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A Globo concluiu, nesta sexta-feira (4), a exibição da novela Nos Tempos do Imperador – de Thereza Falcão e Alessandro Marson, com direção artística de Vinícius Coimbra -, produção com algumas qualidades e muito problemas.
Era até natural que, lá em 2017, ainda embevecidos com a boa repercussão de Novo Mundo, a emissora e os autores se entusiasmassem em continuar a saga da Família Imperial Brasileira em narrativa folhetinesca, mesclando vultos históricos com personagens e tramas fictícias. Porém, nem tudo saiu como planejado.
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Imperadores muito diferentes
Dom Pedro I é um personagem riquíssimo, pronto para render boas histórias. O príncipe sempre despertou curiosidade do público, vide as vezes em que já foi representado na televisão/cinema.
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Entretanto o mesmo não se pode dizer de seu filho. Extrair algum carisma de Pedro II foi uma tarefa em vão. Não só sua trama é menos rica, como seu perfil, introspectivo, é menos interessante.
Valer-se exclusivamente do intelecto e da cultura de Dom Pedro II não foi o suficiente para limpar a sua barra face à passividade do monarca no trato com questões como a abolição da escravatura, um assunto, aos olhos de hoje, por demais sensível.
Pior ainda com a interpretação monocórdica de Selton Mello. Que figura enfadonha!
Na novela anterior, os autores foram muito felizes em roubar o protagonismo da Marquesa de Santos e entregá-lo a uma princesa Leopoldina forte e carismática. O mesmo não se repetiu entre a Condessa de Barral e Tereza Cristina.
Desde sempre o público rejeitou o caso do imperador com a condessa. Na contrapartida dessa rejeição, não foi possível tornar Tereza Cristina tão interessante quanto ficou a imperatriz austríaca da novela anterior.
Extremamente contida, a abnegada TC foi salva pela excelente atuação de Letícia Sabatella.
Estética soturna
Também é importante citar a mudança narrativa e estética entre uma novela e outra. Novo Mundo era uma obra de aventura, capa e espada, com navios, piratas e indígenas.
Nos Tempos do Imperador, muito diferente, foi uma novela soturna, de estética pesada. Convincente se considerarmos que Pedro I era solar enquanto Pedro II, menos carismático, só soava melancólico.
Esse disparate entre as duas novelas se refletia inclusive em seus núcleos de humor. Germana, Licurgo e Elvira Matamouros, em Novo Mundo, eram realmente divertidos, mas, em Nos Tempos do Imperador, unidos a Quinzinho, Clemência e Vitória, perderam a verve.
Do elenco cômico, salvaram-se as ótimas interpretações de Paula Cohen, como Lota Batista, e Roberta Rodrigues, como Lupita.
Culpa da pandemia?
O perfil de Pedro II não era aventureiro o suficiente para entrechos de ação, enquanto a estética soturna foi uma opção consciente da direção. A pandemia de Covid-19 nada teve a ver com as escolhas narrativas e estéticas de Nos Tempos do Imperador, mas tornou ainda pior este quadro.
Ficou difícil gravar cenas de aventura ante adiamentos e atrasos dos cronogramas, rígidas normas sanitárias e redução de figurantes.
Pelo resultado final, do que foi ao ar, e pelas intempéries que enfrentaram durante o período de pandemia, autores, diretores e atores até que saíram bem.
Outra consequência da pandemia que prejudicou a novela foi o fato de ela ter sido entregue ao público totalmente escrita e quase gravada e finalizada. Ou seja, uma obra fechada, o que não permitiu à emissora aferir o gosto e anseios do público.
Se fosse uma obra aberta, Thereza Falcão e Alessandro Marson teriam ajustado tramas que deixaram a desejar e que aborreceram ou afastaram o telespectador.
Contudo, a meu ver, a baixa audiência da novela (historicamente a menor da faixa das seis) está muito mais atrelada à história que foi concebida e entregue do que à pandemia em si.
Escolhas infelizes
Talvez não fosse perceptível na ocasião (em 2017, quando a história foi concebida), mas a escolha pelas abordagens históricas e pelo período retratado – Segundo Reinado, centralizado na figura de Dom Pedro II, com foco na discussão da abolição da escravatura – já sinalizava um campo minado.
Consultores sobre assuntos relacionados à negritude e racismo (bem como roteiristas negros) deveriam ter sido uma prerrogativa desde sempre. Pois só foi acontecer bem depois, revelou a autora Thereza Falcão ante a péssima repercussão sobre uma infeliz cena de racismo reverso exibida no início da novela.
O público moderno não tolera mais tramas de cunho abolicionista em que brancos são pintados como salvadores ou redentores. Não há mais espaço para Sinhás Moças. Penso se é mesmo necessário completar a suposta trilogia que os autores planejam, dessa vez centrada na figura da Princesa Isabel, “a Redentora”.
A verdadeira mocinha
A trama do amor entre uma branca que sonha ser médica e o escravo fugido também não desceu bem. Muito mais que a falta de química entre os atores Gabriela Medvedovski e Michel Gomes, estava a condução desse romance.
A começar pelo excesso de liberdade criativa: no período retratado, um casal inter-racial jamais andaria de mãos dadas pelas ruas ou trocando carícias em público, ainda mais sendo ele um negro e ela uma branca. Verossimilhança é o mínimo quando a proposta é discutir temas que reverberam na atualidade.
Outro ponto foi a total falta de carisma dos casais centrais. Além de Pedro e Luísa, Pilar e Samuel. No afã de apresentar Pilar como uma heroína determinada, mulher à frente do seu tempo, os autores sacrificaram virtudes e dramas que sensibilizassem o público.
Assim sendo, a irmã de Pilar, Dolores (grande desempenho de Daphne Bozaski), que enfrentava o horror de um casamento forçado com o vilão, ganhou as graças da audiência e tornou-se a mocinha moral da história.
Ainda mais porque viveu um amor (com Nélio) que foi sendo construído paulatinamente, de maneira mais sólida que Pilar, que simplesmente apaixonou-se à primeira vista sem ao menos o público ter se afeiçoado a ela.
As duas irmãs revelam um caso curioso no universo das novelas. Pilar foi vendida como a protagonista batalhadora, dona de seu nariz, determinada, ou seja, uma heroína de nossos tempos, longe da figura da mocinha sofredora.
No entanto, foi a mocinha sofredora Dolores quem ganhou a simpatia do público, que preferiu ver na tela o melodrama tradicional ao discurso moderno de empoderamento feminino.
Outro erro dos autores foi imputar a Zayla, uma personagem negra (Heslaine Vieira, outra ótima atuação), vilanias que a contrapunham com Pilar.
Uma novela que aborda um período nefasto para a raça negra poderia ter poupado o público da figura da preta invejosa e sexualizada (Zayla chegou a usar o corpo para conseguir o que queria).
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O vilão
Tonico Rocha merece um parágrafo à parte, muito mais pela interpretação sagaz de Alexandre Nero do que pela condução do personagem pelos autores.
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O vilão começou risível, mas aos poucos foi se revelando uma criatura abominável. Ainda que o excesso de vilanias tenha cansado o público, o link com o cenário político atual, bem como com um c e r t o p o l í t i c o da atualidade, ofereceu um charme extra.
O assassinato do vilão, na última semana, foi um banho de água fria não somente pelo batídíssimo recurso do “quem matou”, mas porque a prisão teria sido um desfecho mais justo para o personagem – e para os anseios do público, que espera ver o mesmo destino para o político correlato a Tonico Rocha na vida real.
PS: Muito bonito o texto que encerrou a novela, narrado por Selton Mello, sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que foi destruído por um incêndio em 2018.