“Estamos passando fome”: em 1993, greve de funcionários tirou Manchete do ar

Não foram poucas as crises da Rede Manchete durante seus quase 16 anos de existência. A emissora atravessou diversos momentos difíceis, que culminaram no seu encerramento. Mas algumas delas chamaram a atenção, como a que aconteceu em São Paulo (SP) no dia 16 de julho de 1993, chegando a tirá-la do ar na capital paulista.

Na madrugada deste dia, um grupo de funcionários da emissora e sindicalistas ocupou os transmissores no bairro do Sumaré por falta de pagamento dos salários. Os trabalhadores, através de seus sindicatos, exigiam do então presidente Itamar Franco uma intervenção federal que afastasse a família Bloch, proprietária do canal, e garantisse os empregos e os salários.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


A Manchete passava por um momento muito delicado. Após a venda da emissora para o Grupo IBF, do empresário Hamilton Lucas de Oliveira, Adolpho Bloch entrou na justiça e retomou o controle do canal em abril de 1993, alegando descumprimento de cláusulas contratuais. Uma greve já havia acontecido algumas semanas antes, também prejudicando o andamento da programação.

Quando o prédio do Sumaré foi invadido, os grevistas separaram São Paulo da rede e tiraram a emissora do ar. Passaram a exibir vídeos, entrevistas e comunicados por conta própria. O fato foi notícia em todos os telejornais, como o Jornal do SBT (SBT), que informou que “a greve virou manchete”, o São Paulo Já (Globo), o Jornal da Cultura 60 Minutos (Cultura) e o Informe São Paulo (Record), entre outros.

“Quem sintonizou a TV Manchete hoje de manhã viu o comunicado dos funcionários, que disseram que estão parados porque não recebem o salário. O clima é pacífico e apenas um carro da polícia acompanha o movimento”, disse Carlos Nascimento na Globo.

“Eles não recebem há dois meses e decidiram fazer o protesto. As sete horas da manhã o aviso substituiu a programação da TV Manchete. Os 700 trabalhadores da TV Manchete de São Paulo vivem nessa via sacra faz seis meses. Tem meses que eles não recebem os salários, nos outros recebem parte dos salários. Nesses últimos dois meses, a TV Manchete não tem feito nenhum pagamento”, disse o jornalístico da Cultura.

O diretor da Manchete em São Paulo, Oscar Bloch, considerou a invasão “precipitada e intempestiva” e afirmou que o ato foi organizado por pessoas que não eram funcionárias da emissora.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Em entrevista ao telejornal da Record, Marco Ribeiro, então presidente do Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo, disse o grupo pretendia ficar na emissora até que a situação fosse normalizada. “Queremos discutir com parlamentares, a sociedade civil e os ministérios do Trabalho e da Comunicação uma saída para a TV Manchete, não queremos que a emissora feche. O movimento é totalmente pacífico”, declarou.

A greve foi encerrada na noite do mesmo dia 16 de julho. Os funcionários desocuparam o prédio e a rede voltou a transmitir a programação normal na capital paulista.

No Jornal da Manchete daquele dia, Márcia Peltier leu uma nota da direção da Rede Manchete:

“Na madrugada de hoje, dia 16, os nossos transmissores de São Paulo foram vítimas de uma violência. Uma invasão de um grupo de 25 baderneiros, acompanhados por políticos ligados à CUT, estranhos aos quadros de funcionários da Manchete. O motivo alegado foi o atraso no pagamento dos salários. Ao reassumir a Televisão Manchete por determinação judicial, o Grupo Bloch a encontrou com atraso médio de cinco meses no pagamento dos salários em toda a rede. Com um esforço imenso nesta época de crise, o Grupo Bloch conseguiu reduzir esse atraso para menos de dois meses, com a promessa de saldar o mês de maio até a próxima quinta-feira. Na verdade, a principal razão dessa violência é a decisão da Rede Manchete de concentrar no Rio de Janeiro a sua base de geração, porque nenhuma rede mantém duas fontes de produção. Economicamente, seria um suicídio. Neste exato momento, a Rede Manchete mantém unidas suas 38 emissoras afiliadas, começa a crescer em audiência, reconquistando a credibilidade do público e recebendo apoio das agências de publicidade. Seus 2.500 trabalhadores não podem ser prejudicados por 25 baderneiros. As providencias de ordem legal e policial já estão sendo tomadas para regularizar a transmissão de São Paulo”.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Esta foi apenas uma das inúmeras crises enfrentadas pela Manchete. Após a morte de Adolpho Bloch em 1995, a situação ficou insustentável. A emissora saiu do ar em 10 de maio de 1999, dando lugar à RedeTV!.



Deixe sua opinião


Leia também