Dose dupla: Globo toma decisão que seria proibida há alguns anos

Emissora mostra que seu padrão de qualidade ficou no passado e toma decisão perigosa

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André Santana

Recentemente, uma “coincidência” entre as tramas de Terra e Paixão e Renascer causou um desconforto na Globo. Bruno Luperi, autor da próxima novela das nove, bateu o pé e a direção da emissora determinou mudanças na história de Walcyr Carrasco para cessar a crise.

Glória Pires em Mulheres de Areia
Glória Pires em Mulheres de Areia (Reprodução / Globo)

Porém, a “coincidência” se repete agora com as duas novelas que a Globo escolheu reprisar em suas tardes. Mulheres de Areia (1993), em Edição Especial, e Paraíso Tropical (2007), no Vale a Pena Ver de Novo, são duas tramas baseadas em conflitos envolvendo gêmeas – uma boa e uma má. Ruth e Raquel, de Gloria Pires, são as rivais das 14h40, enquanto Paula e Taís, de Alessandra Negrini, são as irmãs inimigas às 17h.

Trata-se de algo impensável até pouco tempo atrás na Globo. A emissora sempre tomou o cuidado de não repetir temáticas de novelas que estão no ar ao mesmo tempo. Ao que parece, é um cuidado que não existe mais.

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Gêmeas x gêmeas

Alessandra Negrini em Paraíso Tropical
Alessandra Negrini em Paraíso Tropical (Divulgação / Globo)

Mulheres de Areia é um clássico da teledramaturgia nacional. A rivalidade envolvendo irmãs gêmeas, que chegam a trocar de identidade num determinado momento da história, é irresistível e mexe com o imaginário do público.

Ao conceber Paraíso Tropical, o autor Gilberto Braga tinha isso em mente. Em entrevistas, ele admitiu que o conflito entre irmãos gêmeos era um clichê da teledramaturgia que ele nunca tinha usado e, por isso, quis experimentar na trama que assinou com Ricardo Linhares. O autor pensou num “novelão raiz” mesmo, tanto que pensou em batizar sua história de Folhetim.

A diferença entre Ruth e Raquel e Paula e Taís está no fato de as gêmeas de Alessandra Negrini desconhecerem a existência uma da outra. O encontro das irmãs dá a tônica dos primeiros capítulos de Paraíso Tropical e a rivalidade vai se intensificando no decorrer da obra.

Na trama do Vale a Pena Ver de Novo, Taís chega a ser dada como morta e Paula assume sua identidade, tal qual Mulheres de Areia. Depois, Taís retorna e também começa a fingir ser Paula. Mais clichê, impossível.

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Repetição inconsequente

Paraíso Tropical - Alessandra Negrini e Fabio Assunção
Alessandra Negrini e Fábio Assunção em Paraíso Tropical (divulgação/Globo)

Não há qualquer problema na semelhança entre Mulheres de Areia e Paraíso Tropical, já que tramas envolvendo gêmeos ou sósias fazem parte da teledramaturgia mundial desde sempre. Outras tramas, como Baila Comigo (1981), Cara & Coroa (1995) ou o clássico mexicano A Usurpadora (1998), também beberam desta fonte.

O que chama a atenção é o fato de a direção da Globo ter escolhido reprisar Paraíso Tropical justamente no mesmo período em que Mulheres de Areia também está sendo exibida. Poucas horas separam as histórias de Ruth e Paula na grade da emissora.

Exibindo Mulheres de Areia e Paraíso Tropical ao mesmo tempo, a Globo deixa evidente as semelhanças entre as duas histórias. É uma repetição que pode, inclusive, prejudicar a trama do Vale a Pena Ver de Novo, que não é um clássico do tamanho do enredo de Ivani Ribeiro. Espectadores podem apontar que a história de Gilberto Braga seria uma “cópia”.

 

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Mesmo problema

Cauã Reymond e Tony Ramos em Terra e Paixão
Cauã Reymond (Caio) e Tony Ramos (Antônio) em Terra e Paixão (Reprodução / Globo)

O que acontece agora com Mulheres de Areia e Paraíso Tropical é parecido com o que aconteceu com Terra e Paixão e Renascer. A Globo escalou o remake da história de Benedito Ruy Barbosa sem se atentar ao fato de a trama de Walcyr Carrasco ter um enredo bastante semelhante.

Em Renascer (1993), José Inocêncio (Antonio Fagundes) rejeitava o filho João Pedro (Marcos Palmeira) porque o culpava pela morte da mãe dele, que faleceu ao dar à luz. Já em Terra e Paixão, Antônio (Tony Ramos) rejeitava o filho Caio (Cauã Reymond) pelo mesmo motivo.

A semelhança entre as histórias teria gerado uma crise nos bastidores da Globo. Bruno Luperi, autor do remake de Renascer, chegou a pedir para adiar a estreia de sua novela para que ela não fosse ao ar logo depois de Terra e Paixão. A direção da Globo, então, pediu que Walcyr Carrasco mudasse sua história. Foi por isso que Agatha (Eliane Giardini) acabou sendo “ressuscitada” no atual folhetim das nove.

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Fim do padrão Globo

Walcyr Carrasco
Walcyr Carrrasco (Estevam Avellar / Globo)

As duas situações chamam a atenção porque deixam evidente que a Globo perdeu seu conhecido “padrão de qualidade”. Em outros tempos, a emissora jamais aprovaria uma novela parecida com a anterior para substituí-la. O canal também nunca reprisaria duas tramas semelhantes ao mesmo tempo.

No passado, diretores como Boni, Daniel Filho ou Mario Lucio Vaz tinham um olhar no todo da programação para analisar os textos que seriam produzidos. O cuidado era tanto que a emissora evitava até que nomes de personagens fossem repetidos nas novelas que estavam no ar.

Isso já não acontece mais. Tanto o caso envolvendo a novela de Walcyr Carrasco e Renascer, quanto o das reprises de Mulheres de Areia e Paraíso Tropical, mostram que a atual direção da Globo não tem mais uma visão geral da grade para definir suas produções. O “padrão Globo” sumiu de vez.

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