Por que muitas crianças entravam em pânico ao ver novela da Globo de 1995 - TV História

Por que muitas crianças entravam em pânico ao ver novela da Globo de 1995

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Além das desventuras do cigano Igor (Ricardo Macchi), Explode Coração, novela exibida pela Globo entre 1995 e 1996, ficou marcada por um merchandising social que deu muito certo: a busca por crianças desaparecidas. Mas a ação também teve um efeito colateral, causando pânico em muitos jovens.

Unindo ficção e realidade, a autora Gloria Perez incluiu na trama temas como a exploração do trabalho infantil e o desaparecimento de crianças. Ela divulgou as Mães da Cinelândia, como são conhecidas as mulheres que dedicam suas vidas à busca de filhos desaparecidos. Na novela, Odaísa (Isadora Ribeiro), procurava o filho Gugu (Luiz Claudio Júnior), sequestrado por bandidos que queriam vendê-lo a um casal de estrangeiros.

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A repercussão foi tremenda: diariamente passaram a ser mostradas fotos de crianças desaparecidas e mais de 70 foram encontradas. O tema passou a ser debatido por outros programas, jornais e revistas, dominando a mídia durante meses.

Mas reportagem da Folha de S.Paulo de 27 de abril de 1996 informou que a parte da novela onde as mães procuravam filhos desaparecidos estava causando pânico em diversas crianças.

“A novela está desenvolvendo um pânico. As crianças se sentem ameaçadas. É um fenômeno semelhante ao medo de morte que ocorreu depois do acidente dos Mamonas Assassinas”, disse a psicóloga Carmem Silva Taverna, se referindo ao acidente de avião que vitimou o famoso grupo musical naquele mesmo ano.

De acordo com o texto, Maria Marta Cavallieri, secretária da escola primária Algodão Doce, de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, contou que várias mães estavam com medo de deixar seus filhos irem a um passeio no zoológico. “Antes havia o medo de que as crianças se perdessem. Hoje, as mães temem o sequestro”, explicou.

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As crianças também opinaram. Graziela Almeida, então com 10 anos, disse que passou a pedir que sua mãe a buscasse na escola todos os dias. “Tenho medo que aconteça comigo o mesmo que aparece na TV”, informou.

Ana Carolina Pires, então com oito anos, não quis mais ir a uma excursão ao Museu do Ipiranga. “Ela sempre chora na parte do Gugu e não quer nem ver quando as mães aparecem no final”, afirmou sua mãe, Maria Conceição Pires.

Noélia Corbs, avó de Nayana, então com cinco anos, foi obrigada a falar para a neta que os casos da novela eram fictícios. “Até eu fico impressionada”, ponderou.

Mas a psicóloga Célia Regina Rocha, que afirmou ter atendido várias crianças com medo do tema, disse que a novela não trazia prejuízo aos pequenos e que a campanha era muito válida. “É preciso haver outra coisa que justifique a mudança de comportamento”, explicou.

Sucesso

O êxito da campanha é inquestionável. A direção da Globo, empolgada com os resultados – e os índices de audiência – esticou a trama, que estava passando dos 60 pontos de média, em 15 capítulos.

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Em balanço perto do final da novela publicado no Jornal do Brasil de 27 de abril de 1996, Gloria Perez celebrava o sucesso da ação e esperava que o assunto não fosse esquecido.

“Os jornalistas sublinham, especialmente, o aspecto de se poder usar uma novela como serviço de utilidade pública, sem comprometê-la na ficção. Tanto em Portugal quanto em outros países onde a novela vai ser exibida, eles poderão obter o mesmo resultado. Afinal, o problema de crianças desaparecidas é mundial”, explicou. “Esse tipo de ajuda deve ser mantida para propiciar finais felizes para essas histórias”, completou.

Uma reportagem da Folha de S.Paulo de 26 de abril de 1996 mostrou que 26 das 70 crianças desaparecidas que a novela ajudou a localizar saíram de casa por conta própria, escolhendo viver nas ruas porque apanhavam dos pais ou parentes. Apenas cinco tinham sido realmente sequestrados.

“Casos que dependem da investigação policial não chegam a ser resolvidos, senão em número muito pequeno. Seria bom que outros estados fizessem como o Rio e criassem uma secretaria especial”, concluiu a autora ao JB.



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