Com final provocador, novela da Globo terminava há 10 anos batendo recorde no Ibope - TV História

Com final provocador, novela da Globo terminava há 10 anos batendo recorde no Ibope

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Há exatamente 10 anos, no dia 14 de janeiro de 2011, terminava Passione, até agora a última novela de Silvio de Abreu na faixa das nove. A novela tinha como principal qualidade seu esplendoroso elenco, que apresentava grandes nomes do teatro e da televisão com personagens de destaque. A trama, dirigida por Denise Saraceni, substituiu a criticada e fracassada Viver a Vida, de Manoel Carlos, e presenteou o publico com uma excelente história, contada ao longo de 209 capítulos.

Com o núcleo principal encabeçado por ninguém menos que Fernanda Montenegro, a novela apresentou vários núcleos, onde todos eram intercalados e repleto de dramas fortes. A empresária Bete Gouveia (Fernandona) começou a história já sabendo que seu filho não havia morrido, iniciando uma saga em busca do ente querido. E, a partir desta revelação, a grande vilã Clara Medeiros (Mariana Ximenes) arquitetou um plano, com a ajuda de seu parceiro e amante Fred (Reynaldo Gianecchini), para encontrar este rapaz antes da milionária e se casar com ele, com o objetivo de herdar automaticamente toda a fortuna da Família Gouveia.

E o filho de Bete Gouveia era Totó (Tony Ramos), que vivia com sua família na Itália. Todos eram característicos italianos, abusavam do sotaque e eram muito unidos. Ele tinha uma forte ligação com os quatro filhos —- Adamo (Germano Pereira), Agostina (Leandra Leal), Agnello (Daniel de Oliveira) e Alfredo (Miguel Roncato) —- e com a irmã, Gemma, interpretada brilhantemente por Aracy Balabanian.

Além dos núcleos citados, havia também o cômico, composto por Irene Ravache (que vivia a inesquecível perua Clô), Francisco Cuoco, Flávio Migliaccio, Alexandra Richter, Simone Gutierrez, Bruno Gagliasso e Gabriela Duarte.

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A trama foi marcada pelas fortes cenas e também pelo tom de mistério, que estava presente na vida de vários personagens, como Gerson (Marcello Antony) —- que gostava de ver sexo sujo na internet (segredo que frustrou parte do público) —-, Felícia (Larissa Maciel) —- que era mãe da Fátima (Bianca Bin), mas fingia que era sua irmã —-, Stela (Maitê Proença) —- que tinha inúmeros casos com homens mais novos —- e Fred —- que era filho de um funcionário da Metalúrgica da Família Gouveia, que havia se matado depois que processou a empresa por ter uma mão amputada.

Passione começou com um ritmo intenso e, por incrível que pareça, acabou causando estranhamento no público, que pediu para os acontecimentos serem apresentados de forma mais devagar. Os pedidos (ouvidos após uma pesquisa) foram atendidos e o autor diminuiu um pouco a velocidade, mas continuou sem economizar nos acontecimentos.

E, como é quase uma tradição nas novelas de Silvio de Abreu, o ‘quem matou?’ surgiu com a morte de Saulo (Werner Schunemann). A partir de então, o tom policial impregnou na obra, deixando o conjunto ainda mais atraente. Uma observação curiosa é que Silvio avisou com antecedência que um personagem iria morrer, mas não disse quem. Ou seja, despertou curiosidade no público, que não sabia quem seria assassinado e nem quem ia matar.

A complexidade da vilã Clara foi outro ponto positivo. Mariana Ximenes ganhou a melhor personagem de sua carreira e brilhou do início ao fim, aproveitando a oportunidade dada pelo autor. Ao mesmo tempo que a víbora transbordava frieza com suas maldades, ela também mostrava um amor imenso por sua irmã (Kelly – Carol Macedo), que sofria nas mãos da avó (cujo principal objetivo era prostituir a neta), Dona Valentina (grande trabalho de Daisy Lucidi). Os embates entre Clara e a ‘velha porca’ eram sempre ótimos e muito bem interpretados.

Mariana Ximenes também fez uma ótima dupla com Reynaldo Gianecchini e as cenas do casal do mal eram repletas de química. Não por acaso a música-tema era ‘Fogo e gasolina’. Vale lembrar ainda duas situações geniais criadas pelo autor: Clara fingiu uma regeneração durante a novela e deixou uma imensa dúvida na cabeça dos personagens e também do público — no final das contas, tudo não passava de mais uma plano da vilã. E Fred (outro tipo complexo e muito bem interpretado) foi devidamente punido no final da trama, mas o vilão foi condenado por um crime que não cometeu —- o assassinato de Saulo. Ou seja, foi duplamente castigado, já que era um mau-caráter, mas ficou na cadeia por algo que não havia feito.

E, ao citar a morte de um dos filhos de Bete Gouveia, é preciso aplaudir a grandiosidade da sequência. Clara matou com uma faca, que escondia atrás de um travesseiro, o homem que abusava dela quando ainda era uma criança. O assassinato veio acompanhado desta forte revelação, que motivou a vilã a cometer o crime com o intuito de se vingar de Saulo. Além da interpretação primorosa de Mariana Ximenes, a cena impressionou pelo nível de realismo e também pela ousadia. Um momento impactante.

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Vale elogiar ainda a maravilhosa atuação de Vera Holtz, que emocionou com sua Candê, a mãe de Fred e Felícia. A cena em que sua personagem dá uma surra em Valentina, após descobrir que a amiga, na verdade, prostituía a neta também vale a menção. E o folhetim ainda foi o último que contou com as magníficas presenças de Cleyde Yáconis, atriz que sempre era valorizada pelo Silvio de Abreu, e Leonardo Villar. Sua Brígida era adorável e o triângulo amoroso que ela protagonizava ao lado de Diógenes e Antero (grandes Elias Gleiser e Villar) era muito divertido —– no final, ainda virou um quarteto com a chegada de Benedeto (Emiliano Queiroz).

Mais uma boa característica da trama era a valorização de todos os atores, um feito que está ficando cada vez mais raro. Apesar do numeroso elenco, todos tiveram espaço, até mesmo os personagens de menor importância. Vide Luiz Serra (Seu Talarico), Marcella Valente (Francesca), Débora Duboc (Olga), Marcelo Médici (Mimi), Júlio Andrade (Arthuzinho), Daniel Boaventura (Diogo), Adriana Prado (Laura) e Tammy di Calafiori (Lorena).

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A novela, apesar de ótima, chegou a ficar cansativa durante algumas semanas, mas o autor criou uma reta final eletrizante. Totó fingiu que estava morto em um plano muito bem elaborado por todos da família e voltou para desmascarar Clara. O resultado foi uma cena antológica, com Tony Ramos, Mariana Ximenes, Aracy Balabanian e Fernanda Montenegro dando um show de interpretação. E o capítulo em questão, exibido na última segunda-feira da trama, chegou a atingir picos de 59 pontos.

Aliás, embora tenha ficado com uma média geral baixa (35 pontos), o folhetim ultrapassou os 40 pontos com facilidade nas últimas semanas e os cinco capítulos da semana final passaram dos 50 pontos, comprovando que a obra passou longe de ser um fracasso. Porém, a verdade é que o produto merecia uma ótima audiência desde o início.

Passione —– cujas cenas finais ainda contaram com a fuga de Clara da prisão, e com uma incrível perseguição a Fred, com direito a carro indo na contramão de uma movimentada avenida e passando na frente de trem —– foi uma novela muito bem desenvolvida por Silvio de Abreu, que, apesar de também ter apresentado alguns erros —- vide, por exemplo, a condução equivocada da personagem Diana (Carolina Dieckmann), que foi rejeitada pelo público e acabou morrendo; e o segredo de Gerson que não foi tão interessante quanto se supunha —-, teve suas inúmeras qualidades sobrepostas aos equívocos, presenteando o telespectador com um legítimo novelão.



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