30 novelas que sofreram intervenções para alavancar a audiência

30 novelas que sofreram intervenções para alavancar a audiência

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Às vezes, a emissora precisa agir rápido para impedir que queda em audiência reverta em um grande fracasso. Apagar esses fogos em teledramaturgia é muito comum. Desde a década de 1960, em todas as emissoras, autores são chamados para auxiliar novelas em crise na audiência.

Abaixo, listo, cronologicamente, 30 casos notórios, que nem sempre surtiram o efeito esperado.

Confira:

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O ator Emiliano Queiroz escrevia, sem muita técnica, a novela Anastácia, a Mulher Sem Destino (1967), perdido em sua história, na tentativa de emplacar na audiência, que não parava de cair. Por volta do capítulo 40, Janete Clair, em sua estreia na Globo, foi convocada por Glória Magadan – então supervisora de dramaturgia da emissora – para continuar a história.

A frase de Magadan para Janete ficou famosa: “Eu tenho um abacaxi para você”. Janete começou do zero: idealizou um terremoto que matou a maioria dos personagens e a trama teve um salto de vinte anos na ação. Leila Diniz, que vivia a protagonista, passou a interpretar dois papéis: Anastácia e a filha dela.

A novela A Cabana do Pai Tomás (Globo, 1969-1970) começou escrita por Hedy Maia e Péricles Leal, com supervisão de Glória Magadan e do ator Sérgio Cardoso, que vivia o protagonista, Pai Tomás. Diante de polêmicas (Sérgio foi acusado de black-face, por interpretar um personagem negro), um incêndio, mudança de horário e audiência baixa, Walther Negrão, estreando na Globo, foi acionado e terminou de escrever a novela, transformando tudo em um alucinado faroeste.

Em 1979, Lauro César Muniz escreveu Os Gigantes para a Globo, em que a eutanásia foi pela primeira vez abordada em uma telenovela. A trama começou falando de doença, dor, hospital, tensão, e passou por aborto, brigas familiares e processos judiciais. A novela foi tachada de depressiva, provocando o desinteresse no público, a exaustão do autor e a sua demissão antes do fim. O último capítulo foi escrito por um autor cujo nome não foi revelado na época. Lauro havia deixado pronto o desfecho de sua história, que acabou completamente alterado. Anos depois, ele descobriu que havia sido Walter George Durst o redator do capítulo final de sua novela.

No final de 1979, a TV Bandeirantes lançou O Todo-Poderoso. A novela seguiu indefinida até que Walter Avancini assumiu a direção de dramaturgia da emissora e, a partir do capítulo 100, substituiu os autores Clóvis Levy e José Safiotti Filho pelo trio Carlos Lombardi, Edi Lima e Ney Marcondes. Também mudou a equipe de diretores e a abertura, na tentativa de chamar a atenção do público. Ismael Fernandes cita em seu livro Memória da Telenovela Brasileira: “Criou-se então uma novela de horror trash, com possessão do diabo e tudo mais. O público se encarregou do exorcismo”.

A novela Olhai os Lírios do Campo (1980) foi o único trabalho de Geraldo Vietri na Globo. Um impasse entre produção e novelista pôs em choque os estilos controladores de trabalho do diretor Herval Rossano e do autor – que na Tupi dirigia as próprias novelas que escrevia.

Vietri não suportava interferências, que o capítulo não fosse ao ar do jeito e na ordem que escrevia, e outros detalhes típicos de quem comandou tantas novelas com mão de ferro. Herval começou a eliminar algumas cenas, trocar outras de ordem e a situação entre o roteirista e o diretor foi se complicando. O resultado foi a dispensa de Vietri pela Globo. Wilson Rocha foi convocado para dar continuidade e a novela foi reduzida.

Com o processo de criação dos mais impecáveis, a novela Um Homem Muito Especial (1980-1981), da TV Bandeirantes, só não teve repercussão por ter passado por diversas fases desestimulantes. O autor Rubens Ewald Filho não foi até o fim, sendo substituído na roteirização dos capítulos primeiro por Jaime Camargo, depois por Consuelo de Castro. Ela concluiu a novela transformando-a em um bangue-bangue à brasileira.

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Em 1981, a novela das seis da Globo As Três Marias não ia bem de audiência. O autor Wilson Rocha desentendeu-se com o diretor Herval Rossano e deixou a produção. Foi substituído por Walther Negrão, que não vacilou e transformou a história em um pastiche policial. Negrão conseguiu prender a atenção do telespectador na reta final da novela.

O Amor é Nosso! começou escrita por seus idealizadores, Roberto Freire e Wilson Aguiar Filho. Um emaranhado de personagens confundiu o telespectador, afastando-o da novela e tornando-a uma das produções mais complicadas da história da TV Globo. Reza a lenda que a emissora tenha apagado todas as fitas com capítulos, sobrando apenas a abertura e algumas chamadas de estreia. Providencialmente, a partir do capítulo 80, Walther Negrão foi escalado para dar continuidade à história. Mas restava pouco por fazer.

Ivani Ribeiro escrevia a novela Os Adolescentes (1981-1982) para a Bandeirantes, com foco nos problemas da juventude daquele início dos anos 1980. Mas a autora não terminou de escrever a novela. Depois de uma série de desencontros com a emissora, foi substituída por Jorge Andrade (a partir do capítulo 55), que amenizou os problemas dos jovens centrais. O novo autor manteve a espinha dorsal da trama, mas inseriu novos personagens.

Duas outras novelas da TV Bandeirantes, do início dos anos 1980, tiveram problemas com audiência e troca de roteiristas: Campeão e Sabor de Mel, entre 1982 e 1983. No decorrer de Campeão, o autor Jaime Camargo foi substituído, primeiro por Marcos Caruso e, depois, por Lafayette Galvão, que concluiu os trabalhos.

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Sobre Sabor de Mel, há conflitos de dados com relação aos roteiristas substitutos. Ismael Fernandes em seu livro “Memória da Telenovela Brasileira” afirma que o autor Jorge Andrade e o diretor Roberto Talma entraram em atrito e que Andrade não terminou a novela, sendo substituído por Jaime Camargo. Já Fábio Costa em “Novela, a Obra Aberta e Seus Problemas”: “pressionado para retomar os índices iniciais e, se possível, ampliá-los, Jorge Andrade terminou por abandonar a novela por volta do capítulo 60, recusando-se a nivelar o trabalho por baixo, como declarou ter-lhe sido solicitado, para atingir um público, por assim dizer, menos sofisticado. Foi substituído por Lafayette Galvão, mas não havia muito a fazer”.

A peça Volpone, de Ben Johnson, foi o ponto de partida de Daniel Más e Lauro César Muniz para a novela Um Sonho a Mais (1985), da Globo. A parceria não deu certo. Daniel ficou até o capítulo 37 e Lauro assumiu a novela, enquanto dois novos roteiristas foram acionados: Mário Prata e Dagomir Marquezi. Apesar de problemas com a Censura e a crise nos bastidores, a novela acabou por registrar bons números de audiência.

Outra problemática produção da Globo foi De Quina Pra Lua (1985-1986), a primeira novela de Alcides Nogueira como roteirista solo, a partir de um argumento de Benedito Ruy Barbosa. Tide revelou em entrevista: “… o estresse provocado pelo Benedito, que tendo entregado a sinopse a mim, continuava me telefonando todo dia, para reclamar disso e daquilo. Quando cheguei ao capítulo 60, não tive dúvida: fui para o Rio e disse que estava entregando a novela. Houve uma reunião difícil, complicada. (…) Aí, o grande amigo Walther Negrão entrou na jogada. E o Benedito parou de me perturbar”.

Interessante atração da TV Manchete, a novela Corpo Santo (1987) tinha uma proposta ousada ao enfocar a violência urbana com realismo. Sofreu com a rejeição de uma parte do público que acusou a novela de “barra pesada”. Ainda problemas internos, como a saída de Christiane Torloni, que vivia a protagonista, após um desentendimento com a produção. Os autores José Louzeiro e Cláudio MacDowell deixaram a trama antes do final e Wilson Aguiar Filho foi convocado para concluir a roteirização dos capítulos.

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A novela da Globo Gente Fina (1990) teve um início promissor. Mas faltou gás e logo o autor Luís Carlos Fusco apelou para o clichê do “quem matou?”. O experiente Wálter George Durst foi chamado para colaborar no texto, dar mais ação à história e tentar ampliar a audiência.

Mico Preto (Globo, 1990) foi uma novela de trajetória irregular, que não repercutiu bem na audiência. Uma comédia considerada cínica e que exibia um desajuste entre seus autores, o trio formado por Marcílio Moraes, Leonor Bassères e Euclydes Marinho. Faltando dois meses para seu término, Walther Negrão foi convocado para coordenar o texto e encaminhar os desfechos das tramas.

No final de 1991, a novela Amazônia estreou na TV Manchete com grande alarde. Mas não passou de uma grande decepção para a emissora. Para recuperar a audiência perdida e compensar prejuízos, a partir do capítulo 43 a trama original teve um fim, e, com o mesmo elenco, entrou no ar Amazônia, Parte 2. As equipes de roteiristas e diretores sofreram alterações. Jorge Duran, autor do argumento inicial, criou a segunda parte com Regina Braga e novos colaboradores. Mas não teve remédio: Amazônia firmou-se como um dos maiores fracassos da Manchete e contribuiu bastante para o agravamento da crise da emissora.

A novela 74.5, Uma Onda no Ar (Manchete, 1994) passou por muitas mãos. O argumento era de Domingos de Oliveira, que escreveu alguns capítulos. Depois dele, Eloy Araújo, Rose Calza, Marilu Saldanha e Cláudio Paiva também conduziram a história. Uma nova troca de autores foi promovida aproveitando o fim da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em que Chico de Assis e Lígia Barbieri passaram a responder pelo texto.

Problemática produção do SBT, o remake da novela Sangue do Meu Sangue (1995), originalmente escrita por Vicente Sesso, tornou público o desentendimento entre o autor e os adaptadores Paulo Figueiredo e Rita Buzar. A crise provocada pela insatisfação da emissora com a baixa audiência, e do pai da obra, Vicente Sesso, com a adaptação, acabou provocando a intervenção dele na novela.

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Sesso chegou a ameaçar o SBT de que recorreria à Justiça para tirar a trama do ar caso a emissora não fosse fiel ao seu texto. Rita Buzzar, antes de se desligar da novela, rebateu as críticas de Sesso. Contudo, as mudanças feitas por ele em nada melhoraram a repercussão da novela. Ao contrário, a audiência caiu ainda mais. Na reta final, outro dissabor: o ator Osmar Prado, que vivia um dos protagonistas, saiu em defesa dos adaptadores atacando Sesso.

A novela Tocaia Grande (Manchete, 1995-1996), inicialmente escrita por Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcus Lazarini, não vinha obtendo os resultados esperados. Os altos custos de produção e a audiência baixa levaram, depois de dois meses da trama no ar, à demissão do diretor Régis Cardoso e sua substituição por Walter Avancini, tanto no comando da novela quanto do núcleo de dramaturgia da emissora. As providências do novo diretor foram rápidas: trouxe Walter George Durst para chefiar a roteirização dos capítulos. De uma só vez, Avancini e Durst agilizaram a história, incluíram novos personagens e enxugaram o elenco, alavancando o Ibope da novela.

A novelista Solange Castro Neves escreveu apenas os 24 primeiros capítulos de Quem é Você (Globo, 1996), baseada em um argumento deixado por Ivani Ribeiro antes de sua morte. Ao desentender-se com a emissora, diante da baixa audiência da novela, Solange deixou a trama nas mãos de Lauro César Muniz. Mas pouco restava a ser feito: a novela terminou sem grande repercussão.

A novela Brida (1998) foi a mais problemática produção da TV Manchete: agravou a crise financeira da emissora culminando com o seu fim, em maio de 1999. Baseada no best-seller de Paulo Coelho, a trama começou a ser escrita por Jaime Camargo, que a levou até o capítulo 14. A pouca repercussão fez com que ele fosse substituído por Sônia Mota e Angélica Lopes. De nada adiantou: diante do fracasso reconhecido, a direção da Manchete decidiu tirar a novela do ar, interrompendo subitamente a trama, apresentando uma narração que explicava qual seria o desfecho da história.

Três meses após a estreia de Esperança (Globo, 2002), de Benedito Ruy Barbosa, as gravações começaram a se arrastar em função da demora na entrega de capítulos, fazendo a novela mergulhar na chamada “barriga” – quando nada acontece na trama. E a audiência despencou. A crise chegou ao ápice com a mudança urgente de mãos. Benedito abriu mão de continuar sua história e passou o bastão a Walcyr Carrasco. O novo autor recebeu a missão de regularizar a entrega de textos à produção, a fim de sanar os problemas de atraso.

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Carrasco mexeu bastante na trama, mas Benedito não gostou. Em entrevista, ele desabafou: “Quando ele assumiu a novela, deixei de assistir. Se visse, queria bater nele. Na época, liguei para o Mário Lúcio Vaz [então diretor artístico da Globo] e disse ‘avisa o Walcyr que quando eu encontrar com ele, eu vou dar porrada, entendeu?’ Ele simplesmente acabou com minha novela. Não terminou como eu queria. Depois, mandou uma carta pedindo desculpas… Coitado! (…) No fim, tudo terminou bem”.

Uma equipe de seis escritores assinou conjuntamente – com o pseudônimo Charlote K – o roteiro da novela Metamorphoses (2004), uma coprodução da TV Record e a produtora Casablanca. Mas a audiência da trama só despencava. Em uma tentativa de salvar a novela, Letícia Dornelles foi chamada e eliminou a maioria das tramas paralelas e personagens. Não surtiu efeito. A Record decidiu então dar um ponto final à novela, que terminou com vinte capítulos a menos do previsto e a maioria dos personagens sem um desfecho apropriado.

Com uma proposta diferente e inovadora, a novela Bang Bang (Globo, 2005) não conseguiu cativar o público, fato refletido nos números de Ibope. Já na segunda semana de exibição, o autor Mário Prata foi afastado para cuidar de problemas de saúde. Ele deixou 30 capítulos escritos e 20 projetados. Márcia Prates assumiu a coordenação do texto e, depois, Carlos Lombardi foi acionado para dar um rumo à trama. De nada adiantou: Bang Bang entrou para a história da Globo como um de seus maiores fracassos.

A novela Babilônia (2015) penou com a repercussão negativa refletida na baixa audiência: foi o menor Ibope já registrado em uma novela do prime-time da Globo até então. Com a rejeição do público e uma enxurrada de críticas, de todos os lados, os autores – Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenez Braga – se mobilizaram para tentar salvar a novela.

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O diretor de dramaturgia da Globo, Silvio de Abreu, teve que meter a mão na massa: ele mesmo organizou e reescreveu cinco capítulos (do 37 ao 41) e acelerou acontecimentos. Apesar das mudanças realizadas, a audiência continuou baixa e a novela foi encurtada em três semanas.

A Lei do Amor (2016-2017) amargou o segundo pior Ibope da história das novelas das nove da Globo, com uma média final de 27 pontos na Grande SP, perdendo apenas para Babilônia (25 pontos). Ricardo Linhares foi acionado para ajudar a dupla de autores Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari. No afã de ajustar a obra ao gosto da audiência, a novela acabou descaracterizada para atender a vontade do público – como acontecera em Babilônia.

Com a crise na novela Deus Salve o Rei (2018), a Globo convocou o experiente novelista Ricardo Linhares para auxiliar o autor Daniel Adjafre a pôr sua história nos trilhos. Outro ajuste providencial foi a mudança no tom de interpretação de Bruna Marquezine como a fria princesa Catarina, no início muito criticada pela postura e fala robóticas. Imediatamente a atriz foi orientada a atuação mais naturalista, o que a fez dar a volta por cima.

O máximo de repercussão de O Sétimo Guardião (2018-2019) não dizia respeito à trama, mas aos seus conturbados bastidores, que fomentaram revistas e sites de fofocas. A falta de folhetim até poderia ser relevada, se a trama central fosse forte o bastante. Os vilões também deixaram a desejar. Nem Lília Cabral, antes da estreia apregoada como “a Vilã”, conseguiu atrair a atenção da audiência.

Na falta da vilã central forte, brilhou uma vilã periférica: Mirtes, vivida por Elizabeth Savalla, uma das poucas personagens da novela com algum tutano. Mais do que a média final na audiência abaixo do mínimo esperado para o horário (29 pontos no Ibope da Grande SP) e bem abaixo das últimas produções, O Sétimo Guardião foi uma novela que mal repercutiu.

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