Feita às pressas, melhor novela de Janete Clair estreava há 45 anos na Globo - TV História

Feita às pressas, melhor novela de Janete Clair estreava há 45 anos na Globo

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Um clássico da TV brasileira, considerada pela crítica especializada a melhor das novelas de Janete Clair, Pecado Capital completa, neste dia 24 de novembro, 45 anos de sua estreia. A novela foi feita a toque de caixa, em 1975, para suprir o veto de Roque Santeiro. Por isso Pecado Capital usou, praticamente, a mesma equipe técnica e artística da produção vetada.

Após a notícia da censura de Roque Santeiro pelo Governo Federal (na noite de sua estreia, em 27 de agosto de 1975), a Globo decidiu reprisar a novela Selva de Pedra (de 1972) como tapa-buraco, enquanto providenciava imediatamente uma produção inédita para substituir a novela que foi proibida.

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Janete se prontifica

A emissora enviou ao departamento de censura do governo três sinopses e todas foram rejeitadas: Saramandaia, de Dias Gomes (que estrearia no ano seguinte, às 22 horas), e as adaptações dos romances “O Resto é Silêncio”, de Érico Veríssimo, e “Os Cangaceiros”, de José Lins do Rêgo. Janete Clair – que naquele momento estava escrevendo a novela das sete, Bravo! – se ofereceu para desenvolver uma sinopse em tempo recorde, na qual aproveitaria o elenco que fora escalado para Roque Santeiro.

Enquanto passava o comando de Bravo! para Gilberto Braga, seu colaborador nessa novela, Janete apresentou Pecado Capital. A novela significou uma mudança em seu estilo, que vinha sendo muito criticado na época. A autora deixava as tramas fantasiosas e melodramáticas e partia para o realismo, muito próximo do que Dias Gomes, seu marido, já fazia no horário das 22 horas. Pecado Capital não tinha uma mocinha ingênua e sofredora e nem um galã romântico. Pelo contrário: Lucinha (Betty Faria) era batalhadora e de personalidade forte, enquanto Carlão (Francisco Cuoco) era praticamente um anti-herói.

A autora revelou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som: “Com a expectativa que Roque Santeiro criou, a responsabilidade de escrever sua substituta era muito grande. Mudei meu gênero. Não fiz Pecado Capital para imitar o Dias, mas, pelo menos, para me igualar um pouco ao estilo dele. Levei meu romantismo para o lado realista. Parece que em Pecado Capital em diante eu dei uma melhorada”.

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A interferência de Daniel Filho

Com a censura a Roque Santeiro, o clima era de frustração. A direção da Globo queria uma novela que inovasse o horário das oito, e não os mesmos melodramas de Janete Clair. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho narrou em seu “Livro do Boni” a apreensão de Daniel Filho (o diretor) ao receber a primeira sinopse de Pecado Capital: “O Daniel me procurou acabrunhado: ‘Não dá Boni! É outra Selva de Pedra, com o mesmo Cuoco e a Betty Faria vai fazer o que está fazendo a Regina Duarte. E o pior é que isso está no ar’ [Selva estava sendo reprisada] (…) Não tínhamos outra alternativa e dei uma empurrada nele: ‘Mexe nisso. Vira tudo de cabeça pra baixo. Você sabe fazer.’ Ele estava triste, mas no dia seguinte voltou alegrinho: ‘Encontrei a solução. Vou fazer um Carlão sacana e não bonzinho como a Janete escreveu. E vou fazer a Lucinha meio moleca, meio louquinha.’ Essa jogada do Daniel deu uma virada tão espetacular em Pecado Capital que a novela se tornou um dos maiores sucesso da Globo”.

Na sinopse original de Janete Clair, a novela chamava-se O Medo e o personagem Carlão era Rafa, o galã romântico, namorado de Lucinha, a moça suburbana e ambiciosa que se envolvia com o rico empresário Salviano Lisboa, o vilão da história, para ascender socialmente. Na ideia de Janete, Salviano perderia o amor de Lucinha para Rafa, porque o grande amor verdadeiro seria esse simples, puro, do subúrbio. Com Daniel Filho, a autora mudou a trama: humanizou Salviano, tornando-o um solitário, e Rafa (que passou a chamar-se Carlão), deixou de ser o mocinho e tornou-se o anti-galã.

Daniel declarou em seu livro “Antes que me Esqueçam”: “Na verdade Pecado Capital é uma dessas novelas que acontecem de tempos em tempos, uma dessas mágicas absurdas. (…) Para mim, Francisco Cuoco, o Carlão, não guardava o dinheiro pensando em devolver: guardava pensando mesmo em guardar. O meu Carlão era assim, e a partir daí mudava um pouco o Carlão da Janete, porque o meu era meio sacana. Assim eu mantinha o texto da Janete, mas o comportamento do Carlão ficava meio contraditório”.

Por seu trabalho em Pecado Capital, Daniel Filho foi eleito pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) o melhor diretor de televisão de 1976. Lima Duarte e Betty Faria levaram os prêmios de melhores atores do ano. Lima Duarte também foi premiado com o Troféu Imprensa de melhor ator de 1976.

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Estética realista

Pecado Capital – que foi a primeira novela gravada em cores para o horário das oito da noite da Globo – estendeu-se até junho de 1976, totalizando 167 capítulos.

A concepção realista estava inclusive na cenografia, algo incomum nas telenovelas da época. Daniel revelou em “O Circo Eletrônico”: “(…) a proposta foi assumir uma brasilidade bem realista. Queria mostrar a miséria. Quando o Boni assistiu ao primeiro capítulo, fiquei desesperado porque já tinha gravado 10 ou 12 capítulos, e ele me pediu para refazer tudo pois estava tudo muito miserável, muito deprimente. Nós tínhamos feito um tremendo laboratório para fazer aquela novela. Não refizemos”.

Daniel Filho e a figurinista Marília Carneiro optaram por não confeccionar roupas para os personagens. Marília andou pelas ruas e trocou roupas novas pelas que as pessoas usavam, entregando aos atores as peças que reuniu. Para a caracterização de Carlão, Francisco Cuoco engordou e deixou crescer o bigode e as costeletas.

A novela teve imagens gravadas nos bairros cariocas de Copacabana, Méier e Catete (na época em obras para a implantação do metrô). Também foram realizadas cenas nos trens urbanos, algo até então inédito em novelas. A sequência da morte de Carlão foi gravada no Largo da Carioca, nas obras de implantação do metrô, que ainda não operava na cidade. Somente em 1979 o meio de transporte passou a funcionar no Rio de Janeiro, enquanto a Estação Carioca foi inaugurada em 1981.

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Remake infeliz

Em 1998 (portanto 23 anos depois), Pecado Capital ganhou um remake, em que a autora, Glória Perez, baseou-se na novela de Janete Clair para escrever outra novela. Glória atualizou a história e acrescentou novos personagens em tramas inéditas. Infelizmente o resultado ficou aquém do esperado e o remake passou longe de repetir o sucesso da versão dos anos 1970. Francisco Cuoco, Carolina Ferraz e Eduardo Moscovis viveram os protagonistas Salviano, Lucinha e Carlão nesta nova versão.

Além de enfrentar rejeição, o remake teve problemas que culminaram com uma crise nos bastidores: Carolina Ferraz e Francisco Cuoco, o par romântico Lucinha e Salviano, se desentenderam. Na época, foi noticiado que Carolina se negava a beijar Cuoco em cena. Para acalmar os ânimos, Glória criou um novo interesse amoroso para Salviano, Laura, personagem que não existia na novela original. Vera Fischer entrou então para contracenar com Cuoco.

Por causa do quiproquó envolvendo os atores protagonistas, Glória Perez mudou o final da história. Na versão original, enquanto Lucinha casava-se com Salviano, Carlão era baleado nas obras do metrô, no Largo da Carioca. Glória mudou para que Salviano ficasse com Laura, enquanto Carlão morria assassinado no metrô da Praça Cardeal Arcoverde, em Copacabana, e Lucinha chorava a sua morte. Antes não tivesse tido remake algum.

AQUI tem tudo sobre Pecado Capital: a trama, elenco e personagens, trilha sonora e muitas curiosidades de bastidores.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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