Houve momentos em que a gente não conseguia sequer se falar. Mas não era por problema de egos, e, sim, por incompatibilidade de métodos de trabalho”.

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Mas, e a história em si? Era tão problemática quanto? Pode-se dizer que a turbulência da criação provocou reflexos na trama, que teve também os seus méritos, em grande parte devidos ao seu ótimo elenco, com destaques entre os protagonistas e os coadjuvantes. Até mesmo quem ainda estreava em novelas – casos de Guilherme Karam (na pele do falso guru esotérico Políbio) e Roberto Bataglin (o atleta Fernando) – teve seus momentos de brilho.

Nanci (Lílian Lemmertz) foi expulsa de casa pelo marido e ex-patrão, o rico industrial Amoedo (Rubens Corrêa), e assim, ficou afastada da filha, Isadora (Elizabeth Savala). A reaproximação das duas foi um dos eixos dramáticos da trama, que ainda teve os problemas de Isadora com o marido, o mau-caráter Sérgio (Herson Capri), de quem se separa, e seu envolvimento com o Professor Maurício (Cláudio Marzo), acusado de crimes que não cometeu e alvo do assédio de uma de suas alunas, Celina (Glória Pires), uma adolescente que não tem boa relação com o pai, o contraventor Célio Cruz (Raul Cortez), o todo-poderoso bicheiro do bairro do Encantado, zona norte do Rio de Janeiro.

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Presidente da escola de samba Acadêmicos do Encantado, Célio leva uma vida dupla: é casado e tem filhos com Izildinha (Célia Helena), mas mantém uma relação extraconjugal com a porta-bandeira da escola, a bela manicure Jussara (Betty Faria), anteriormente casada com o bandido Escadinha (Ney Latorraca), morto no início da história em um confronto com a polícia. Ao mesmo tempo, ela desperta a paixão de Piscina (José Mayer), irmão de Escadinha e compositor frustrado que sonha em ganhar o concurso de samba-enredo da escola.

Contando ainda com outros núcleos de personagens, a novela acabou sendo encarada pela crítica especializada como confusa. Além disso, a então existente Censura Federal do regime militar atrapalhou em diversos momentos, criando obstáculos e impondo modificações ao enredo, vetando até mesmo menções explícitas ao jogo do bicho.

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Nem mesmo o desfecho escapou das interferências: pela proposta original, o vilão Célio Cruz e seu braço-direito, Reginaldo (Milton Gonçalves), fugiriam para a Suíça. Em vez disso, eles acabaram sendo capturados. Mesmo assim, foi possível inserir uma proposta de suborno feita nas entrelinhas pelo bicheiro ao policial que o prende. “Ainda é possível dialogar?”, perguntou ele, que sorriu e piscou para a câmera.

Entre os pontos altos da novela, vale destacar a longa abertura (1 minuto e 41 segundos) concebida por Hans Donner e sua equipe, que misturou dançarinos de break do grupo Funk & Cia. e um grupo de sambistas; e também a megaprodução empreendida para o último capítulo: a escola de samba Acadêmicos do Encantado fez um desfile na Avenida Rio Branco, que contou com a participação de mil passistas de seis escolas de samba reais. As gravações, que interromperam o trânsito de veículos, duraram 12 horas e foram acompanhadas por um público de milhares de pessoas.

O samba-enredo que embalou a escola na avenida, intitulado “E Agora, José?”, foi uma homenagem de Piscina ao poeta Carlos Drummond de Andrade (a composição foi feita na vida real por Jorge Aragão e Dona Ivone Lara).

Mas o momento apoteótico terminou de forma trágica, com o assassinato de Piscina por capangas de Célio Cruz. Foi uma vingança pelo envolvimento do compositor com sua amante, Jussara, testemunha do crime do alto de um carro alegórico e que nada pôde fazer para impedi-lo.

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