As 5 melhores e as 5 piores novelas de Janete Clair, que nos deixava há 37 anos - TV História

As 5 melhores e as 5 piores novelas de Janete Clair, que nos deixava há 37 anos

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Mineira da cidade de Conquista, Janete Clair nasceu em 25 de abril de 1925. A Maga das Oito – como ficou célebre – é lembrada como uma das maiores novelistas da história de nossa televisão e como uma das responsáveis pela liderança da TV Globo na audiência nacional a partir da década de 1970.

Janete faleceu há exatos 37 anos, em 16 de novembro de 1983, aos 58 anos, vítima de um câncer no intestino, enquanto ia ao ar a sua novela Eu Prometo (concluída pela então colaboradora Glória Perez, sob a supervisão do marido, Dias Gomes).

Abaixo, relaciono as cinco novelas mais elogiadas e as cinco mais criticadas da autora. Porém, faço um corte: considero apenas as produzidas a partir de 1969, quando Janete livrou-se da supervisão da cubana Glória Magadan, que lhe impunha um estilo bem diferente do seu, consolidado nos trabalhos seguintes.

As mais elogiadas

Irmãos Coragem (1970-1971)

Conhecida como a novela com a qual a Globo conquistou definitivamente os brasileiros, Irmãos Coragem foi sucesso absoluto de norte a sul do país. Daniel Filho narrou em seu livro “Antes que me Esqueçam”: “Acho que foi a primeira vez que uma novela estourou de ponta a ponta no Brasil, atingindo índices fantásticos de audiência. Deu mais audiência que o final da Copa de 70. O jogo foi num domingo, e, no dia seguinte, a audiência da novela foi maior”.

O capítulo de Irmãos Coragem exibido na segunda-feira do dia 22/06/1970 obteve mais audiência que o jogo entre as seleções do Brasil e da Itália na final da Copa do Mundo do México, no dia anterior (domingo, 21 de junho).

Precavida, a autora fez um dos três irmãos Coragem da história, Duda (Cláudio Marzo), um jogador de futebol, para que o público urbano tivesse afinidade com a história. Janete temia um desinteresse pelo tema rural. Porém, seu medo logo se desfez nos primeiros capítulos. Os índices de audiência comumente ultrapassavam os 85% – marca então inédita para uma telenovela na época. Por sua trama repleta de elementos masculinos, pela primeira vez os homens assumiram que viam novela.

Irmãos Coragem foi premiada com o Troféu Imprensa de melhor novela de 1970. Regina Duarte levou o prêmio de melhor atriz.

Selva de Pedra (1972)

Um grande sucesso que atingiu números de audiência aparentemente impossíveis. Durante a exibição do capítulo 152, no dia 04/10/1972 – a noite em que Simone (Regina Duarte) era desmascarada -, o índice de aparelhos sintonizados na novela na cidade do Rio de Janeiro chegou aos 100%. Não houve um único entrevistado do Ibope que revelasse estar assistindo a outro canal.

De cada 100 lares consultados no Rio de Janeiro, das 20h30 às 20h45, 23 aparelhos de televisão estavam desligados e os demais 77 estavam ligados na novela. Enquanto TV Rio e Tupi davam “traço” (0%), a TV Globo reinava sozinha (100%). (“Almanaque da TV”, Bia Braune e Rixa) A revista Cartaz, edição de 26/10/1972, em uma reportagem de Mariza Cardoso, citou que, assim como no Rio, na cidade de São Paulo também foi registrado 100% de audiência neste capítulo.

Por seus trabalhos em Selva de Pedra, Walter Avancini e Dina Sfat foram eleitos pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), respectivamente, o melhor diretor de novelas e a melhor atriz do ano de 1972. Selva de Pedra também foi premiada com o Troféu Imprensa de melhor novela de 1972. Francisco Cuoco e Regina Duarte levaram o prêmio de melhor ator e melhor atriz.

Pecado Capital (1975-1976)

Considerada pela crítica especializada a melhor das novelas de Janete Clair, Pecado Capital significou uma mudança no estilo da autora, que vinha sendo muito criticado na época. Janete deixava as tramas fantasiosas e melodramáticas e partia para o realismo, muito próximo do que Dias Gomes, seu marido, já fazia no horário das 22 horas.

Pecado Capital não tinha uma mocinha ingênua e sofredora e nem um galã romântico. Pelo contrário: Lucinha (Betty Faria) era batalhadora e de personalidade forte, enquanto Carlão (Francisco Cuoco) era praticamente um anti-herói.

A autora reconheceu em depoimento ao Museu da Imagem e do Som: “Mudei meu gênero. Não fiz Pecado Capital para imitar o Dias, mas, pelo menos, para me igualar um pouco ao estilo dele. Levei meu romantismo para o lado realista. Parece que em Pecado Capital em diante eu dei uma melhorada”.

Daniel Filho declarou em seu livro “Antes que me Esqueçam”: “Na verdade Pecado Capital é uma dessas novelas que acontecem de tempos em tempos, uma dessas mágicas absurdas”.

Por seu trabalho em Pecado Capital, Daniel Filho foi eleito pela APCA o melhor diretor de televisão de 1976. Lima Duarte e Betty Faria levaram os prêmios de melhores atores do ano. Lima Duarte também foi premiado com o Troféu Imprensa de melhor ator de 1976.

O Astro (1977-1978)

Um grande sucesso popular, com O Astro o país viveu uma espécie de “comoção coletiva” e parou – literalmente – para assistir ao último capítulo da novela, no qual se revelou o assassino de Salomão Hayalla, uma indagação que permaneceu cinco meses na cabeça dos telespectadores e entrou para o “inconsciente coletivo nacional”.

O personagem de Dionísio Azevedo saiu de cena no capítulo 42, exibido em 23/01/1978, e a resposta do “quem matou” só foi dada no derradeiro capítulo, em 08/07. Em sua reta final, a trama de Janete Clair conquistou uma audiência extraordinária, com números superiores aos das transmissões dos jogos da seleção brasileira de futebol na Copa da Argentina: 80% em média.

O último capítulo de O Astro foi manchete de primeira página de jornal. Três dias depois da novela sair do ar, Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil: “Agora que O Astro acabou vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando.” Foi nessa coluna que Drummond deu um apelido a Janete Clair: Usineira de Sonhos.

Pai Herói (1979)

Outro grande sucesso de audiência de Janete Clair, Pai Herói monopolizou a atenção dos telespectadores à espera de que se resolvessem os problemas na vida de André (Tony Ramos), em sua saga para limpar o nome do falecido pai, e o sumiço de Carina (Elizabeth Savala), sua amada, dada como morta.

Trabalhos impecáveis e memoráveis do quarteto protagonista: Tony Ramos, Elizabeth Savala, Glória Menezes (como a sofrida Ana Preta, um de seus melhores papeis em novelas) e Paulo Autran – este, avesso à televisão, fazia a sua primeira telenovela diária, como o adorável vilão Bruno Baldaracci, um tipo italiano, mafioso e tragicômico que caiu no gosto do público. Por seu trabalho, Autran foi premiado pela APCA como o melhor ator de 1979.

O sucesso dos personagens de Tony Ramos e Elizabeth Savala gerou um boom de crianças batizadas de André e Carina. De acordo com matéria na revista Veja SP (em 28/08/2017), por causa da novela, houve um crescimento de mais de 600% de registros de bebês chamados André, em relação à década anterior (de 1960), e o dobro de registros da década de 1970. Quase inexistente até os anos 1960, o nome Carina teve pouco mais de 7 mil registros na década seguinte, pulando para quase 30 mil em 1979, quando Pai Herói foi ao ar.

As mais criticadas

O Homem que Deve Morrer (1971-1972)

Novela retalhada pela Censura Federal. Segundo a autora, o protagonista Ciro Valdez (Tarcísio Meira), deveria sugerir a alegoria da vida de Cristo em sua passagem pela Terra. O tema foi considerado impróprio e acabou totalmente censurado. Os scripts dos dez primeiros capítulos foram vetados. Janete Clair decidiu então fazer uma adaptação do livro “Eram os Deuses Astronautas?”, de Erich Von Daniken, para relacionar os poderes mediúnicos de Ciro aos extraterrestres. A autora completou a novela com Ciro Valdez incorporando um médico comum.

Daniel Filho destacou em seu livro “Antes que me Esqueçam”: “Em O Homem que Deve Morrer, uma mulher virgem tinha um filho que era educado fora (…) Falava-se muito na história do nascimento dele, sendo a mãe uma donzela. Dizia-se que ela tinha tido um romance com um camarada. Depois, era discutido o hímen complacente. Resultado: a novela foi proibida. Esse tema foi cortado quando faltavam dois dias para a estreia. E Tarcísio Meira acabou sendo um extraterrestre mesmo”.

O pesquisador Cláudio Ferreira narrou no livro “Beijo Amordaçado – A Censura às Telenovelas Durante a Ditadura Militar”: “No parecer dos dez primeiros capítulos, (…) a lista de restrições era enorme, de adultério a misticismo, passando por desmoralização da Justiça, ridicularização aos símbolos religiosos e telepatia. Em letras maiúsculas, a sentença final: NOVELA NÃO PODERÁ SER APROVADA – FERE CONSTITUIÇÃO – LEI DE SEGURANÇA NACIONAL. (…) um ofício do diretor geral da Polícia Federal, general Nilo Caneppa Silva, mostra que houve negociações para liberar a novela“.

O Semideus (1973-1974)

Dessa vez não houve sucesso: O Semideus foi um grande tapa-buraco que a maestria de Janete Clair criou à última hora”, declarou Daniel Filho em sua biografia “Antes que me Esqueçam”. Um “tapa-buraco” porque a autora havia apresentado anteriormente uma outra sinopse, intitulada Cidade Vazia, que foi vetada pela censura do Regime Militar. Janete então escreveu às pressas uma nova sinopse, O Semideus, para que só no ano seguinte Cidade Vazia pudesse ser liberada – já com novo título: Fogo Sobre Terra.

Em uma entrevista em 1980, ao fazer um balanço de sua obra, Janete Clair reconheceu os problemas de sua novela: “Escrevi O Semideus às pressas e fiquei em busca de uma história até o capítulo 30. O sucesso aconteceu apenas da metade para o final. No início, tateei demais e isso não é bom para uma novela”.

Outro problema apontado pela autora (à revista Amiga, após o término da novela) foi a demora da volta do protagonista Hugo Leonardo, o que fez cair a audiência. Tarcísio Meira, intérprete do personagem, ficou fora do ar por 35 capítulos para possibilitar uma plástica em seu rosto e uma correção nos dentes. O ator retornou à trama com uma cicatriz real, que na história era explicada pelo acidente que seu personagem sofrera.

Fogo Sobre Terra (1974)

Artur Xexéo citou em seu livro “Janete Clair, a Usineira de Sonhos”: “A autora não conseguiu escapar dos clichês de sua obra na época, rejeitada pela crítica pelo excesso de fantasia de seus textos, pelas coincidências absurdas que recheavam suas tramas, pelo romantismo exacerbado com que desenvolvia um enredo“.

Janete Clair desabafou em entrevista, em 1980: “Fogo Sobre Terra não chegou a acontecer. Foi uma novela escrita com carinho, com boa vontade, mas que não rendeu aquilo que eu esperava. (…) Foi minha novela mais prejudicada pela censura, porque, apesar de Selva de Pedra ter sido vetada em cerca de 20 capítulos, depois eu consegui engrenar de uma maneira muito feliz e sem outras amolações. Com Fogo Sobre Terra, tive problemas com a censura do início ao fim da novela”.

De acordo com um dos diretores de produção, foram feitas três novelas em uma só: uma que foi escrita, outra que foi realizada e uma terceira que foi ao ar. As dificuldades advieram da interferência da Censura Federal, descontente com os rumos que a história tomara. Vários capítulos tiveram de ser regravados e outros tantos reescritos até que as autoridades ficassem satisfeitas.

Duas Vidas (1976-1977)

A autora voltou a travar nova luta com a censura do Regime Militar. Nenhum personagem de Duas Vidas era inteiramente bom ou mau. O vilão da novela era o metrô, que era uma obra do Governo Federal, e, como tal, não poderia ser criticado na televisão. A censura também não gostou do relacionamento amoroso entre Sônia (Isabel Ribeiro) e Maurício (Stepan Nercessian), por ela ser bem mais velha que ele – apesar de os dois serem solteiros e desimpedidos. O diagnóstico foi implacável: além de subversiva, Duas Vidas atentava contra a moral e os bons costumes.

A novela estava no ar há apenas um mês quando, no dia 11/01/1977, Janete escreveu em uma carta a Rogério Nunes, diretor da Divisão de Censura e Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal: “Quem lhe escreve é uma escritora perplexa e desorientada em face dos cortes que vêm sendo feitos pela Censura Federal nos últimos capítulos da novela Duas Vidas. Perplexa e desorientada não apenas pela drástica mutilação da obra que venho realizando, como também diante do incompreensível critério que orienta a ação dos censores”.

O esforço da autora foi inútil. Duas Vidas continuou sendo um trabalho frustrado e a crítica manteve-se impiedosa em relação a ele (“Janete Clair, a Usineira de Sonhos”, Artur Xexéo).

Coração Alado (1980-1981)

A novela era depressiva, com poucas gravações externas, e um texto puxado para o melodrama que não se encaixava mais no horário das oito”, afirmou Artur Xexéo em “Janete Clair, a Usineira de Sonhos”. A autora sofreu com a censura e com as críticas. Todavia, Janete chocou com uma cena de estupro e outra de masturbação feminina. A sequência do capítulo 40 em que a personagem Vívian (Vera Fischer) é estuprada pelo cunhado Leandro (Ney Latorraca) foi ao ar no dia 25/09/1980.

Maior polêmica causou a cena da masturbação de Catucha (Débora Duarte). A autora pediu ao diretor Roberto Talma uma cena forte, de sexo. Os ângulos mostraram a expressão de êxtase de Catucha, estirada sobre uma cadeira, e seus pés fazendo pequenos movimentos circulares (“Almanaque da TV”, Rixa).

De acordo com o site Memória Globo, para complicar, a cena foi levada ao ar com um áudio vazado, no qual o diretor Roberto Talma, durante a gravação, orientava a atriz sobre como se comportar para simular a masturbação. Foi um escândalo. Logo após a exibição, no dia 24/02/1981, sumiram do arquivo da emissora todas as cópias deste script, e a fita do capítulo 171 foi apagada.

AQUI tem mais sobre Janete Clair e sua obra completa.

SOBRE O AUTOR
Desde criança, Nilson Xavier é um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: no ano de 2000, lançou o site Teledramaturgia, cuja repercussão o levou a publicar, em 2007, o Almanaque da Telenovela Brasileira.

SOBRE A COLUNA
Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.



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