Custou caro: SBT inventa moda e vê novela ir parar no fundo do poço

Emissora insiste em fórmula e atira para todos os lados, fazendo produção fracassar em audiência

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André Santana

Parecia que o SBT havia encontrado uma mina de ouro ao mirar sua teledramaturgia para o público infantil. Os êxitos de Carrossel (2012), Chiquititas (2013), Cúmplices de um Resgate (2015), Carinha de Anjo (2016) e As Aventuras de Poliana (2018) sinalizaram que apostar no segmento era uma mina inesgotável, já que o público se renova de tempos em tempos.

A Infância de Romeu e Julieta - Bianca Rinaldi
Bianca Rinaldi como Vera em A Infância de Romeu e Julieta (Reprodução / SBT)

No entanto, o fracasso de A Infância de Romeu e Julieta mostra que fonte inesgotável de sucesso não existe. A emissora, na verdade, paga o preço por ter apostado em uma certa ousadia: a tentativa de ampliar o público-alvo do folhetim. O plano se revelou um grande fracasso.

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Declínio

A Infância de Romeu e Julieta - Miguel Ângelo e Vittória Seixas
Vittória Seixas e Miguel Ângelo, protagonistas de A Infância de Romeu e Julieta (Divulgação / SBT)

Na última sexta-feira (24), a novela A Infância de Romeu e Julieta bateu seu recorde negativo de audiência. O folhetim registrou minguados 3,3 pontos no Kantar Ibope Media na Grande São Paulo – o número só não foi pior que os 2,9 do dia 3 de novembro, dia em que houve um apagão na capital paulista.

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São números bem distantes dos excelentes 12 pontos de média alcançados por Carrossel, por exemplo. As demais tramas infantis do canal também registraram excelentes resultados, consolidando de vez o núcleo de teledramaturgia do canal de Silvio Santos.

Mas a coisa começou a ficar feia já na reta final de As Aventuras de Poliana, que, sem fôlego para se sustentar por longos dois anos no ar, viu sua audiência cair aos poucos. Mas nada tão grave quanto aconteceu com Poliana Moça (2022), que estreou num SBT já combalido pela pandemia e que derrubou os índices do horário nobre da emissora.

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Plano ousado do SBT

Íris Abravanel
Íris Abravanel (Reprodução / SBT)

Escrita por Íris Abravanel e sua equipe, A Infância de Romeu e Julieta é inspirada no clássico de William Shakespeare. Na trama do SBT, Romeu (Miguel Ângelo) e Julieta (Vittória Seixas) são dois pré-adolescentes que se apaixonam, mas precisam enfrentar a rivalidade de suas famílias.

Os pombinhos vivem em um bairro dividido entre Lado Vila, lar dos Campos, e Lado Torre, onde vivem os Monteiros. A rivalidade familiar passa pelos dois lados do bairro: os moradores de um lado não se dão bem com os habitantes do outro.

Pois foi este universo criado por Íris Abravanel que se revelou o maior erro de A Infância de Romeu e Julieta. Os núcleos Campos e Monteiro são formados por personagens adultos, como Mariana (Juliana Schalch), Vera (Bianca Rinaldi), Bernardo (Fábio Ventura) e Daniel (João Baldasserini). Trata-se de uma clara intenção de atrair, também, o espectador adulto. Mas não funcionou.

 

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Público-alvo equivocado

Carrossel - Jean Paulo Campos e Rosane Mulholland
Jean Paulo Campos e Rosane Mulholland em Carrossel (Divulgação / SBT)

Tramas como Carrossel ou Carinha de Anjo agradaram o público infantil porque contava histórias criadas para os pequenos. Os personagens adultos eram coadjuvantes nas histórias estreladas pelo elenco mirim. Não havia a intenção de atrair um público mais adulto, embora essas novelas tenham, sim, um apelo familiar.

Já em Romeu e Julieta, as tramas adultas têm tanto peso quanto o enredo infantil. E mais: há ainda um núcleo mais infantil, com personagens menores. E há ainda Romeu, Julieta e cia, com uma pegada mais teen. Ou seja, a novela atira para todos os lados. Mas acaba não agradando ninguém.

Sem foco, A Infância de Romeu e Julieta não é capaz de agradar às crianças. Os espectadores adultos também não são plenamente contemplados. Os adolescentes, então, nem se fala! A tendência é que os teens vejam a trama do SBT como “coisa de criança”. Em suma, a trama não consegue conversar com nenhum público.

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Tramas originais

Iris Abravanel e Silvio Santos
Íris Abravanel e Silvio Santos (Reprodução / Web)

Também cabe apontar que Íris Abravanel foi mais feliz ao adaptar tramas mexicanas e argentinas, que já eram obras testadas e aprovadas. Ao tentar partir para algo mais autoral, inspirada na literatura universal, a esposa de Silvio Santos não conseguiu criar histórias tão magnéticas quanto às estrangeiras.

Vale lembrar ainda que Íris e sua equipe são responsáveis pelos textos das novelas do SBT desde Carrossel. Ela só teve um descanso durante Carinha de Anjo, cuja adaptação foi assinada por Leonor Corrêa. É humanamente impossível um roteirista se manter no ar por tanto tempo com a mesma qualidade.

Ou seja, seria a hora do SBT voltar às origens e apostar em novelas infantis de fato, e não “novelas para a família”, como Romeu e Julieta. E seria bom lançar novos autores e dar férias à equipe de Íris Abravanel. Renovação é fundamental para resgatar o prestígio da teledramaturgia da emissora.

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