Orgulho e Paixão estreia focada no humor e apresenta um delicioso começo


Sai de cena uma trama repleta de dramalhão e entra um enredo mais voltado para comédia e romances juvenis na faixa das seis da Globo. Tempo de Amar fechou seu ciclo nesta segunda-feira (19/03), cedendo o lugar para Orgulho de Paixão, novela que marca a estreia de Marcos Bernstein como autor solo, após ter trabalhado como colaborador em várias obras e ter sido coautor de Além do Horizonte (2013), problemático folhetim das 19h. É uma quebra de estilos bem grande, da mesma forma que ocorreu quando o modorrento enredo anterior substituiu a movimentada Novo Mundo.



A nova trama é baseada no universo de Jane Austen, explorando vários livros da famosa escritora inglesa. Ambientada no início do século XX, em 1910, no fictício vilarejo Vale do Café, no interior de São Paulo, a novela, dirigida por Fred Mayrink, tem sua história original retirada de 'Orgulho e Preconceito', um dos livros mais populares da autora, publicado em 1813 - que conta a vida da determinada Elizabeth, a segunda de cinco filhas de um proprietário rural, que não se interessa em casar, se preocupando mais em trabalhar, até conhecer Darcy, por quem implica e se apaixona.

Mas o autor também mesclou várias outras obras de Austen em seu folhetim, inserindo personagens de 'Razão e Sensibilidade' - relata a vida das irmãs Elinor e Marianne -, 'A Abadia de Northager' - a heroína Catherine imagina aventuras num clima gótico -, 'Emma' - a jovem que passa a vida planejando o casamento de terceiros e 'Lady Susan' - a bela e encantadora viúva.

Essa grande mistura de Marcos tem como objetivo sustentar a novela ao longo dos meses, pois o enredo de cada livro seria incapaz de ter bons conflitos por tanto tempo. Então, nada melhor do que juntar tudo e tentar amarrar algumas situações. Portanto, não espere nada parecido com o elogiado filme britânico Orgulho e Preconceito, de 2005, por exemplo.

Como já há uma Elizabeth em O Outro Lado do Paraíso e a personagem de Glória Pires tem um grande destaque, optaram em mudar o nome da mocinha para Elisabeta. Nathalia Dill foi a escolhida para representá-la e a personagem - uma mulher à frente do seu tempo (embora essa característica já esteja virando um clichê) -- é filha de Ofélia Benedito (Vera Holtz) e Felisberto Benedito (Tato Gabus Mendes), irmã de Jane (Pâmela Tomé), Cecília (Anaju Dorigon), Lídia (Bruna Griphao) e Mariana (Chandelly Braz).

Todas as meninas têm personalidades distintas e a que mais "dá trabalho" para a matriarca é Elisabeta, que não aceita ter como destino ser uma esposa dedicada, ao contrário das irmãs, que sonham (cada uma à sua maneira) com um grande amor. Ofélia idealiza um casamento perfeito para todas com o intuito de receber bons dotes, enquanto Felisberto acaba se identificando com os ideais de Elisabeta, apoiando a filha.

A estreia se mostrou agradável e movimentada. O autor focou no natural machismo de Darcy (Thiago Lacerda), expondo ao mesmo tempo a sua integridade e o seu heroísmo, salvando um rapaz acidentado. Também priorizou o feminismo de Elisabeta através de diálogos renegando qualquer ideal de casamento, recusando qualquer tentativa de juntá-la com um pretendente - objetivo da melhor amiga, Ema (Agatha Moreira), que tem o intuito de formar vários casais, deixando sua vida pessoal de lado. A mocinha ainda pôde mostrar suas posições quando encontrou Darcy, discutindo por uma calça escolhida em uma loja, e se indignando ao ouvir que a vestimenta é apenas para homens. A implicância foi imediata e a paixão também, claro. Um clichê que dificilmente falha.

O primeiro capítulo teve como mote o baile que haveria na cidade, despertando a ansiedade das quatro filhas de Ofélia e a animação da matriarca, que fez de tudo para deixar suas princesas belíssimas. A única que não se animou, óbvio, foi Elisabeta, que ainda resolveu provocar todos os convidados chegando com vestimentas masculinas, implicando no desmaio da mãe e no primeiro gancho do folhetim. O contexto desse baile, por sinal, lembrou o clássico 'Cinderela', quando a madrasta embelezou suas duas filhas encalhadas para conquistar o príncipe, sem imaginar que a menina mais desacreditada já havia conquistado o rapaz. A mocinha da trama foi a primeira a encontrar seu grande amor, mesmo fugindo disso, ao contrário das outras. Vale destacar ainda outras boas promessas que surgiram, como a vilã Susana (Alessandra Negrini) e sua governanta (Petúnia - Grace Gianoukas); além da poderosa Julieta (Gabriela Duarte), a Rainha do Café.

O começo deixou bem claro que a aposta maior será na comédia farsesca e no humor pastelão, com direito a queda no chiqueiro. O figurino, bastante colorido, tem um toque levemente lúdico, lembrando um pouco o clima do remake de Meu Pedacinho de Chão (2014). O elenco está, em sua grande maioria, acima do tom, principalmente Agatha Moreira e Vera Holtz, evidenciando a aposta da direção em algo mais exagerado. Resta saber, todavia, se isso não irá cansar ao longo dos meses. É quase certo que esse tipo de interpretação será atenuado com o tempo. Esse ajuste costuma ser algo comum. E o enredo demonstra um bom potencial.

Orgulho e Paixão teve uma estreia deliciosa e Marcos Bernstein promete apresentar uma história leve, cuja comicidade será a principal característica. Lembrou um pouco o estilo do Walcyr Carrasco, que o consagrou na faixa das seis. Tomara que esse conjunto mantenha a boa impressão que causou nesse início.


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