Com fantasmas, novela que terminava em 2015 exorcizou fiascos da Globo - TV História

Com fantasmas, novela que terminava em 2015 exorcizou fiascos da Globo

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O objetivo do estreante Daniel Ortiz era bem complicado: reerguer o horário das sete, afundado pelo fracasso Geração Brasil, que conseguiu piorar ainda mais a audiência da faixa após a problemática Além do Horizonte. O autor, supervisionado por Silvio de Abreu, resolveu apostar em uma trama simples para conquistar o público. Dessa forma, no dia 8 de maio de 2015, exatamente há seis anos, a Globo encerrava Alto Astral. Pode-se afirmar, com convicção, que a missão foi devidamente cumprida.

A novela foi baseada na sinopse original da saudosa Andrea Maltarolli (falecida em 2009) e mesclou muito bem espiritismo, comédia e drama. Ao contrário das duas obras anteriores, a trama não tinha pretensão alguma, tanto que apostou no folhetim tradicional que lembrou bastante, inclusive, as produções das 19h da década de 90. A história tinha a cara da faixa e não demorou muito para a audiência crescer, aumentando os índices preocupantes do horário – a reta final, aliás, elevou ainda mais os números, chegando a surpreendentes picos acima dos 30 pontos, marcando algumas vezes uma maior média que Babilônia.

Uma estratégia inteligente do autor foi a inserção espaçada de novos personagens, já anunciados como presentes na trama nos créditos da abertura. Alguns, inclusive, tiveram a entrada antecipada em virtude da cobrança do público. Todos, de uma forma ou de outra, provocaram viradas na trama.

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Adriana Máximo (Totia Meirelles), Scarlet (Mônica Iozzi), Pedro (Kadu Moliterno), Dirce (Marianna Armellini), Meire (Débora Olivieri), Oscar (Juan Alba), Nicolas (Hugo Bonemer), Kitty (Maitê Proença) e Morgana (Simone Gutierrez) foram alguns destes perfis que chegaram depois com o objetivo de movimentar a história, o que de fato ocorreu, mantendo o interesse pelo enredo, muito bem entrelaçado.

O acerto do casal protagonista ficou explícito logo nas primeiras cenas do par, composto por Laura e Caíque. Nathalia Dill e Sérgio Guizé tiveram química de sobra e os personagens viveram a clássica história do amor de outras vidas, incluindo uma situação que primava pela delicadeza: a presença constante de Bella (Nathália Costa), o espírito da filhinha deles que sempre estava presente e fazia de tudo para juntá-los, pois queria nascer. A música ‘Diz pra mim’, da Banda Malta, vencedora do programa SuperStar, ajudou a deixar o clima de romance ainda mais bonito.

E toda esta tradicional história de amor ficou inserida em uma deliciosa trama que misturou momentos cômicos com muita vilania e dramalhão. A saga da aceitação da mediunidade de Caíque foi bem construída – ele virou grande parceiro de Castilho (ótimo Marcelo Médici), espírito que era seu amigo em outra vida e incorporava no protagonista para ajudá-lo nas cirurgias espirituais -; assim como a busca em torno da identidade da verdadeira mãe de Laura – ela enfrentou vários obstáculos em suas investigações sobre o mistério que envolvia a foto de Adriana, Úrsula, Tina e Kitty juntas.

A inveja do ambicioso Marcos (Thiago Lacerda) foi mostrada desde o início e a vilania do canalha serviu para evidenciar o lado novelão tradicional de Alto Astral. Entretanto, apesar de quase todas as maldades do filho de Maria Inês terem sido voltadas para o bom e velho clichê – incluindo um previsível sequestro no último capítulo -, vale elogiar a ousadia de fazer um malvado sem qualquer traço de humor, o que poderia provocar uma forte rejeição do telespectador. Mas o maligno perfil funcionou bem no enredo e o sócio do Hospital Bittencout teve ainda uma boa parceria com Sueli, amante e secretária, interpretada com competência por Débora Nascimento.

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Maria Inês, por sua vez, foi uma espécie de mocinha mais experiente do enredo. A personagem (mãe do mocinho e do vilão) sofreu a novela toda em virtude de um amor que não poderia ser concretizado por causa da ‘doença’ da melhor amiga. A ricaça não conseguia ser feliz em momento algum, mas na reta final descobriu a armação da víbora Úrsula (Silvia Pfeifer) e finalmente pôde ficar ao lado de Marcelo. Christiane Torloni ganhou um grande papel e aproveitou a oportunidade para brilhar. Ela teve uma nítida química com Edson Celulari, bom entrosamento com Sérgio Guizé e Elizabeth Savalla, e a dupla formada com Silvia, vale lembrar, ainda rendeu uma ótima metalinguagem envolvendo a explosão de um shopping – quando as duas se salvaram, ao contrário do que aconteceu na época que faziam um casal lésbico em Torre de Babel.

A irmã de Manuel (Leopoldo Pacheco), para culminar, ainda foi o foco central da última semana. Afinal, ela era a verdadeira mãe de Laura. A mocinha era filha dela com Marcelo. Úrsula roubou a menina, colocando o bebê na porta do filho de Vicente (Otávio Augusto), com o intuito de impedir que a rival tomasse conhecimento da existência deste vínculo eterno com o amor de sua vida. Este enredo foi muito bem amarrado e todas as pontas se juntaram no final, proporcionando um desfecho bonito, coerente e inesperado. Christiane Torloni e Nathalia Dill, aliás, merecem elogios pela belas cenas. Silvia Pfeifer também se destacou.

Já a comicidade da novela ficou por conta de Samantha e Pepito. Cláudia Raia se destacou merecidamente, fazendo uma dobradinha impagável com o estreante Conrado Caputo. Os dois protagonizaram uma sucessão de cenas hilárias, com direito a várias homenagens (inseridas através de muita metalinguagem) aos 30 anos da carreira televisiva da atriz. Entre as situações mais pitorescas vividas pela dupla dinâmica estão a viagem para o Oriente Médio (onde a ‘vidente’ conheceu um rei vivido por Igor Rickli) e a gravação de um clipe de funk. É preciso citar também Simone Gutierrez que formou um grande time com eles. Afinal, Morgana era o espírito que ajudava, ao mesmo tempo que atormentava, a paranormal com suas previsões, fazendo questão de soltar sempre uma gargalhada demoníaca a cada aparição.

O núcleo de Tina (Elizabeth Savalla) também foi responsável por uma boa dose de humor e leveza na história. As constantes brigas daquela escandalosa família – onde vários tinham nomes de países – divertiram e Afeganistão (Gabriel Godoy, uma das gratas surpresas) era o personagem mais hilário: o filho burro preferiu uma legião de pérolas, trocando nomes e acrescentando ‘s’ em tudo quanto era palavra.

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Mas, apesar da comicidade, esta trama conseguiu apresentar bons conflitos envolvendo todos os perfis: a matriarca – que tinha outra família e na verdade era milionária -, Bélgica (talentosa Giovanna Lancellotti) – a invejosa menina que sonhava em ser a ‘amiga’ rica -, Israel (Kayky Britto) – rapaz viciado em fortes tranquilizantes que foi acusado injustamente de um erro médico – e Itália (Sabrina Petraglia) – que foi humilhada por César (Alejandro Claveaux) e se vingou na mesma moeda.

Outro acerto foi a trama envolvendo os espíritos. Bella não falava nada, mas Nathalia Costa encantou e seus gestos valiam cada aparição. O mistério inusitado envolvendo Dirce e Meire – as duas eram fantasmas e uma delas não sabia que tinha morrido – despertou curiosidade, destacando o bom entrosamento de Débora Olivieri e Marianna Armellini, que ganharam a companhia do ótimo Rodrigo Lopez (Salvador, espírito de um chef de cozinha) com o decorrer da novela. E Marcelo Médici foi mais um êxito de toda esta trama. Castilho mesclava momentos sérios e cômicos, sendo o fiel escudeiro de Caíque. Na reta final, ele ainda fez uma hilária dupla com Simone Gutierrez, que foi sua colega de cena na excelente novela Passione. Morgana deixava o falecido médico em pânico. Vale mencionar também o espírito do faxineiro do hospital, interpretado pelo veterano Pedro Farah, que só era visto por Caíque e Azeitona. No final, ele foi embora junto da mulher (simpática Hilda Rebello), que veio buscá-lo em uma cena sensível.

Além de todos os pontos positivos mencionados, é preciso elogiar a história envolvendo Sueli e Azeitona, que evidenciou o talento de Ana Carbatti (Aurélia), destacou JP Rufino (grata revelação de Além do Horizonte) e ainda mostrou uma nova faceta de Débora Nascimento. Também se faz necessário citar outros ótimos atores que convenceram sempre que apareceram em cena, como: Marilu Bueno (Marieta), Adriana Prado (Suzana), Sophia Abrahão (Gaby), Sérgio Malheiros (Emerson), Nando Rodrigues (Ricardo), Débora Rebecchi (Liz), Raquel Fabbri (Bia), Otávio Augusto, Norival Rizzo (Escobar), Marat Descartes (Fernando), Rosanne Mulholland (Débora), Alejandro Claveaux e Totia Meirelles; além de Mônica Iozzi, que foi a grande surpresa da novela — brilhou nas duas identidades: Scarlet e Cidinha.

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Porém, o folhetim teve erros que merecem menção. Muitas vezes o núcleo da família de Samantha ficava deslocado na história e o enredo sobre a rivalidade entre Ricardo, Emerson e César na natação não empolgou. A súbita mudança de personalidade de Liz – que era um poço de integridade, mas depois não se importou em se voltar contra a melhor amiga – ficou forçada. Aliás, não precisava deste artifício pobre para juntar Israel e Bia, um casal lindo, que demorou demais para ficar junto (um equívoco aproximá-los somente na penúltima semana). E Rosanne Mulholland merecia mais destaque, afinal, sua vilã Débora prometia inicialmente, mas pouco apareceu. Houve também uma demora excessiva para desenrolar o enredo da falsa doença de Úrsula. Várias vezes a sensação de enrolação foi sentida. O autor também poderia ter explorado mais a parceria de Simone Gutierrez e Marcelo Médici. Só que, analisando todo o conjunto, foram erros pequenos diante das qualidades apresentadas.

O último capítulo apresentou todos os clichês possíveis, honrando o que foi toda a história. Mas um dos acertos deste folhetim foi mostrar que o tradicional e o previsível também funcionam caso sejam inseridos com competência. O sequestro de Laura foi cheio de tensão, assim como a cena em que Caíque briga com Marcos, atirando nele acidentalmente. O mocinho incorporou o espírito de Castilho e salvou a vida do irmão, que ficou extremamente grato, finalmente acreditando no dom do seu ‘rival’. Bélgica, Gustavo e Adriana foram punidos pela justiça com serviços comunitários, 5 e 30 anos de detenção, respectivamente. Úrsula teve o melhor castigo que poderia receber: descobriu que estava com a doença terminal que tinha inventado e só lhe restou a empregada para conversar – seu desfecho foi uma clara homenagem ao fim de Branca Letícia de Barros Motta (Susana Vieira), em Por Amor. Grande sacada do autor.

O final dos espíritos indo embora para outro plano foi muito bonito e destacou Débora Olivieri, Marianna Armellini, Rodrigo Lopez, Marcelo Médici e Simone Gutierrez. Outro momento merecedor de elogios foi a reconciliação de Itália e César: a filha de Tina correu atrás do nadador e viajou com ele. Já a cena do casamento de Laura e Caíque – ocorrido no Rancho Maltarolli, em uma singela homenagem a Andrea – primou pela sensibilidade e expôs todos os casais que se formaram ao longo da novela: Tina e Manuel, Bia e Israel, Marieta e Vicente, Scarlet e Ricardo, Afeganistão e Dirce, Itália e César, Liz e Nicolas, e Maria Inês e Marcelo. A última cena foi um lindíssimo clipe protagonizado por Laura, Caíque e Bella (que, ao contrário de antes, tagarelava sem parar) na praia, felizes e embalados pela música “Diz pra mim”, após tantas dificuldades. Um belo desfecho para uma gostosa trama.

Alto Astral começou de forma despretensiosa, conquistou o público, e terminou reerguendo a audiência do horário das sete da Globo – o folhetim chegou a 31 pontos de pico no último capítulo e fechou com média geral de 22 pontos, três a mais que Geração Brasil (19 pontos, pior índice da faixa). Daniel Ortiz fez uma bela estreia e Silvio de Abreu mostrou que valeu a pena o investimento em mais um discípulo seu – ele também foi o ‘mestre’ de Maria Adelaide Amaral, Elizabeth Jhin e João Emanuel Carneiro.

A deliciosa comédia romântica/espírita funcionou perfeitamente na faixa e foi muito agradável acompanhar este simples, mas bem feito, folhetim. A saudosa Andrea Maltarolli, onde quer que esteja, com certeza ficou feliz.



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