Com cemitério "maldito" e cores berrantes, O Bem-Amado está de volta no Globoplay - TV História

Com cemitério “maldito” e cores berrantes, O Bem-Amado está de volta no Globoplay

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O Bem-Amado, de Dias Gomes, uma das novelas de maior sucesso da história da TV brasileira, está de volta no Globoplay a partir dessa segunda-feira (15). Produzida em 1973, é a novela mais antiga do acervo da Globo em seu streaming. Ismael Fernandes em seu livro “Memória da Telenovela Brasileira” assim a descreveu: “Foi uma das primeiras narrativas a buscar seus entrechos em coisas genuinamente brasileiras. Perfeita em diálogos, em criação de tipos e no seguimento de capítulos. Em nenhum momento sua expectativa se esvaiu na falta de assunto“.

Listo 10 curiosidades que fazem desta uma das obras mais cultuadas de nossa televisão.

Confira:

1 – Primeira em cores

Foi a primeira novela da TV brasileira gravada em cores. Enquanto nos Estados Unidos já havia programação colorida desde os anos 1960, as cores só chegaram ao Brasil no início da década de 1970. No entanto, O Bem-Amado enfrentou dificuldades técnicas no uso dos novos equipamentos e no ajuste das tonalidades. As cores de cenários e figurinos eram, geralmente, berrantes. A atriz Ida Gomes narrou em entrevista que até mesmo a brancura excessiva de suas pernas saturava no vídeo. Emiliano Queiroz não podia usar óculos, porque o reflexo das lentes “rasgava” a imagem.

Foi quando Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, então superintendente da emissora) determinou a utilização de tons pastel, proibiu listrados e xadrez nas vestimentas e qualquer objeto que tirasse o foco do telespectador da história que estava no ar.

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2 – Inspirada na realidade

A novela era a transposição para a TV da peça “Odorico, O Bem-Amado, e os Mistérios do Amor e da Morte”, que seu autor, Dias Gomes, só conseguiu encenar em 1969, depois de sete anos engavetada. A inspiração partiu de um fato ocorrido no Espírito Santo, onde um candidato a prefeito se elegeu com a promessa de construir um cemitério. A cidadezinha litorânea de Guarapari inspirou Sucupira, já que, no ano de 1906, o então prefeito Juca Brandão, teria construído um cemitério que, por falta de defunto, levou dez anos para ser inaugurado.

O estilo demagogo e verborrágico de proferir discursos do protagonista Odorico Paraguaçu teria sido inspirado no vereador Deoclésio Borges, que discursou na inauguração do cemitério de Guarapari, em 1916. Outra inspiração para a criação de Odorico foi o político Carlos Larcerda.

Já o personagem Zeca Diabo – brilhantemente interpretado por Lima Duarte – foi criado trinta anos antes de entrar para a novela. O nome do matador deu título a uma peça escrita por Dias Gomes em 1943. Encenada no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, a obra abordava o cangaço e tinha como protagonista Procópio Ferreira.

3 – Gracindo & Lima

A magnífica criação de Paulo Gracindo, como Odorico Paraguaçu, tornou-se antológica para a televisão brasileira. Memoráveis também eram as expressões usadas pelo personagem: “os cachacistas juramentados”, “as donzelas praticantes”, ou “vamos botar de lado os entretanto e partir pros finalmente”. Segundo o depoimento do ator Gracindo Jr. – filho de Paulo Gracindo – ao projeto Memória Globo, seu pai tinha a liberdade de interferir no texto de Dias Gomes, criando muitos cacos, como algumas pérolas do linguajar do prefeito.

Paulo Gracindo foi eleito o melhor ator da TV em 1973 e O Bem-Amado a melhor novela, pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e pelo Troféu Imprensa.

Lima Duarte, então diretor e ator das novelas da TV Tupi de São Paulo, havia sido contratado pela Globo, no Rio, para dirigir a novela anterior no horário, O Bofe, de Bráulio Pedroso. Seu contrato estava quase no fim e ele voltaria para São Paulo, quando foi chamado para interpretar Zeca Diabo. Foi o primeiro trabalho de Lima como ator na Globo. Como o personagem cresceu em importância, Lima acabou ficando até o final da novela e nunca mais desligou-se da emissora carioca. Apesar de pioneiro da TV brasileira, com vários trabalhos em outras emissoras, Lima Duarte foi premiado em 1973 com o Troféu Imprensa de “revelação masculina na TV”.

4 – Rixa com Nelson Rodrigues

Era notório que Dias Gomes e Nelson Rodrigues (o grande dramaturgo, contemporâneo de Dias) tinham uma rivalidade e não se “bicavam”. Comenta-se que Dias provocou seu suposto desafeto por meio do personagem Nezinho do Jegue, vivido pelo ator Wilson Aguiar. Nezinho – nome que remete a “Nelsinho” – tinha adoração por seu jegue, chamado Rodrigues. Na realidade, o que poderia soar como uma provocação, estava mais para uma homenagem. Nezinho do Jegue é uma das melhores criações de Dias Gomes: quando sóbrio, era fervoroso defensor de Odorico Paraguaçu, porém, quando bêbado, se transformava em um ferrenho crítico do prefeito. Divertidíssimas as cenas em que Odorico discursava e era xingado de tudo que é nome feio por Nezinho bêbado.

5 – Abandono de atriz

Certo dia, a atriz Dilma Lóes (filha dos atores Urbano Lóes e Lídia Mattos e mãe da atriz Vanessa Lóes) apareceu na gravação, ensaiou e, na hora de gravar, sumiu. Seu contrato com a emissora havia sido encerrado e ela não havia renovado. Por causa disso, o autor foi obrigado a matar a personagem Anita – que tinha certo destaque na história – colocando uma dublê para levar um tiro nas costas.

Em depoimento ao site Teledramaturgia, Dilma alegou que passava por um mau momento, com saúde fragilizada, e que não era de seu interesse renovar o contrato. A Globo tentou forçá-la a gravar várias cenas da novela além do previsto, mas ela realmente foi embora, tendo gravado apenas as cenas pré-estabelecidas, de acordo com seu contrato. Dilma Lóes faleceu em 31 de julho do ano passado.

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6 – Terreno do cemitério

As cenas externas foram gravadas em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O elenco chegava às 7 horas na sede da emissora (naquela época no Jardim Botânico) e, de lá, ia de ônibus para Sepetiba. A equipe de produção da novela alugou uma casa na região para servir de camarim aos atores.

De acordo com o diretor Régis Cardoso, em seu livro “No Princípio Era o Som”, publicado em 1999, pelo menos 26 anos se passaram e o terreno escolhido e construído para ser o cemitério da novela (em Sepetiba) não havia ainda sido vendido, porque as pessoas acreditavam que ali realmente havia um cemitério.

7 – Censura

A Censura Federal do Regime Militar implicou com as palavras “coronel”, que vinha sendo usada para se referir ao prefeito Odorico Paraguaçu, e “capitão”, como era chamado Zeca Diabo. Os militares da Ditadura se sentiram atingidos, já que os apelidos eram usados para personagens “negativos”. Em julho de 1973, a produção teve de apagar o áudio de dezenas de citações ao coronel em quinze capítulos já gravados. Também Zeca Diabo não poderia mais ser chamado de capitão. Palavras como “ódio” e “vingança” também foram vetadas. Pouco depois, essas orientações foram esquecidas pelos censores. Ou desprezadas pela emissora.

A música da abertura da novela também foi vetada. Era “Paiol de Pólvora”, de Toquinho e Vinícius: “Estamos sentados num paiol de pólvora…” Foi então substituída por “O Bem-Amado”, gravada pelo grupo MPB4 (creditado no disco como Coral Som Livre): “Quando o sol da manhã vem nos dizer / Que o dia que vem pode trazer / O remédio da nossa ferida / Do meu coração…”.

8 – Trilha de Toquinho e Vinícius

A trilha sonora da novela foi encomendada a Toquinho e Vinicius de Moraes, que compuseram especialmente 11 canções. Em 2001, a Som Livre relançou a trilha sonora nacional de O Bem-Amado, em CD, na coleção “Campeões de Audiência”, 20 trilhas nacionais de novelas campeãs de vendagem nunca antes lançadas em CD (títulos até 1988, pois no ano seguinte foram lançados os primeiros CDs de novelas).

9 – Spin-off

Em 1980, o prefeito Odorico Paraguaçu ressuscitou (ele morria no último capítulo da novela, inaugurando o cemitério de Sucupira) para o seriado que ficou cinco anos no ar. Dias Gomes voltou à sua criação em episódios semanais, exibidos entre 1980 e 1984. Nesta nova produção, parte do elenco original foi aproveitada, outra parte foi substituída por novos atores, e novos personagens foram criados.

Em 2010, chegou aos cinemas uma nova versão da história, no filme de Guel Arraes, com Marco Nanini como Odorico Paraguaçu, José Wilker como Zeca Diabo, Matheus Nachtergaele como Dirceu Borboleta, e Zezé Polessa, Drica Moraes e Andrea Beltrão como as Irmãs Cajazeiras, entre outros. Em janeiro de 2011, o filme foi apresentado na Globo, como microssérie.

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10 – Importação

O Bem-Amado representou a primeira abertura de produção nacional para o exterior (o que se fazia antes era comercializar o texto). Primeiramente, foi exibida no México (em 1976, pela emissora Televisa) e aos poucos foi sendo negociada com todos os países da América Latina. O “baianês” de Odorico Paraguaçu também foi adaptado para diversos países hispano-americanos, além dos Estados Unidos, por meio da Spanish International Network.

Em 2017, a Televisa levou ao ar, em seu Canal de Las Estrellas, a sua própria versão da peça de Dias Gomes, El Bienamado, com Jesús Ochoa como Odorico Cienfuegos – o novo nome de Odorico Paraguaçu.

AQUI tem tudo sobre O Bem-Amado: trama, elenco completo, personagens, trilha sonora e muitas curiosidades.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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