Mesmo criticado, coringa da Globo finalizava mais um sucesso há dois anos - TV História

Mesmo criticado, coringa da Globo finalizava mais um sucesso há dois anos

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A Globo não esqueceu o trauma de O Sétimo Guardião. O fracasso de Aguinaldo Silva entrou para a lista de piores audiências da história do horário nobre e ainda enfrentou uma sucessão de escândalos nos bastidores, como processo exigindo a coautoria de alunos do autor e traição de José Loreto com uma das atrizes do elenco. Para culminar, a novela foi um fiasco de vendas internacionais.

Para reerguer a audiência, então, a emissora mais uma vez apelou para seu coringa, Walcyr Carrasco, e adiou a estreia da novata Manuela Dias, Amor de Mãe. A decisão se mostrou acertada. O autor salvou a faixa com A Dona do Pedaço, que fechava seu ciclo há dois anos, em 22 de novembro de 2019.

Walcyr nunca escondeu em entrevistas que criou a novela em apenas duas semanas. E a honesta explicação expõe a convocação de última hora da Globo para melhorar os índices do horário. O objetivo foi plenamente alcançado.

A trama teve 36 pontos de média geral, elevando em sete pontos do pífio resultado da anterior (29 pontos). E o sucesso também refletiu na repercussão e nas vendas do produto. Embora parte da crítica, como sempre, tenha detestado o texto simplista do autor e o tom popularesco da produção, o conjunto da obra agradou bastante. Incluindo vários atores do elenco, felizes com o burburinho gerado pelos personagens.

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Recorde de merchans

A história protagonizada por Maria da Paz (Juliana Paes) caiu na boca do povo e várias empresas aproveitaram parar surfar no êxito de A Dona do Pedaço. A digital influencer Vivi Guedes (Paolla Oliveira) fez inúmeros ‘merchans’, mas outros personagens também anunciaram bastante e até marca de farinha se inspirou nos bolos da Maria.

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Não é exagero constatar que foi a novela com a maior quantidade de marcas já exibida até então. Aliás, o modelo “transmídia” acabou bem explorado. Isso porque Vivi saiu da ficção para o mundo real quando virou garota propaganda da Fiat e Maria da Paz entregou um bolo para Juliana Paes em uma ação do iFood. Situações inimagináveis em outros tempos.

E o sucesso não foi por acaso. A capacidade que Walcyr tem para conquistar o telespectador novamente foi exposta. O escritor sabe criar tipos populares e um enredo repleto de reviravoltas, algumas delas mirabolantes ou absurdas, que promovem grandes catarses que lavam a alma de quem assiste e explodem em audiência.

Em A Dona do Pedaço conseguiu mesclar a violência da guerra entre as famílias Ramirez e Matheus, claramente inspirada em Romeu & Julieta, com temáticas sobre a obsessão pelo mundo dos influenciadores digitais, amor na terceira idade, perseverança da mulher trabalhadora, hipocrisia de religiosos e relacionamentos abusivos. Um combo que movimentou a novela ao longo dos meses e evitou o período da tradicional ‘barriga’ (enrolação). Até reality culinário, o Best Cake, apresentado por Angélica, o autor criou.

Primeira fase foi sombria e pesada

A primeira fase foi sombria e pesada. Todo dia havia uma leva de assassinatos. O risco de afastar parte do público existia, mas não aconteceu. E Fernanda Montenegro brilhou absoluta na pele da sanguinária Dulce, uma avó que ensinava a neta a fazer bolos deliciosos e também matava qualquer inimigo que atravessava seu caminho. A cena em que a matriarca dos Ramirez atirou em Amadeu (Marcos Palmeira) na hora que o rapaz se casava com sua neta promoveu a primeira reviravolta do enredo.

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Mas o melhor viria depois, quando Dulce achou que a família rival tinha matado uma de suas bisnetas. A aparente frágil velhinha matou três inimigos e ainda incendiou a fazenda. Uma sequência irretocável. Era a primeira mostra da valorização dos veteranos na história. Luiz Carlos Vasconcelos, Jussara Freire, Maeve Jinkings, Cesar Ferrario e Genésio de Barros foram outros destaques.

A segunda fase migrou para uma trama mais solar, mesmo diante dos vários obstáculos enfrentados pela protagonista. E não foram poucos. Maria da Paz foi jurada de morte no Espírito Santo, veio para São Paulo com o intuito de recomeçar a vida, conseguiu o amparo da amiga Marlene (Suely Franco), começou a vender seus bolos na rua e aos poucos foi ganhando seu dinheiro até montar um império de bolos.

Uma saga que conquistou o telespectador graças ao carisma de Juliana Paes e, claro, ao papel criado pelo autor. A grande antagonista da protagonista era sua filha, a ambiciosa Josiane, vivida pela ótima Agatha Moreira. E a boleira nunca precisou de par romântico, mesmo com a paixão por Amadeu. Maria quase não viveu momentos de romance.

O grande atrativo era sua capacidade de dar a volta por cima, além de seus embates com a herdeira, depois que a verdadeira face da patricinha veio à tona. Tanto que a surra que a mãe deu em Jo proporcionou o primeiro recorde de audiência da novela. Uma heroína que teve torcida de sobra. A própria atriz reconhece que Maria foi a sua personagem mais popular da carreira.

Agatha Moreira se destacou

Agatha Moreira viveu o momento de maior repercussão de sua trajetória na televisão, iniciada em 2012, na Malhação – Intensa. Josiane foi a grande vilã da história e protagonizou várias cenas pesadas. A atriz deu conta do recado e se destacou ao lado de Juliana Paes, Rosane Gofman (Ellen) e Reynaldo Gianecchini (Régis). Um dos melhores momentos da intérprete da mau-caráter foi o quase assassinato de Teo (Rainer Cadete). De tirar o fôlego.

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Mas outro acerto do autor foi a rivalidade com Fabiana, vivida pela ótima Nathalia Dill, também em estado de graça na novela. A falsa noviça transbordava ironias e o bordão “Eu fui criada em um convento” virou uma marca. O contexto em torno do parentesco com Vivi Guedes acabou em segundo plano justamente em virtude do êxito da saga de golpes da personagem, incluindo a ruína de Jo. Um dos prazeres de qualquer telespectador é ver um embate entre vilãs. E não faltou com essa dupla. O deboche constante da ex-freira usando o nome de Deus em vão permeava as discussões com um delicioso tempero.

Aliás, A Dona do Pedaço apresentou uma boa quantidade de vilões e Agno foi outro tipo que se destacou. Malvino Salvador ganhou seu melhor papel do autor e o empresário irônico cresceu ao longo do enredo. Agno era seguro com sua sexualidade, conseguiu dar um golpe na então esposa Lyris (Débora Evelyn, muito bem) na hora do divórcio, não se abalou quando sua homossexualidade foi descoberta e se declarava sem receio para o boxeador Rock (Caio Castro).

Seu processo de regeneração também merece menção, pois se mostrou crível e desenvolvida de forma competente. Após muitos foras do melhor amigo, personagem se viu surpreso com o interesse de Leandro (Guilherme Leicam), um ex-matador que transbordava gentileza. Aos poucos foi cedendo aos encantos do rapaz e iniciaram um relacionamento. O conflito com a filha Cássia (Mel Maia), que não aceitava a relação, destacou Malvino e movimentou o núcleo, que ainda contava com a grande Nathalia Timberg como Gladys, mãe de Lyris. Os embates entre Agno e Fabiana também eram ótimos.

A trama envolvendo o triângulo amoroso da terceira idade valorizou o talento de Suely Franco, Ary Fontoura e Nivea Maria. Marlene e Antero sempre foram apaixonados e as cenas românticas no início da novela eram delicadas e engraçadas. Mas o advogado perdeu a memória após um quase AVC e voltou a si achando que era apaixonado por Evelina, que se aproveitou da situação. Marlene, inclusive, já é um dos melhores papéis de Suely, que já trabalhou com Walcyr em várias novelas – Dona Mimosa, de O Cravo e a Rosa (2001), é uma dos mais lembradas.

A melhor amiga de Maria da Paz se mostrou mais mãe da protagonista do que Evelina. Vale destacar ainda, em se tratando de elenco veterano, o crescimento de Cornélia na trama através do enriquecimento da sem-teto, destacando Betty Faria, e a entrada da grande Ana Lucia Torre como Berta, governanta que vigiava Vivi Guedes.

O drama inserido no núcleo de Vivi Guedes proporcionou cenas mais pesadas para Paolla expor sua boa atuação. Camilo sempre foi um policial machista que tentava controlar as roupas da namorada, mas se tornou um homem violento e obsessivo assim que descobriu o caso da digital influencer com Chiclete (Sérgio Guizé). E o contexto serviu para sobressair Lee Taylor, que deu conta do recado e provocou asco do público.

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Por sinal, o romance de Vivi com Chiclete fez um imenso sucesso e a química entre Paolla e Guizé era clara. A inserção do relacionamento abusivo da mulher com o ex teve como objetivo adiar o final feliz do casal “Viclete”, utilizando o passado de assassino de aluguel do personagem contra ele. E o autor ousou ao contar a história de um assassino que se apaixona por sua vítima. Guardadas as devidas proporções, a situação utilizou um pouco a fórmula do filme Sr. e Sra. Smith (2005).

A trajetória de Rock foi mais um ponto positivo do folhetim e Caio Castro viveu uma boa fase. O personagem virou uma espécie de “herói” em virtude de seu bom caráter e das inúmeras tentativas de ajudar Maria da Paz. Sua química com Nathalia Dill também agradou e as investigações do lutador para desmascarar Josiane movimentaram a história. A parceria do ator com Malvino Salvador funcionou e a amizade do rapaz ajudou a regenerar Agno.

A entrada da talentosa Bruna Hamu no capítulo 100 serviu para recompensar Rock com um amor verdadeiro, uma vez que a dúvida sobre a menina ser a filha verdadeira de Maria acabou desfeita na penúltima semana. E o casal agradou. É preciso citar ainda a chegada da maravilhosa Laura Cardoso como Matilde, avó de Joana. Caio protagonizou uma das cenas mais sensíveis da trama com a veterana, quando o boxeador a tirou do asilo e a levou para casa.

Monica Iozzi deu show

A sarcástica Kim marcou a estreia de Monica Iozzi no horário nobre na melhor forma possível. Assessora de Vivi Guedes, a personagem tinha a missão de enaltecer a chefe e amiga. Também ficou com o trabalho de transformar Jo em Digital Influencer, mas não conseguiu. Bem resolvida na vida amorosa e sexual, Kim usou Márcio (Anderson Di Rizzi) e Paixão (Duda Nagle) como bem entendeu e no final descartou os dois.

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“Nem piranha e nem safada. Só fiz o que todo homem faz e vocês acham normal. Sou uma mulher livre e eu escolho”, declarou. Monica deu um show e virou um dos destaques da história. O seu texto era sempre inspirado. Impossível deixar de mencionar outra personagem que caiu nas graças do telespectador: Britney. Glamour Garcia ganhou a primeira oportunidade na televisão e não fez feio. O menino da primeira fase que virou uma linda mulher na segunda protagonizou boas sequências e o casal com Abel (Pedro Carvalho) deu certo, assim como as brigas com Fabiana para defender sua transexualidade.

O romance de Zé Hélio e Beatriz foi uma grata surpresa no enredo e destacou a sintonia entre o estreante Bruno Bevan e Natália do Vale. A questão da diferença de idade teve uma boa abordagem e a música tema do par fez toda diferença: “Só Você e Eu”, de Vanessa da Mata. Os enfrentamentos que Beatriz tinha com sua mãe, a preconceituosa Linda (Rosamaria Murtinho), e o ex-marido, o machista Otávio (José de Abreu), promoveram outras cenas atrativas no núcleo e a relação afetuosa entre a personagem e Vivi Guedes era bonita de se ver.

Novela também teve equívocos

Porém, claro, A Dona do Pedaço teve equívocos que precisam ser citados. O núcleo da família dos sem-teto tinha um grande destaque até a metade da história, mas foi perdendo a função e só Cornélia cresceu. Marco Nanini não conseguiu bons momentos como Eusébio e a trama da “Mão boba” na reta final não teve a menor necessidade. Rosi Campos e Tonico Pereira convenceram como Doroteia e Chico, mas também não tiveram muito destaque.

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O núcleo de Amadeu sempre esteve deslocado e se desaparecesse não faria falta. Tanto que a morte da esposa, Gilda (Heloísa Jorge), não provocou impacto e a relação do mocinho com o filho, Carlito (João Gabriel D`Aleluia), não tinha relevância. A única exceção era Silvia, vivida pela talentosa Lucy Ramos, que ganhou trama própria como professora e depois Digital Influencer – ainda assim, o surgimento de Abdias (Felipe Titto) foi gratuito, vide seu drama raso do alcoolismo. A história dos adolescentes na escola por causa de Cássia foi outra questão que ficou avulsa na novela – os surtos de Merlim (Cadu Libonati) cansaram rapidamente.

Algumas situações também abusaram da inteligência do público, como Fabiana aconselhando os gerentes do banco de Maria da Paz para cobrar a dívida da boleira, ou o festival de transferências bancárias milionárias através de celulares, sem qualquer interferência do banco. A cena do assassinato do garoto de programa foi a mais constrangedora da trama e a direção da equipe de Amora Mautner ficou devendo muito. O efeito tosco da queda do prédio virou piada com razão. E o contexto também não convenceu, uma vez que o rapaz quis levar a mulher que matou seu namorado para um lugar sem testemunha ou câmeras.

Ao menos houve uma compensação no quase assassinato de Téo, muito bem realizada. Aliás, a estupidez do personagem cansou o telespectador. Rainer foi bem, mas a cegueira do fotógrafo diante de Josiane não deu para engolir. Ao contrário do que ocorreu com Maria da Paz, pois uma mãe acreditar na índole da filha por amor, mesmo diante de tantas evidências contrárias, é bem mais crível. E, ao contrário do que parte da crítica afirma, o ódio de Jo pela mãe passou longe de ser uma falha. Menina rica e bem criada não pode ter falha de caráter? Não pode odiar a mãe “sem motivo”? Pode. E a vida real está aí para mostrar isso todos os dias em telejornais.

Final sem correria

A última semana da novela serviu para fechar os núcleos sem correria e expor uma aparente redenção de Josiane através da religião na cadeia. Qualquer semelhança com Suzane Von Richtofen, a patricinha que mandou matar os pais e virou evangélica na prisão, não é mera coincidência. Agatha Moreira novamente brilhou nas cenas e não teve como saber se era real ou puro fingimento.

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Os desdobramentos em torno da relação nociva de Vivi e Camilo também foram expostos para o clímax do último capítulo, enquanto outros personagens se destacaram com seus finais felizes, vide Marlene e Antero. O advogado finalmente lembrou de sua amada no dia do casamento com Evelina e a sintonia entre Suely Franco e Ary Fontoura emocionou. O desfecho de Kim, agenciando a carreira digital de astros internacionais como Lady Gaga e Justin Timberlake, também agradou. Já a cena de Maria da Paz recuperando sua fábrica e sendo aclamada pelos funcionários foi sensacional.

O último capítulo teve um festival de desfechos ousados, além dos tradicionais clichês, claro. Maria da Paz e Amadeu finalmente se casaram sem maiores entreveros e Kim ficou com Teo curtindo Los Angeles. Chiclete salvou Vivi de Camilo e o matou em legítima defesa. Uma sequência de ação primorosa e com show de Sérgio Guizé, Paolla Oliveira e Lee Taylor.

O final feliz do casal “Viclete” também aconteceu em cenas bonitas do par na praia. Já o final de Fabiana foi o mais criativo e surpreendente: a ex-noviça virou matadora ao lado de Rael (Rafael Queiroz), honrando a assassina bisavó Dulce. Ainda rezando pelas almas que matava porque foi criada em um convento. Simplesmente genial e Nathalia Dill perfeita.

Mas o aguardado desfecho de Josiane fechou a novela da melhor forma possível. Aparentemente convertida, a vilã conseguiu enganar todos novamente e a cena da personagem matando Régis, o jogando de um viaduto, impactou. E o desfecho, com Jo bajulando o pastor milionário para matá-lo e roubá-lo no futuro, foi incrivelmente real no mundo de hoje. A participação de Mateus Solano foi pequena, porém, marcante. O congelamento final com Josiane olhando para a câmera com uma expressão maquiavélica e os olhos totalmente negros, como o próprio Satanás, surpreendeu o público e ficará marcado pela ousadia do autor.

A Dona do Pedaço cumpriu sua missão com louvor. Walcyr Carrasco emplacou mais um sucesso para chamar de seu e conquistou o público com uma história popular, simples, repleta de personagens carismáticos e meramente escapista. A novela caiu na boca do povo, foi um fenômeno de publicidade, explodiu em audiência e repercussão nas redes sociais, e destacou vários atores ao longo dos meses. A prova incontestável é a memória afetiva que a música “Cheia de Manias” (do Raça Negra) despertará nas pessoas. Todo mundo que ouve “Di di di diê” se lembra de Maria da Paz e seus deliciosos bolos. Valeu muito a pena!

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