Com personagens de várias novelas, Ti-Ti-Ti celebrou a teledramaturgia brasileira - TV História

Com personagens de várias novelas, Ti-Ti-Ti celebrou a teledramaturgia brasileira

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Celebração à teledramaturgia, Ti-ti-ti foi “feita por e para quem gosta de novela”, disseram os autores

Em Ti-ti-ti (estreia dessa segunda-feira, 29, no Vale a Pena Ver de Novo), a autora Maria Adelaide Amaral fez uma verdadeira antologia da Telenovela Brasileira, com citações a várias obras, não só de Cassiano Gabus Mendes (pai da novela original), como também de outros autores.

Já sabendo dos conhecimentos de Vincent Villari (então um dos colaboradores de Maria Adelaide, mas não ainda titular com ela) sobre a história de nossa Teledramaturgia, os questionei sobre o processo de incluir na novela as referências a outras obras, o que, ao meu ver, mexeu com a memória afetiva do público e deixou Ti-ti-ti ainda mais divertida.

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Maria Adelaide e Vincent responderam:

Ti-ti-ti 2010 foi construída a partir das tramas originais de Ti-ti-ti 1985 e de Plumas e Paetês. Logo na sinopse, percebemos como as duas tramas, ambientadas no mundo da moda, pareciam complementares, como as obras do Cassiano conversavam entre si, como as tramas fluíam e se incorporavam ao se entrecruzar.

Foi quando, ainda no início da novela, ao precisar de um detetive para uma das tramas de comédia, pensamos: ‘E se colocarmos aqui o Mário Fofoca?‘. Imediatamente Adelaide e eu começamos a rir imaginando as cenas, e fomos perguntar se o Tatá (Luis Gustavo) estava disponível. Ele estava e o Mário Fofoca, que seria uma participação de cinco capítulos, ficou até o final da história.

Como o Tatá havia interpretado o Victor Valentim na primeira versão (de Ti-ti-ti), conseguimos também criar uma situação em que ele revivia o Valentim, e foi um capítulo inesquecível. A brincadeira foi ficando tão saborosa que começamos naturalmente a passear pela obra do Cassiano.

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De Locomotivas, fizemos um videoclipe das modelos se preparando para um desfile baseado naquela incrível abertura, ao som da música-tema ‘Maria-fumaça’, e trouxemos a Kiki Blanche (Eva Todor) dando notícias dos demais personagens da novela a Jaqueline (Cláudia Raia). Foi uma única aparição, mas o Julinho (André Arteche), que era cabeleireiro, foi trabalhar em seu salão e sempre dizia que estava indo ‘ao salão da dona Kiki’.

O público se divertia muito com essas referências, e esse feedback foi nos estimulando a novas brincadeiras, como fazer o Ari (Murilo Benício) chamar a Suzana (Malu Mader) de ‘fera radical‘, numa alusão à novela que a Malu havia protagonizado em 1988; ou chamando a Jaqueline de “engraçadinha“, numa referência à minissérie protagonizada pela Cláudia Raia; etc.

O fato é que Ti-ti-ti foi se tornando uma homenagem à obra do Cassiano (foto abaixo) e terminou como uma grande celebração à nossa Teledramaturgia, num caso até então único. O cinema é pródigo em auto-homenagens – toda a obra do Tarantino, por exemplo, é baseada nos filmes que ele viu quando jovem e amou. A Teledramaturgia, no entanto, jamais se refere a si mesma – basta notar como personagem de novela muito raramente vê novela.

Então, quando o público de Ti-ti-ti, que afinal é público de novela, viu ali referências de outras novelas vistas e amadas, isso gerou uma repercussão muito positiva. Era novela feita por e para quem gosta de novela, feita com muito carinho e dedicação por parte de todos os envolvidos.

E temos certeza de que o público sentiu no ar essa energia boa, essa vibração de amor, comunhão, gratidão e respeito com os que vieram antes de nós e pavimentaram o caminho que nós então trilhamos e ao qual acrescentamos o nosso tijolinho. E vai ser muito bom sentir novamente essa onda de amor e alegria no ar num momento em que precisamos disso como nunca”.

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Além das referências citadas acima, cito outras levadas ao ar dentro de Ti-ti-ti:

– Quando Jaqueline (Claudia Raia) e Suzana (Malu Mader) cantaram o tema de abertura de Fera Radical, foram flagradas por Ari (Murilo Benício), que disse que elas pareciam a dupla Faísca e Espoleta – alusão à dupla sertaneja que Cláudia Raia formou com Patrícia Pillar em A Favorita, novela na qual o próprio Murilo participou.

– Quando conheceu Jacques Leclair (Alexandre Borges), Jaqueline perguntou se ele era o costureiro da Viúva Porcina (personagem espalhafatosa de Regina Duarte em Roque Santeiro), devido ao seu estilo exagerado.

– Jaqueline censurando a empregada: “Olha a empregada querendo ter fala. Isso aqui não é novela do Manoel Carlos, não!”.

– A dupla Jaqueline e Massa (Marcos Frota) remeteu ao par romântico de sucesso que os atores viveram em Sassaricando: Tancinha e Beto.

– Quando Suzana (Malu Mader) conheceu Walquíria (Juliana Paiva), disparou “Eu já fui você um dia!”, referindo-se à mesma personagem que Malu interpretou na versão original de Ti-ti-ti.

– Perguntado por que falava espanhol tão bem, Mário Fofoca (Luis Gustavo) soltou: “É porque eu sou amigo do Tatá, o Luis Gustavo, um ator que interpretou um personagem espanhol!” (Victor Valentim na versão original de Ti-ti-ti).

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Murilo Benício também se autocitou: Ari comentou que ele e Victor Valentim eram como os personagens de O Clone, interpretados por Benício. Ari também citou o Tenente Wilson, personagem que Benício viveu no seriado Força Tarefa, no ano anterior.

– Ao ver um croqui desenhado pelo personagem Rony Pear, Ari comentou: “Que desenho horrível! Parece feito por aquele macaco da novela Caras e Bocas!”. O macaco em questão foi vivido por Otávio Reis, o intérprete de Rony Pear.

– Adriano (Rafael Zulu) reclamando das investidas de Thaísa (Fernanda Souza): “Lá vem essa chiquitita taradita!”, referindo-se à novela do SBT na qual Fernanda atuou nos anos 1990.

– A novela Meu Bem Meu Mal foi lembrada quando surgiu a “divina” Magda, personagem vivida por Vera Zimermann. Clotilde (Juliana Alves) contou que Magda herdou a Venturini Designers de Porfírio (Guilherme Karan), já falecido, que, por sua vez, havia herdado a empresa de Dom Lázaro Venturini (Lima Duarte), quando este morreu engasgado com um melão – em uma alusão à célebre cena de Meu Bem Meu Mal em que Dom Lázaro volta a falar e pede melão para a enfermeira.

– Em uma das últimas cenas da Irmã Tormento (Débora Olivieri), a freira se transformou em uma cigana, Esmeralda – referência à novela Alma Cigana, dos anos 1960, em que Ana Rosa vivia duas personagens, uma freira e uma cigana, chamada Esmeralda, idêntica à religiosa.

– No último capítulo, Suzana (Malu Mader) conheceu um autor de novelas chamado Fernando Flores (Fábio Assunção, em uma participação). Ele contou que estava se preparando para escrever um remake de Fera Radical, novela que Malu atuou. Fernando Flores era o nome do par romântico de Malu na novela, vivido na ocasião por José Mayer. Fernando (Fábio Assunção) também citou sua filha, Yara Flores – desta vez, alusão à atriz Yara Amaral, que viveu a mãe de Fernando em Fera Radical, com quem Malu teve várias cenas.

AQUI tem tudo sobre Ti-ti-ti: trama, elenco, personagens, trilha sonora e muitas curiosidades de bastidores.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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