Coração Acelerado chegou ao fim com a sensação de que poderia ter sido muito melhor do que foi. A novela das sete da Globo tinha um universo pouco explorado, protagonistas jovens, um cenário ligado à música sertaneja e um elenco cheio de nomes conhecidos.
No papel, havia material para uma trama popular, atual e capaz de conversar diretamente com boa parte do público – mas não foi o que aconteceu.
Ao longo dos meses, a história perdeu força, passou a repetir conflitos e viu sua proposta inicial se tornar um problema. A cantoria cansou, a trama andou em círculos e algumas escolhas pareceram desconectadas do tipo de novela que estava sendo vendida ao telespectador.
Nem mesmo os ajustes promovidos durante a exibição foram suficientes para mudar completamente essa percepção. Coração Acelerado melhorou em alguns momentos, ganhou personagens mais interessantes do que os protagonistas e chegou a esboçar reações. Ainda assim, terminou marcada por decisões que limitaram seu alcance.
Quatro fatores ajudam a explicar por que a novela não funcionou como poderia.
Rivalidade feminina

Coração Acelerado começou vendendo a ideia de acompanhar duas mulheres tentando encontrar espaço em um meio musical competitivo. Agrado (Isadora Cruz) e Eduarda (Gabz) eram amigas, parceiras e sonhavam crescer juntas no universo do feminejo.
Essa relação tinha tudo para ser o coração da novela. As duas poderiam enfrentar empresários desonestos, preconceito, diferenças sociais, cobranças da indústria e todas as dificuldades reservadas às mulheres que tentam se impor em um mercado ainda dominado por homens. Havia bastante história ali.
Mesmo assim, a novela preferiu colocar as protagonistas uma contra a outra por causa de Leandro.
A escolha incomodou porque reduziu uma amizade construída desde o início a uma disputa amorosa bastante conhecida do público. Não era uma rivalidade entre mocinha e vilã, como tantas vezes funciona no melodrama. Eram duas melhores amigas brigando por um homem depois de terem sido apresentadas como companheiras de vida e carreira.
O problema não estava na existência de uma briga. Amigas discutem, se decepcionam e podem passar longos períodos afastadas. O que faltou foi um conflito mais forte, relacionado à profissão ou às diferentes escolhas de cada uma.
Até Isadora Cruz demonstrou desconforto com a direção tomada pela história. A atriz contou que ela e Gabz tiveram dificuldade para aceitar que duas personagens tão próximas fossem colocadas naquele lugar novamente por causa de um envolvimento amoroso.
Não deixa de ser contraditório. Uma novela que pretendia celebrar a presença feminina no sertanejo acabou recorrendo a uma das soluções mais antiquadas possíveis para movimentar suas protagonistas.
Agrado e Eduarda tinham problemas suficientes para enfrentar sem transformar Leandro (David Junior) no centro da relação. Quando a história insistiu nesse caminho, perdeu a oportunidade de construir uma amizade feminina mais atual e interessante.
Cansou rápido
Era óbvio que uma trama sobre cantoras sertanejas teria muitos números musicais. O público já esperava por apresentações, ensaios, festivais e bastidores de shows. O excesso, porém, começou a pesar logo nas primeiras semanas.
Em vez de a música servir à história, muitas vezes parecia acontecer o contrário. Os capítulos eram interrompidos por apresentações longas, cenas de estúdio e sequências que pouco faziam a trama avançar. Para parte do público, a impressão era de assistir a um programa musical encaixado dentro de uma novela.
A recepção foi tão ruim que a Globo decidiu reduzir a cantoria. A mudança aconteceu depois de avaliações internas e de críticas que apontavam justamente o ritmo lento da história.
O curioso é que o universo musical era uma das melhores ideias de Coração Acelerado. O problema nunca foi o sertanejo, mas a forma como ele ocupava espaço demais sem trazer novos conflitos.
A carreira de Agrado poderia render muito mais. Havia a rejeição da indústria, as dificuldades financeiras, a tentativa de conquistar público, os jogos de interesse dos empresários e a pressão para mudar sua identidade artística.
Tudo isso apareceu, mas muitas vezes de maneira superficial. Enquanto assuntos capazes de sustentar vários capítulos eram resolvidos rapidamente, as apresentações se acumulavam.
A novela demorou para entender que o telespectador precisava se importar com Agrado antes de acompanhar tantas músicas dela. Sem uma ligação emocional forte com a personagem, cada novo número musical parecia apenas mais uma pausa na trama.
Quando a redução finalmente aconteceu, parte do desgaste já estava instalada.
Imagem desgastada
Colocar Isadora Cruz como protagonista não era uma decisão absurda. A atriz já havia demonstrado carisma em outros trabalhos e vinha ganhando espaço dentro da Globo. O problema estava no momento.
Em poucos anos, ela apareceu em Mar do Sertão, Volta por Cima, Guerreiros do Sol e Coração Acelerado. Foi uma sequência intensa de personagens importantes, com pouca distância entre um trabalho e outro.
Esse tipo de exposição cobra um preço. O público quase não teve tempo de sentir falta da atriz antes de vê-la novamente no ar, agora carregando uma novela inteira nas costas.
Agrado ainda trouxe uma dificuldade adicional: a música. Como a personagem era cantora, Isadora precisava convencer também nas apresentações. Muita gente não comprou essa parte da composição e criticou sua voz ao longo da novela.
Não significa que uma protagonista de novela musical precise cantar como uma profissional com anos de carreira. Mas, quando boa parte da trama depende dos shows e da ascensão da personagem, a falta de convencimento nesse aspecto se torna um problema maior.
Também houve desgaste provocado pelas notícias de bastidores. A reta final das gravações foi cercada por relatos de atrasos, insatisfação de colegas e supostos pedidos de mudanças. Parte dessas informações nunca foi confirmada oficialmente, mas ajudou a criar um ambiente ruim em torno da protagonista.
Tudo isso caiu sobre uma personagem que já não era das mais fáceis de defender.
Agrado demorou a conquistar o público, tomou decisões questionáveis e ficou presa a conflitos repetitivos. Em uma novela com tantos problemas, Isadora acabou se tornando o rosto mais visível do fracasso, mesmo sem ser a única responsável por ele.
Talvez o melhor caminho agora seja justamente o descanso de imagem. Depois de tantos trabalhos seguidos, algum tempo longe das novelas pode ajudar a atriz a voltar com um personagem diferente e sem o peso acumulado nos últimos anos.
A história acabou antes
Esse talvez tenha sido o maior problema de Coração Acelerado. Os principais mistérios foram resolvidos cedo demais. João Raul (Filipe Bragança) descobriu que Agrado era Diana, a garota do passado. Alaorzinho (Daniel de Oliveira) soube que Zilá (Leandra Leal) havia armado contra Janete (Letícia Spiller). A verdade sobre a morte de Jean Carlos (Ricardo Pereira) também veio à tona.
Quando essas revelações aconteceram, a novela ainda tinha muitos capítulos pela frente.
Sem novos conflitos fortes para ocupar o espaço, a trama passou a repetir os mesmos movimentos. Casais terminavam e voltavam. Zilá criava outra armação. Ronei (Tomás Aquino) aparecia com mais um plano. Agrado e João Raul enfrentavam uma nova crise que, no fundo, parecia muito com a anterior.
Até as ervas de Cinara (Ramille) se tornaram uma solução recorrente. Sempre que a história precisava alterar o comportamento de alguém, provocar confusão ou empurrar um personagem para determinada situação, as famosas gotinhas apareciam.
No começo, o recurso tinha graça. Depois de tantas repetições, virou sinal de falta de novas ideias.
