Em 2002, Globo acumulou prejuízos e renegociou dívidas para evitar falência - TV História

Em 2002, Globo acumulou prejuízos e renegociou dívidas para evitar falência

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Até mesmo o maior conglomerado de mídia e comunicação do Brasil já teve que lidar com problemas financeiros graves, que afetaram no início dos anos 2000 a Globo Comunicação e Participações S.A. (Globopar).

Sede da TV Globo

Essa era a holding responsável pelos investimentos das então Organizações Globo (hoje Grupo Globo) em diversos setores da economia, como telefonia e hotelaria. Além da Globopar, à época integravam o grupo de empresas da Família Marinho a TV Globo, a Infoglobo (proprietária de jornais) e o Sistema Globo de Rádio.

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Entre os principais ativos da Globopar, destacavam-se então o antigo Projac (hoje Estúdios Globo), a Distel (que reunia as operações de TV por assinatura, envolvendo Net e Sky), a Globosat (responsável pelos canais de TV paga), a Editora Globo, a gravadora Som Livre e o portal Globo.com.

Desde o início da década de 1990, a Globopar contraía dívidas, mas com a expressiva desvalorização do real registrada no início de 1999, esse processo de acumulação teve um agravamento considerável. Nesse período, a holding tentou levantar recursos para melhorar as suas contas. Em fevereiro daquele ano, vendeu para a Telecom Italia Mobile (TIM), por US$ 113 milhões, as ações da Tele Celular Sul e da Tele Nordeste Celular.

Roberto Marinho na inauguração do Projac

Dois meses depois, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a nota (rating) de crédito da empresa, embora a queda não tenha sido acentuada. A situação melhorou no final de 2000, quando outra agência, a Moody’s, aumentou o rating da Globopar. Mas a confiabilidade foi colocada em xeque novamente pela S&P em fevereiro de 2002, desta vez com uma redução de nota que, no mínimo, acendeu um sinal de alerta.

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Contratação de ex-presidente da Petrobras

Henri Philippe Reichstul

Na mesma época, entrou em cena o economista Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras. Ele assumiu a presidência da Globopar com a missão de reestruturar as dívidas da holding. O novo mandatário mirou como primeiros alvos de seu trabalho a Globo Cabo (que geria a operadora de TV a cabo Net) e a Globo.com, grandes focos de prejuízo.

“Nosso objetivo é preparar as Organizações Globo para este novo cenário, revisar a situação financeira de seus vários negócios e ajudar o conglomerado a ganhar valor com estas mudanças. 0 resultado final será a criação de uma holding que vai aglutinar todas as companhias das Organizações”, declarou Reichstul em sua apresentação.

Em abril de 2002, anunciou um ambicioso plano de reestruturação, que incluía um processo de redução progressiva do endividamento e a venda de ativos. Naquele contexto, o mercado publicitário encontrava-se em desaceleração até mesmo nos países mais desenvolvidos, o que era considerado um grande entrave.

O plano de Reichstul, no entanto, ia além da própria Globopar, pois também envolvia dentro de uma mesma estratégia as demais empresas controladas pelas Organizações Globo. O principal objetivo era aprofundar a integração, tornando-as, na prática, somente uma companhia (denominada “Globo S.A.”).

O processo foi dividido em quatro etapas: criação de uma estrutura corporativa para permitir a sinergia das empresas; revisão das participações em diferentes negócios; adoção de práticas de governança corporativa nos moldes de multinacionais; e implantação de uma rigorosa disciplina financeira para garantir retorno tanto à empresa quanto aos acionistas.

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Medidas drásticas

Ronnie Vaz Moreira

Medidas drásticas eram necessárias, ainda mais se for levado em consideração o prejuízo acumulado pela Globopar em 2001: nada menos do que R$ 1,2 bilhão, dos quais R$ 700 milhões foram relacionados a perdas da Globo Cabo.

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O ano foi tão difícil devido a uma forte retração econômica que nem mesmo a “menina dos olhos” do grupo, a TV Globo, escapou de uma queda vertiginosa do lucro, que foi de R$ 156 milhões (70% a menos do que em 2000).

No final de 2001, a dívida total da Globopar era preocupante: US$ 1,77 bilhão. Por isso, a venda de ativos (a exemplo de emissoras afiliadas) para a captação de recursos era compreensível. A meta estabelecida girava em torno de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões.

O aporte inicial do plano de capitalização da Globopar, anunciado em maio de 2002, foi efetuado pela própria Família Marinho: US$ 135 milhões (o equivalente a $ 326 milhões à época).

Porém, os planos visando a criação da Globo S.A. sofreram um importante revés apenas quatro meses depois: visando reduzir custos operacionais, a reestruturação capitaneada por Henri Philippe Reichstul foi suspensa e ele deixou a empresa, sendo substituído por Ronnie Vaz Moreira (foto acima) na presidência da Globopar. Ao mesmo tempo, Roberto Irineu Marinho passou a acumular os cargos de presidente do Conselho de Administração e presidente-executivo das Organizações Globo.

Reescalonamento das dívidas

Lula e Fernando Henrique Cardoso

Na sequência, em outubro, veio um reescalonamento das dívidas e a busca por novos investidores. Parte das obrigações da Globopar era garantida pela TV Globo, a grande mantenedora da saúde financeira do grupo. Mas, de forma geral, o cenário econômico continuava deteriorado e bastante adverso, com o real desvalorizado, dólar nas alturas e crédito restrito.

“Reestruturação é o nome bonito para a suspensão do pagamento de dívidas. A Globopar está numa encruzilhada muito séria”, disse ao Jornal do Brasil de 29 de outubro de 2002 um analista que pediu anonimato.

E as eleições presidenciais de 2002, marcadas pela primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não trouxeram boas notícias: o sucessor de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) sinalizou que o governo federal não concederia mais empréstimos à Globopar via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Vale ressaltar que o período foi marcado por rumores improcedentes sobre a situação financeira das Organizações Globo: por muito tempo, o grupo foi acusado de sonegação de impostos supostamente devidos à Receita Federal, referentes à aquisição, feita ainda em 1998 pela Globopar (por meio de uma empresa subsidiária no exterior), dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão.

À época, a Receita não aprovou a operação e autuou a empresa, que se defendeu e, posteriormente, liquidou suas pendências e o caso foi arquivado. Além disso, também foi alimentado o boato de que a Globopar teria recebido um empréstimo de R$ 2,8 bilhões do BNDES no fim de 2002 para evitar a sua falência. A empresa esclareceu que nenhum pedido de crédito foi feito na ocasião, o que foi confirmado pelo próprio banco.

Enquanto isso, foram registrados em 2002 prejuízos superiores a R$ 5 bilhões e uma dívida total de R$ 6,4 bilhões. No ano seguinte, houve apenas um pequeno respiro: lucro praticamente simbólico de R$ 47,5 milhões.

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Pedido de falência foi negado

Carlos Slim Helu

Em dezembro de 2003, foi impetrado por credores um pedido de falência da Globopar junto à Corte de Falências de Nova York, negado em fevereiro do ano seguinte em razão de a holding não possuir ativos nos EUA.

Após chegar ao ápice de endividamento em junho de 2004 (R$ 8,5 bilhões), a Globopar consolidou em 2005 junto aos principais credores um plano de reestruturação de dívidas que, somadas, superavam a marca de US$ 1 bilhão. O cronograma de pagamentos se estenderia até 2012.

A Globopar já vinha em um processo de redução do endividamento, que ganhou impulso após um acordo com a News Corporation (que viabilizou a fusão da Sky com a DirecTV) e também com a venda de participações na Net Serviços para o conglomerado mexicano Telmex, de Carlos Slim (foto acima).

O ciclo se completou com a fusão entre Globopar e TV Globo, autorizada pelo Ministério das Comunicações em agosto de 2005. Em outubro do ano seguinte, o grupo quitou de forma bastante antecipada todas as pendências renegociadas nos acordos com os credores. Nos anos subsequentes, os resultados satisfatórios se acumularam, permitindo à holding atingir, em 2013, um faturamento de R$ 14,63 bilhões.

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Situação melhorou nos últimos anos

Integrantes da família Marinho

Mais recentemente, em 2020, apesar de ter faturado R$ 12,5 bilhões, a Globo Comunicação e Participações S/A teve queda de 11% no comparativo com o ano anterior, o que foi atribuído principalmente à desvalorização do real frente ao dólar.

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Reportagem do jornal Valor, pertencente ao grupo, destacou que, apesar das dificuldades causadas pela pandemia de Covid-19, a empresa manteve investimentos de R$ 4,5 bilhões em conteúdo e de R$ 1 bilhão em tecnologia. Houve queda de 17% no faturamento com a publicidade, o que tem sido constante nos últimos anos para todos os meios de comunicação tradicionais, que viram os investimentos migrarem maciçamente para as empresas de tecnologia, especialmente o Google.

Entretanto, 2021 dá sinais claros de que será um ano muito positivo para o grupo, especialmente pelo desempenho da TV Globo, que divulgou em 17 de novembro os resultados do terceiro trimestre, o melhor dos últimos quatro anos. Além de obter uma receita líquida de R$ 3,7 bilhões (aumento de 19% em relação a 2020), a emissora conseguiu reverter o prejuízo de R$ 114 milhões acumulado no primeiro semestre do ano.

Nos nove primeiros meses de 2021, a receita líquida atingiu R$ 10,1 bilhões (18% a mais do que o registrado no mesmo período em 2020). O avanço da vacinação contra a Covid-19 e a retomada dos trabalhos de gravação foram considerados fatores decisivos para os bons resultados, que premiam o esforço empreendido por meio de rigorosos ajustes nos últimos quatro anos, com ênfase nos investimentos feitos na plataforma de streaming Globoplay e na ampla revisão de contratos com profissionais e dos acordos envolvendo direitos de transmissão de eventos esportivos.

Recentemente, foi anunciado que João Roberto Marinho será presidente do Grupo Globo e Paulo Marinho assumirá a presidência da TV Globo.

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