Com edição de Bebê a Bordo, Viva desrespeita público e abre perigoso precedente




Criado em 2010 pela Globosat com foco em reprises de antigos programas e novelas da Rede Globo, o Viva chegou ao mercado sendo celebrado por proporcionar ao público a oportunidade de exibir novelas clássicas e marcantes na memória de muitos brasileiros. Já passaram por lá inúmeros sucessos, como Vale Tudo, Que Rei Sou Eu, Rainha da Sucata, História de Amor, Pedra Sobre Pedra, Tieta, A Gata Comeu, Laços de Família, Mulheres de Areia, Por Amor, Água Viva e Pai Heroi. Em comum, todas as novelas exibidas em sua totalidade e sem cortes, o que fazia o canal se destacar em meio às edições do Vale a Pena Ver de Novo, da emissora-mãe. Até o começo da semana.

Na segunda-feira, dia 30 de abril, telespectadores do canal foram surpreendidos com cortes abruptos em sequências de Bebê a Bordo (1988), trama de Carlos Lombardi que ocupa a faixa das 15h30 com reprise às 0h30. Tais edições causaram revolta e motivaram uma campanha nas redes sociais, reivindicando que a emissora mantenha a novela livre de qualquer interferência. Segundo a jornalista Cristina Padiglione, da Folha de São Paulo, dois motivos seriam os responsáveis: a baixa audiência e reações conservadoras ao ousado enredo de Lombardi. Alegações improváveis e bastante controversas, diga-se.

Primeiramente, como um canal de TV paga, o Viva não deveria ter grandes preocupações com os índices, e sim com o cuidado no trato com os produtos que apresenta. Além do mais, tramas que despertaram muito mais críticas, como as insossas Tropicaliente (1994), de Walther Negrão; e Fera Ferida (1993), de Aguinaldo Silva, foram exibidas sem qualquer tipo de intervenção - ironicamente, não se tem notícias de cortes das outras duas novelas da atual safra, Explode Coração (1995) e Sinhá Moça (1986).

Em segundo lugar, a TV fechada oferece a possibilidade de bloqueio de programas com classificações mais altas, o que lhe permitia não seguir a (já extinta) vinculação horária da Classificação Indicativa, que vigorava para o sistema aberto até 2016 e foi inclusive um dos motivadores para a Globo voltar a exibir novelas das 21h em sua sessão de reprises. Com isto, cai por terra a reclamação de que a novela seria "imprópria".

Vale lembrar que Celebridade (2003-04), de Gilberto Braga, atualmente em cartaz no "Vale a Pena", vem sofrendo uma pesada edição em seus capítulos para terminar durante a Copa do Mundo, em virtude dos índices consideravelmente abaixo dos registrados por Senhora do Destino (2004-05), de Aguinaldo Silva - em vários dias, teve sua exibição preterida em favor das fases decisivas da Liga dos Campeões da UEFA. Para os fãs, a situação também é lamentável, mas o fato de ser exibida no sinal aberto, gratuito, funciona como salvo-conduto para isto. O que não se aplica a Bebê a Bordo.

Para piorar, a resposta dada pelo Viva para o questionamento dos espectadores é ainda mais controversa. Primeiramente, o canal se limitou a dizer nas redes sociais que a edição seguia "critérios de programação". Agora, nesta última quarta-feira, anunciou que a novela seria exibida na íntegra apenas para os usuários da plataforma Viva Play (divisão do serviço on demand Globosat Play) e que a transmissão televisiva seria editada. Algo totalmente incompreensível.

Desta forma, a edição surpresa de Bebê a Bordo abre um perigoso precedente e deixa no público a dúvida sobre outras possíveis reprises sofrerem o mesmo tipo de intervenção, contrariando a expectativa que se fazia de que o canal seria a melhor alternativa para uma exibição integral, preservando a essência dos enredos. Espera-se que este seja um caso isolado e que todas as outras tenham um melhor cuidado, como ocorria antes. Do contrário, aí sim, o canal poderá sofrer perda de público e credibilidade.


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