Andrea Beltrão honra a memória de Hebe e série merece ser apreciada - TV História

Andrea Beltrão honra a memória de Hebe e série merece ser apreciada

O filme “Hebe – A Estrela do Brasil”, com Andrea Beltrão no papel título, foi lançado em setembro de 2019, mas não foi um sucesso de bilheteria. O longa, escrito por Carolina Kotsho e dirigido por Maurício Farias, amargou duras críticas e até o filho da saudosa comunicadora, Marcello Camargo, reprovou a obra. Muitos colocaram a cobertura superficial da carreira de Hebe como uma das graves falhas. Mas a Globo guardou cenas extras para uma série exclusiva da Globoplay, seu serviço de streaming, lançada em dezembro de 2019. E o resultado ficou muito melhor. Agora o canal estreou, nesta quinta-feira (30/07), o formato na televisão aberta com episódios semanais (são dez ao todo).

É verdade que como longa-metragem a trama peca na narrativa, que algumas vezes se torna confusa e até cansativa pela não-linearidade, e no final há uma sensação de faltar algo a mais. Claro que seria impossível elucubrar a vida inteira da rainha da televisão brasileira em pouco mais de uma hora de meia, mas poderiam ter aproveitado mais figuras importantes na vida da comunicadora, como Silvio Santos (apenas uma rápida aparição) e Ana Maria Braga (com quem firmou um importante vínculo por conta do câncer que ambas tiveram), que nem aparece. Mas todas essas questões somem ou se tornam ínfimas na série. Afinal, é um formato que propicia uma abordagem menos detalhista e mais breve. Exibir a produção semanalmente ainda deixa um gostinho de quero mais aos que não viram no cinema.

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A série passeia por uma parte da trajetória de Hebe e a revela como autora da própria história, mostrando a todo o Brasil como a menina pobre do interior ignorou os olhares tortos, de quem não entendia sua coragem, para estar inteira e ter o direito de ser mulher, artista, mãe e de ter voz e ser feliz sem ter que fazer concessões.

Carregada nas cores, contradições, sorrisos e lágrimas, que durante quase 60 anos entraram nas casas de milhões de pessoas, a loira se tornou o símbolo da própria televisão. Encarnou mil papéis na figura glamorosa de uma pessoa só, sem nunca deixar de ser quem sempre foi: Hebe Monteiro de Camargo Ravagnani.

É a partir dessa ótica, para além da conhecida imagem diante das câmeras, que a série desvenda o lado mais humano e íntimo de uma das mais carismáticas e controversas personalidades brasileiras, mostrando o que acontecia quando as luzes se apagavam. Como um fluxo de memória da própria Hebe, a obra resgata de maneira não linear momentos da trajetória da artista, desde a década de 40 até os últimos anos de vida. Pedaços bem dramáticos da vida da apresentadora são exibidos através de situações pouco conhecidas pelo público, como sua relação nada saudável com o segundo marido Lélio Ravagnani (Marco Ricca).

Na pele de Hebe, as atrizes Valentina Herszage e Andrea Beltrão marcam os períodos de 1943 a 1954 e de 1965 a 2012, respectivamente. As escolhas foram certeiras. Impressiona o belíssimo trabalho de caracterização de Valentina —- grata revelação de “Pega Pega”, novela das 19h de Cláudia Souto, exibida em 2017 —-, que ficou muito parecida com a apresentadora na juventude, quando se lançou como cantora e fez sucesso nas rádios. Já Andrea não se parece fisicamente em nada com Hebe, mas a intérprete teve um desempenho impecável. A atriz captou vários tiques sutis de Hebe, como o piscar de olhos e a maneira de falar com a boca um pouco presa, de forma brilhante e conseguiu fugir da caricatura.

Vale ressaltar que a comunicadora sempre foi uma figura exagerada e por isso mesmo muito imitada por humoristas. O bordão “Gracinha”, por exemplo, quase não é falado na trama, o que merece elogios justamente por escapar de uma possível similaridade com os perfis caricatos de muitos imitadores. Na época da produção do filme, era normal e compreensível o estranhamento com a escalação de Andrea para viver Hebe. Mas basta ver sua interpretação para qualquer desconfiança desaparecer.

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A trama também conta com ótimas participações, como o já mencionado Marco Ricca na pele de Lélio, personagem que era uma mistura de vilão e mocinho na vida da apresentadora. Daniel de Oliveira —- como Luis Ramos (primeiro namorado de Hebe); Emílio de Mello —- Peppino Matarazzo (noivo de Hebe por um período); Cláudia Missura (Nair Bello); Karine Teles (Lolita Rodrigues); Danton Mello —- Cláudio Pessuti (sobrinho de Hebe); Caio Horowicz —- Marcello Camargo (filho de Hebe); Walderez de Barros e Flávio Migliaccio —- Esther e Fego (pais de Hebe); Otávio Augusto (Chacrinha); Stella Miranda (Dercy Gonçalves); e Fabiana Gugli (Marília Gabriela) foram outros bons nomes do elenco.

“Hebe” como filme não é uma obra-prima, mas como série cumpre muito bem o seu papel. Não é um retrato fiel da vida da apresentadora, mas toda obra de ficção, ainda que baseada em figuras e fatos reais, têm a chamada licença poética —- como Hebe beber Whisky ou abandonar um programa, por exemplo. São dez episódios que matam um pouco as saudades do público e o final emociona por razões óbvias. Vale a pena acompanhar parte da trajetória de uma das figuras mais amadas da televisão brasileira.

SOBRE O AUTOR

SÉRGIO SANTOS é apaixonado por televisão e está sempre de olho nos detalhes, como pode ser visto em seu blog. Contatos podem ser feitos pelo Twitter ou pelo Facebook.



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