Gerou até romance: 10 segredos da Escolinha do Professor Raimundo

Gerou até romance: 10 segredos da Escolinha do Professor Raimundo

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O vasto legado de Chico Anysio tem um capítulo mais do que especial: há exatamente 31 anos, no dia 4 de agosto de 1990, estreava na Globo a Escolinha do Professor Raimundo. Porém, a atração estava longe de ser uma novidade: tudo começou na década de 1950, pelas ondas do rádio, o que já consagrou a voz marcante do protagonista, Raimundo Nonato, cearense de Maranguape assim como o seu inesquecível intérprete.

Agora, “vamos à escola” para conferir 10 curiosidades dos bastidores da sala de aula mais famosa do Brasil.

Como diria o Professor Raimundo, a leitura “é vapt-vupt”:

Origens no rádio

Criação do humorista e radialista Haroldo Barbosa, a “Escolinha” estreou em 1952, na emissora Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, já com Chico Anysio encabeçando o elenco e somente três alunos: o sabido (Afrânio Rodrigues), o burro (João Fernandes) e o esperto (Zé Trindade). Mais tarde, eles ganhariam a companhia de um mineiro desconfiado, Antônio Carlos Pires (pai de Glória Pires e que ficou conhecido na versão para a TV ao interpretar Joselino Barbacena).

Cabe ressaltar que a primeira incursão na TV ocorreu já em 1957, como um quadro humorístico do programa Noites Cariocas, da TV Rio. Posteriormente, na Globo, foi parte integrante de Chico City (1973) e Chico Anysio Show (1982) antes de ter um espaço exclusivo na grade.

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Ao vivo (só que não)

As gravações da “Escolinha” eram feitas de uma forma diferente: cada personagem decorava o próprio texto, mas não sabia o que os demais falariam quando fossem chamados pelo Professor Raimundo. Segundo o próprio Chico Anysio relatou ao projeto Memória Globo, o esquema era adotado para conferir espontaneidade ao programa, a tal ponto que este parecia ser exibido ao vivo.

“Eles (os atores) são elenco e plateia ao mesmo tempo”, explicou Chico, que adorava surpreender com mudanças inesperadas no script, inserções de cacos nos textos e até mesmo expulsões de alunos da sala de aula.

Celeiro humorístico

Diferentes gerações de comediantes passaram pelos bancos escolares mais conhecidos da televisão brasileira.

Entre os que já eram consagrados e os tantos que ganharam suas primeiras oportunidades, estiveram o já citado Antônio Carlos Pires (Joselino Barbacena), Grande Otelo (Seu Eustáquio), Brandão Filho (Sandoval Quaresma), Berta Loran (Manuela D’Além Mar), Zilda Cardoso (Dona Catifunda), Cláudia Jimenez (Dona Cacilda), Rogério Cardoso (Rolando Lero), Lúcio Mauro (Aldemar Vigário), Zezé Macedo (Dona Bela), Orlando Drummond (Seu Peru), Mário Tupinambá (Bertoldo Brecha), David Pinheiro (Armando Volta), Lug de Paula (Seu Boneco), Jorge Loredo (Zé Bonitinho), Castrinho (Geraldo), Costinha (Mazarito), Pedro Bismarck (Nerso da Capitinga), Tom Cavalcante (João Canabrava), Orival Pessini (Patropi), entre dezenas de outros que imortalizaram bordões e trejeitos hilários.

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Romance

Ao Memória Globo, Chico Anysio relatou que, durante o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), recebeu um telegrama do então ministro da Educação, Carlos Chiarelli, agradecendo a existência da “Escolinha”, já que o sucesso do programa gerou um aumento de 70% nas matrículas de adultos em escolas de alfabetização.

Aliás, o governo Collor foi especialmente marcante para Chico: uma de suas esposas, Zélia Cardoso de Mello, foi ministra da Economia entre março de 1990 e maio de 1991 e ficou marcada pelo polêmico Plano Collor, que confiscou grande parte dos saldos de contas bancárias e aplicações financeiras com o propósito de conter a inflação galopante da época.

Ela não só inspirou a personagem Célia Caridosa de Mello (interpretada por Nádia Maria) como também chegou a fazer uma participação especial na “Escolinha” logo depois de sua saída do governo, justamente na despedida de Célia Caridosa do programa que, segundo matéria do Jornal do Brasil de 12 de maio de 1991, rendeu muitas lágrimas do elenco.

E não foi só isso: além de ter sido aplaudida pela classe em sua chegada, a ex-ministra ganhou um abraço “de todo o país” do Professor Raimundo ao final do episódio. O relacionamento de Zélia e Chico foi mantido de 1991 a 1998 e o casal teve dois filhos: Rodrigo e Vitória.

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Outros cenários

Nem sempre a “Escolinha” se restringiu ao clássico cenário da sala de aula. No início, o programa também apresentava o Professor Raimundo em seu gabinete, recebendo pais e responsáveis pelos alunos.

Além disso, em março de 1992, o programa passou a contar com sala de música (onde era formado um coral), cujo professor era Tim Rescala (foto), academia de ginástica e cantina.

Idas e vindas

A fase clássica da “Escolinha” como programa independente durou cinco anos, de 1990 a 1995, quando a atração foi descontinuada. Quatro anos depois, após uma turnê por teatros, foi promovido um retorno às origens de quadro humorístico na Globo, desta vez integrado ao Zorra Total. O formato foi mantido até outubro de 2000.

No ano seguinte, as aulas voltaram a ter um espaço exclusivo na grade para uma última temporada, exibida de março a dezembro, tendo nada menos do que 37 personagens, dos quais 31 na sala de aula, entre novatos e velhos conhecidos do público.

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Confusão com Luciano do Valle

Em 1991, o sucesso da “Escolinha” era tanto que uma versão em inglês foi desenvolvida para exibição no canal Univision, sediado em Miami (EUA). O projeto foi intermediado por Luciano do Valle, famoso narrador esportivo que também era empresário. Curiosamente, na mesma época, Chico Anysio tinha outro programa na Globo além da “Escolinha”, intitulado Estados Anysios de Chico City.

Infelizmente, a empreitada acabou gerando um problema financeiro para o narrador: Chico Anysio exigiu uma indenização de US$ 100 mil por uso indevido de imagens da “Little School” no programa Show do Esporte, comandado por Luciano do Valle na então Bandeirantes (hoje Band).

Censura

Em 24 de junho de 1993, matéria da Folha de S.Paulo destacava a entrevista concedida por Chico Anysio ao programa Roda Viva, da TV Cultura. Entre as principais revelações, o humorista acusou Borjalo (foto), nome artístico de Mauro Borja Lopes, de ser um “censor de scripts” dentro da Globo. Responsável pela Assessoria de Qualidade, um dos braços da Central Globo de Programação, Borjalo negou qualquer censura, alegando que apenas fazia eventuais sugestões de mudanças.

No entanto, a reportagem da Folha salientou que os apontamentos eram levados em consideração pela parte da alta cúpula da emissora carioca responsável pelos cortes nos programas, formada por Mário Lúcio Vaz (diretor da Central Globo de Produção), Roberto Buzzoni (diretor da Central Globo de Programação) e, claro, o todo-poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni (vice-presidente de Operações).

Em resposta, Chico declarou ao jornal: “Tudo bem. O Borjalo não dá o tiro de misericórdia. Mas empresta o revólver para o algoz”, ironizou.

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Outras versões

A Record lançou, em 1999, a Escolinha do Barulho, que se inspirou na obra original, embora tivesse algumas diferenças fundamentais, como o fato de ter tido quatro professores, interpretados por Bemvindo Sequeira, Dedé Santana, Gil Gomes e Luiz Carlos Miele.

Além de contar no elenco com vários atores da Escolinha do Professor Raimundo, a exemplo de Castrinho, David Pinheiro e Jorge Loredo, a versão da Record, que foi exibida até 2001, também foi reforçada por vários convidados ilustres: os apresentadores Ana Maria Braga e Luciano Huck,  o político Enéas Carneiro e o cantor Fábio Jr. foram apenas alguns deles.

Outros similares foram A Escolinha do Golias, do SBT, e Uma Escolinha Muito Louca, da Band.

Remake na Globo

A eternidade da “Escolinha” foi comprovada pelo especial de sete episódios feito pela Globo em parceria com o canal Viva em 2015, visando comemorar os 25 anos do programa. Bruno Mazzeo, um dos filhos de Chico Anysio (falecido em 2012), assumiu com maestria o papel de Professor Raimundo.

Sob um inevitável clima nostálgico, o novo elenco reuniu experientes atores e atrizes de novelas e séries, além de grandes expoentes do humor na atualidade: Betty Gofman (Dona Bela), Dani Calabresa (Catifunda), Ellen Roche (Capitu), Evandro Mesquita (Armando Volta), Fabiana Karla (Cacilda), Lucio Mauro Filho (Aldemar Vigário), Marcelo Adnet (Rolando Lero), Marcius Melhem (Seu Boneco), Marcos Caruso (Seu Peru), Maria Clara Gueiros (Cândida), Mateus Solano (Zé Bonitinho), entre outros.

O sucesso foi tamanho que rendeu outras quatro temporadas na telinha, gravadas e exibidas entre 2016 e 2019. Em função das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, optou-se em 2020 pela gravação de novos episódios no formato podcast, disponibilizados via Globoplay. Curiosamente, esta alternativa remeteu aos primórdios da “Escolinha” no rádio.

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