Constrangedor: Record transformou final de Amor sem Igual em culto da Universal - TV História

Constrangedor: Record transformou final de Amor sem Igual em culto da Universal

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A novela de Cristianne Fridman foi a primeira que voltou ao ar em plena pandemia do novo coronavírus. A Record concluiu as gravações dos capítulos restantes de Amor sem Igual durante a retomada dos trabalhos (entre agosto e setembro), ocorrida também na Globo. E a continuação da trama inédita estreou no dia 28 de outubro. A produção teve seu início em dezembro de 2019 e teve 93 capítulos exibidos antes da paralisação. Após pouco mais de um ano, o folhetim chegou ao fim nesta segunda-feira (18/01) com um saldo positivo.

A autora conseguiu construir uma história repleta de irresistíveis de clichês e soube desenvolver a trama com competência, driblando bem os percalços da pandemia. Tanto que ficou difícil saber quais foram as cenas gravadas antes ou depois do coronavírus após o retorno da novela. A escolha da talentosa Day Mesquista para interpretar a carismática protagonista, a prostituta Angélica/Poderosa, também foi essencial para o êxito do enredo e sua química com Rafael Sardão, intérprete do mocinho Miguel, funcionou desde a primeira cena.

A premissa do enredo foi ousada para uma emissora evangélica como a Record. Fridman teve coragem quando colocou uma garota de programa como mocinha. A inspiração foi o clássico filme Uma Linda Mulher, de 1990. Mas ao invés de se apaixonar por um rico empresário, a garota de programa se encanta por um agrônomo que vende legumes cultivados em seu sítio no Mercado Municipal de SP, o retraído Miguel.

Os dois se cruzam, pela primeira vez, em um posto de gasolina à beira da estrada, e se aproximam quando o gerente da lanchonete que fica no local a destrata. O vínculo é criado quando o rapaz a salva de uma tentativa de assassinato, a mando do vilão Tobias (Thiago Rodrigues), irmão que não queria dividir a herança com a bastarda.

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História simples, mas que prendia o telespectador

A novela teve uma história simples, mas a autora conseguiu prender a atenção com conflitos interessantes e uma boa dose de agilidade. Outros personagens também se destacaram, como Furacão (Dani Moreno), melhor amiga e colega de profissão de Angélica. O divertido feirante Oxente (Ernane Morais), que trabalhava no Mercado Municipal ao lado de Miguel e o tinha como filho, foi mais um tipo que sobressaiu. Bárbara França convenceu como Fernanda, irmã íntegra de Tobias, e a ótima Selma Egrei interpretou muito bem a elegante Norma, sogra de Ramiro que nunca perdoou a traição do genro com a filha já falecida.

Michelle Batista viveu a ingênua Maria Antônia, filha de Oxente, e virou um dos trunfos do enredo quando a personagem acabou estuprada por Leandro (Gabriel Gracindo). A atriz emocionou e seu núcleo ganhou importância. Sua sintonia com José Victor Pires, intérprete do ingênuo Hugo, também agradou, assim como os momentos de embate com o pai, Oxente, a mãe, Zenaide (Andrea Avancini), e seus irmãos —– Pedro Antônio (Guilherme Dellorto), Antônio Júnior (Guilherme Coelho) e José Antônio (César Cardadeiro).

Vale destacar o bom desempenho de Juan Alba na pele do todo poderoso Ramiro Viana, pai da protagonista, e centro de quase todos os conflitos. Outro acerto da produção foi o destaque dos atores veteranos, como a ótima Françoise Forton na pele da cafetina Olympia, a já citada Selma Egrei, Paulo Figueiredo (Geovani), Iara Jamra (Yara) e Beth Zalchman, que se destacou na pele da ladra Carmem. Alguns outros nomes que merecem menção são Malu Falangola (ótima como Ioná); Juliana Lohmann (cresceu como Cindy); e Heitor Martinez, mais uma vez muito bem na pele de um vilão, o assassino Bernardo.

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Mas nem tudo foram flores

Porém, nem tudo foram flores. A direção de Rudi Lagemann deixou a desejar em vários momentos importantes. As várias cenas de tensão ou ação tiveram um resultado abaixo da média no ar. Parecia algo amador. Muitos embates ou assassinatos (como a aguardada morte de Bernardo, por exemplo) se mostraram constrangedores. Outro grave erro da novela foi a abordagem da prostituição. Nunca na história da teledramaturgia as garotas de programa estavam tão vestidas quanto em Amor sem Igual. Até casaco de manga longa usavam e dançavam pole-dance de calça comprida. Claro que neste caso a culpa é do conservadorismo da Record e não da autora ou direção. Mas as cenas ficavam artificiais sempre que o ambiente da prostituição era mostrado, vide o elegante bordel de Olympia.

Já Thiago Rodrigues não convenceu como vilão e Tobias, por sua importância no enredo, merecia um ator mais experiente. O núcleo dos italianos e dos orientais era uma caricatura rasteira, tanto nos figurinos quanto nos sotaques exagerados dos atores. Um desperdício de talento de Carlos Takeshi (Takashi), Eduardo Lago (Luiggi) e Kika Kalache (Serena). A parte dos jogadores de futebol também em nada acrescentou.

Outra questão desnecessária foi todo o conflito em torno do roubo do rim de Peppe (Matheus Costa). Ramiro necessitava de um transplante para sobreviver e armou um sequestro para roubar o órgão do garoto. Nem em novela mexicana cabia tamanho exagero. E ainda no quesito exagero é preciso citar o texto repetitivo de Miguel. O mocinho tinha tudo para ser um perfil interessante, mas passou quase todo o tempo falando em Deus e na Bíblia. Sua missão era ‘converter’ Poderosa. É de conhecimento geral que Cristiane Macedo, filha do bispo Edir Macedo, interfere em todos os folhetins da emissora do pai há alguns anos e por isso muitos autores deixaram a Record. Com certeza, o perfil do mocinho era conduzido por ela. Uma pena.

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Interferência da filha do bispo atrapalhou

E na última semana a interferência da filha do bispo ficou ainda mais notória, o que destruiu a reta final do folhetim. Impressionou como quase todos foram ‘convertidos’ em figuras santificadas. Poderosa só ficou com Miguel quando ‘aceitou Jesus e leu a Bíblia’. Clipes com uma música de louvor tomaram conta de vários capítulos e o telespectador mais esquecido pensava que assistia ao horário comprado pela Igreja Universal, que domina as programações de Record, Rede TV! e Band.

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Até o grande vilão Tobias virou um santo na cadeia. Após ter mandado assassinar a irmã, ter ordenado o estupro de uma menor de idade e ainda matado o próprio pai, o psicopata encontrou Deus na prisão e se arrependeu de tudo. Um final constrangedor e que debochou da inteligência do público. Para culminar, a emissora colocou um QR Code bem no canto da tela em todas as cenas de conversão que direcionava para o site do Templo de Salomão, um dos patrimônios de Edir Macedo construído para atrair fiéis. Praticamente uma propaganda disfarçada. Uma vergonha.

Amor sem Igual foi uma novela agradável e Cristianne Fridman conseguiu criar uma história ainda melhor que Topíssima, seu também elogiado folhetim anterior. Ainda teve a sorte de colocar sua história no ar em um momento onde todas as novelas eram reprises, o que transformou em um chamariz extra para a reta final. Não por acaso, quase todos os capítulos da retomada marcaram acima de dez pontos. Índice satisfatório para os padrões da Record. A grande decepção ficou por conta da reta final de doutrinação religiosa. Uma pena.



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