Em 1986, novela fazia história ao alcançar 100% de audiência no último capítulo

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Escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, com base no original do próprio Dias (a peça O Berço do Herói), Roque Santeiro terminava há exatamente 35 anos, em 21 de fevereiro de 1986, em capítulo que obteve picos de 100% de audiência e entrou para a história da teledramaturgia e também da televisão.

A primeira versão da produção estava prevista para estrear em agosto de 1975, sendo protagonizada por Betty Faria (Viúva Porcina), Francisco Cuoco (Roque Santeiro) e Lima Duarte (Sinhozinho Malta). Porém, em virtude da Ditadura Militar, que censurou o produto, o folhetim foi cancelado e todo o material perdido.

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A novela só conseguiu a ser produzida em 1985, ou seja, 10 anos depois, mantendo Lima Duarte como um dos protagonistas, mas com duas mudanças nas outras pontas do triângulo central. Betty e Francisco não voltaram, sendo substituídos por Regina Duarte e José Wilker. Após este período um tanto quanto turbulento, a história ambientada na fictícia cidade de Asa Branca (tratada como um microcosmo do Brasil) foi finalmente exibida, fez um imenso sucesso e ficou eternizada na memória dos telespectadores. O folhetim ainda foi reprisado três vezes: duas na própria Globo e uma no canal Viva.

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Os autores fizeram uma ótima sátira à exploração política e comercial da fé popular através de personagens carismáticos e bem exagerados. Os moradores de Asa Branca vivem em função dos supostos milagres atribuídos a Roque Santeiro, um coroinha e artesão de imagens sacras que morreu defendendo a cidade do perigoso bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro) – boato que se espalhou no local, virando uma grande verdade – e todos veneram aquela figura. Até mesmo uma estátua do ‘Santo Roque’ foi erguida em praça pública, servindo de homenagem para o ‘salvador’.

Muitos poderosos lucram com este ‘mito’ e o usam para manipular a população, entre eles o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o conservador padre Hipólito (Paulo Gracindo), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) – o que mais explora a imagem do santo – e o fazendeiro Sinhozinho Malta, que até obrigou a amante Porcina a espalhar que era viúva de Roque (ela sequer o conhecia, mas contou a todos que foi casada com o ‘santo’), transformando-se assim em um grande patrimônio da cidade. Ou seja, todo o enredo envolvendo o herói do local era bastante proveitoso para várias figuras influentes, ao mesmo tempo que trazia fama para o lugar e servia para manter a população sob controle.

Reviravolta

Mas a história sofre uma grande virada quando o mártir volta vivo 17 anos depois. Interpretado pelo saudoso José Wilker, o personagem provoca um verdadeiro alvoroço na vida dos poderosos – que se sentem ameaçados com este inesperado retorno – e ainda deixa Porcina completamente apaixonada por ele, formando a partir de então o principal (e inesquecível) triângulo amoroso da trama junto de Sinhozinho Malta. Roque também deixa a verdadeira viúva (Mocinha – Lucinha Lins) – filha do prefeito e da beata Dona Pombinha (maravilhosa Eloisa Mafalda) – desnorteada com sua volta, uma vez que a mulher nunca havia se conformado com seu desaparecimento. Ela, inclusive, é cortejada pelo sombrio professor Astromar (Rui Rezende) e ignora as investidas do admirador, fazendo de tudo para voltar para os braços do seu único amor.

O enredo central fica voltado para o dilema de contar para todos que a lenda nunca existiu ou simplesmente fingir que nada aconteceu, mantendo tudo do jeito que estava. Há um conflito de interesses do início ao fim da trama. O padre Albano (Cláudio Cavalcanti), por exemplo, defende que tudo seja explicado para o povo, enfrentando forte resistência dos que querem optar pelo sigilo. E, obviamente, entre os que preferem não revelar a existência deste homem na cidade estão Florindo Abelha, Hipólito, Sinhozinho Malta e o Zé das Medalhas. Todos brilhantemente interpretados, vale ressaltar. Ary Fontoura deu um verdadeiro show na pele do prefeito, fazendo ainda uma ótima dupla com Eloísa Mafalda; os saudosos Paulo Gracindo e Armando Bógus mostraram o quão talentosos eram interpretando o conservador padre e o ambicioso Zé, respectivamente. Enquanto Lima Duarte viveu um de seus melhores papéis (senão o melhor) na televisão.

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Realismo fantástico

Além de toda esta atrativa história, é preciso mencionar também o lado do realismo fantástico que esteve presente. A população temia o misterioso lobisomem e morria de curiosidade para descobrir sua verdadeira identidade. No final, ficou comprovado que o soturno professor Astromar era a criatura sinistra – embalada ao som inesquecível de ‘Mistérios da Meia Noite’, de Zé Ramalho. Também houve um divertida rivalidade na cidade após a chegada de Matilde (Yoná Magalhães) e suas meninas (Ninon – Cláudia Raia, em sua primeira novela, e Rosaly – Isis de Oliveira), que abriram a boate Sexus no local e precisaram enfrentar a fúria do padre Hipólito e das beatas lideradas por Dona Pombinha. Os embates entre as fogosas mulheres e as religiosas eram sempre ótimos.

A metalinguagem foi abordada na novela através do mulherengo personagem de Fábio Jr., o Roberto Mathias, que chega à cidade junto com uma equipe de cinema para filmar a saga do Roque Santeiro, onde ele vive o protagonista. O galã se envolve com várias mulheres, entre elas Lulu (Cássia Kiss) – esposa de Zé das Medalhas -, Marilda (Elizângela), Tânia (Lídia Brondi) – filha de Sinhozinho – e até mesmo Porcina. Aliás, Lulu era a menina que dizia ter visto Roque depois de morto, o que acabou mexendo com sua vida totalmente, incluindo um casamento indesejado, onde era reprimida pelo marido.

E claro que é impossível abordar esta clássica novela sem enfatizar o imenso sucesso que Sinhozinho Malta e Viúva Porcina fizeram. Lima Duarte e Regina Duarte tiveram uma química arrebatadora e os dois protagonizaram uma cena melhor que a outra, com destaque para as sequências que a espalhafatosa mulher obrigava o amante a se comportar como um cachorrinho adestrado. A música Dona, do Roupa Nova, explodiu e virou a marca do par. Ambos, aliás, tinham bordões que caíram no gosto popular. Ele balançava o relógio e as várias correntes que usava em seu punho, enquanto perguntava: – Tô certo ou tô errado?, e ela gritava – Minaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!! cada vez que queria falar com a empregada vivida pela ótima Ilva Niño.

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O casal fez tanto sucesso com o público que a viúva ficou com Sinhozinho no último capítulo, ao contrário do que estava previsto. A cena da mulher deixando Roque Santeiro ir embora da cidade, sozinho em um avião, para ficar ao lado do seu amado coronel, até hoje é lembrada e entrou para a história da teledramaturgia. Este desfecho, inclusive, foi claramente inspirado no filme Casablanca, de Michael Curtiz, um dos maiores clássicos do cinema. Lima e Regina viveram grandes momentos que os marcaram para sempre profissionalmente – não por acaso os atores até hoje citam este trabalho com muito carinho e os dois reviveram o par no especial dos 50 anos da Rede Globo. Além deste emblemático final, é preciso também citar o criativo desfecho do ambicioso Zé das Medalhas, que morreu soterrado por elas, e o fim de Mocinha, que enlouquece e fica perambulando pelas ruas vestida de noiva.

O elenco grandioso ainda contou com nomes como Patrícia Pillar (Linda) – assim como Cláudia, foi sua estreia na televisão -, Ewerton de Castro (Gérson), Othon Bastos (Ronaldo), Walter Breda (Francisco), João Carlos Barroso (Toninho), Tony Tornado (Rodésio), Cristina Galvão (Dondinha), Ângela Leal (Odete), Regina Dourado (Efigênia), Ângela Figueiredo (Selma), Lilian Lemmertz (Margarida), Luiz Magnelli (Decembrino), Dhu Moraes (Dona Maricota), entre outros.

Roque Santeiro foi um verdadeiro clássico da teledramaturgia e este imenso sucesso completa 35 anos em 2021. Com direção geral do saudoso Paulo Ubiratan, esta novela foi um marco, não só na vida dos atores, como também na dos telespectadores, que até hoje se lembram em detalhes da história tão bem escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Estas três décadas e meia de ‘vida’ merecem muita comemoração, implicando em uma boa dose de saudosismo. Afinal, é sempre prazeroso lembrar de uma produção tão significativa.

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