O ano em que a Globo se arrependeu de não transmitir o Carnaval - TV História

O ano em que a Globo se arrependeu de não transmitir o Carnaval

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Foi em 1984. Era a inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A Globo decidiu não transmitir os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro quebrando uma tradição de nove anos – a emissora os transmitia desde 1974. Problemas internos, falta de interesse pelo Sambódromo e até questões políticas foram cogitadas. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (foto abaixo), então superintendente da Globo, explicou em seu “Livro do Boni“:

“Em 1983, o governador (do Rio) Leonel Brizola decidiu pela construção do Sambódromo. O sociólogo e apaixonado pela educação Darcy Ribeiro (então vice-governador) era um homem extrovertido, preparado, mas confuso. Ele inventou duas coisas malucas no carnaval: uma foi a Praça da Apoteose, projetada a seu pedido e que, na cabeça dele, permitiria que cada escola desse uma volta no final, fazendo um círculo e passando por dentro dela mesma – num desconhecimento total do que é uma escola de samba, com seus carros alegóricos, alas e bateria; a outra invenção foi o Super Campeonato, que só existiu uma vez porque não fazia o menor sentido”.

“Nas reuniões preliminares, fui contra essas propostas e começou a se criar um ambiente delicado de entendimento, entre o Darcy, representado pelo Carlos Imperial, e a Globo. Por outro lado, o governo, com o Sambódromo na mão, assumiu as negociações dos direitos de transmissão, anteriormente discutidos com a Associação das Escolas de Samba. A coisa foi engrossando e, pressionado, achei uma saída: combinei com o Moisés Weltman, da TV Manchete, que ele compraria o carnaval sozinho e depois repassaria a minha parte”.

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“Ficamos fora do carnaval. No Rio, a Manchete deitou e rolou na audiência, mas no resto do Brasil, sem carnaval, a programação da Globo cresceu em relação aos anos anteriores. Essa é a verdade completa da história. O Brizola, de forma demagógica, tentou inventar que a Globo quis boicotar o Sambódromo. Uma infantilidade. Não iríamos perder o evento por causa disso”.

A também carioca TV Manchete – que completava um ano de vida em 1984 – saiu à frente e exibiu os desfiles da Sapucaí. Com direção de Maurício Sherman e comentários de Paulo Stein e Fernando Pamplona, as transmissões daquele Carnaval pela emissora de Adolpho Bloch chegaram ao primeiro lugar no Ibope, alcançando uma média de 70% na audiência. A Estação Primeira de Mangueira, com o enredo “Yes, Nós Temos Braguinha“, e a Portela, com o enredo “Contos de Areia“, sagraram-se as campeãs do Carnaval de 1984.

Foi a primeira vez, em 11 anos de existência, que o “Fantástico” (seguido do então inédito filme “Bonnie e Clyde, uma Rajada de Balas”) – no domingo – perdia no Ibope. Na segunda e terça-feira foi a vez da novela das oito levar bomba. Era “Champagne”, de Cassiano Gabus Mendes, com direção geral de Wolf Maya, que estreava há exatamente 38 anos, em 24 de outubro de 1983.

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Por uma estratégia equivocada, a Globo havia convocado Cassiano – tradicional autor de comédias das sete horas – para escrever uma novela no horário nobre. Em 1983, a emissora estava desfalcada de novelistas das oito, já que Janete Clair, sua principal escritora, estava adoentada (ela veio a falecer em novembro daquele ano). A solução foi “subir” um autor das sete – Cassiano, que apresentou um trabalho morno. “Champagne” até tinha um bom elenco (encabeçado por Tony Ramos, Antônio Fagundes e Irene Ravache), mas a história era fraca demais para uma trama das oito horas.

O Carnaval de 1984, pela Manchete, venceu a Globo no Ibope. Como poucas vezes visto na história da TV, a Vênus Platinada perdeu para uma concorrente no horário nobre – a Manchete seria novamente uma pedra em seu sapato em 1990, com a novela “Pantanal”. Cassiano Gabus Mendes retornou para o horário que o consagrou: depois de “Champagne” escreveu sucessos como “Ti-ti-ti” (1985-1986), “Brega e Chique” (1987) e “Que Rei Sou Eu?” (1989). Em 1990, ele voltou a escrever uma novela para as oito da noite, “Meu Bem Meu Mal“, dessa vez com repercussão maior que a de “Champagne“.

A Globo, por sua vez, nunca mais deixou de transmitir os desfiles das escolas de samba cariocas direto do sambódromo da Marques de Sapucaí.

Fontes: “O Livro do Boni“, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Casa da Palavra; “Rede Manchete, Aconteceu, Virou História“, Elmo Francfort, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.



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