Tempo de Amar teve uma linda embalagem, mas pecou no ritmo e na história


A novela das seis de Alcides Nogueira, escrita com Bia Corrêa do Lago e dirigida por Jayme Monjardim, estreou no final de setembro e chegou ao fim nesta segunda-feira (19/03), cumprindo sua missão de manter bons índices de audiência para a faixa na Globo - derrubou apenas um ponto da antecessora, a primorosa e bem-sucedida Novo Mundo. E foi uma novela bonita, com diálogos refinados e belíssimas imagens, incluindo figurino e cenários. Todavia, a produção pecou bastante no enredo e no ritmo, que se arrastou ao longo dos meses, testando a paciência de quem assistia.



O autor baseou seu folhetim no argumento de Rubem Fonseca, que ambientava a história de amor dos mocinhos entre 1886 e 1888, época em que ocorre o movimento abolicionista. Mas, decidiram mudar o contexto para os anos 20 (entre Portugal e Rio de Janeiro, filmando em locações lindas do Rio Grande do Sul). E não foi apenas essa a mudança de percurso dos escritores. Desde o início, ficou claro que seria quase impossível sustentar a trama apenas na separação e, consequentemente, no reencontro de Maria Vitória (Vitória Strada) e Inácio (Bruno Cabrerizo). A necessidade de outros conflitos era vital para o roteiro não ficar limitado. Mas, infelizmente ficou.

O primeiro erro foi juntar os protagonistas de forma tão súbita e pouco consistente. Aquele amor à primeira vista encantava noveleiros nos anos 70/80, mas não cabe mais no mundo atual. Mesmo sendo um enredo de época. A exceção fica por conta do desenvolvimento desse amor. Se o autor ou a autora souber conduzir com precisão, a chance de arrebatar o público é quase certa.

No entanto, colocá-los perdidamente apaixonados com apenas dois capítulos de novela foi um grave erro. Já estavam planejando até casamento. Ou seja, o par acabou não convencendo. Para culminar, o casal foi separado logo na segunda semana e ficou afastado quase a trama inteira. Não há torcida que aguente.

A ideia de apostar em rostos novos como protagonistas foi corajosa e deu certo com Vitória, que se mostrou uma grande e promissora atriz. Deu show de emoção em todos os momentos e com certeza será disputada nas próximas novelas da emissora. Já com Bruno o erro acabou evidente. Inexpressivo, o ator deixou a desejar sempre que foi mais exigido e ficou artificial proferindo o texto formal da trama, muitas vezes parecendo uma leitura. Mas é injusto culpar apenas o intérprete. Alcides tem muita culpa pela condução totalmente errônea do mocinho, que virou um sujeito passivo, burro e manipulável, não fazendo diferença alguma para o andamento dos conflitos.

O período em que Inácio ficou cego e nas mãos de Lucinda (Andreia Horta) testou a paciência do telespectador. Além de acreditar em todas as mentiras que a vilã contava sobre Maria Vitória, nem se preocupou em procurar seus amigos no Rio de Janeiro, como o Seu Geraldo (Jackson Antunes), dono da mercearia que o empregou quando o mesmo chegou para melhorar de vida. Enquanto isso, a mocinha passava por uma sucessão de desgraças na procura pela filha roubada e pelo amor de sua vida - foi internada em um convento, assediada, estapeada, presa, enfim... Nessa época, inclusive, a trama deveria ter se chamado "Tempo de Chorar". E todo esse conjunto deixava apenas claro que o único drama consistente do roteiro era esse reencontro dos mocinhos que nunca acontecia.

Os núcleos paralelos, por sua vez, pouco acrescentaram e muitos atores talentosos foram figurantes de luxo. Isso porque o elenco foi muito bem escalado. Mas, não souberam aproveitá-lo. Vide a grande Regina Duarte. A carismática Madame Lucerne parecia um perfil promissor, mas acabou avulso na história e o bordel da cafetina servia apenas para expor a arrogância do deputado Teodoro (Henri Castelli) e a vida dupla de Bernardo (Nelson Freitas). Até mesmo a maravilhosa parceria da atriz com Maria Eduarda de Carvalho (a prostituta Gilberte) - observada anteriormente na primorosa Sete Vidas (2015) - ficou apagada. Quando Maria Vitória foi parar no local, com suas amigas (conhecidas no navio para o RJ), até pareceu que o núcleo cresceria, mas em pouco tempo tudo voltou como era antes. Nem mesmo o bonito romance com José Augusto (Tony Ramos), pai da mocinha, iniciado depois da metade da trama - aproveitando a química entre Regina e Tony, vista em Rainha da Sucata (1990) -, foi desenvolvido a contento.

O já citado Teodoro, por exemplo, foi um vilão sem a menor função. O deputado corrupto resolveu perseguir a mocinha sem nenhum motivo plausível e sua rivalidade com o Conselheiro Francisco (Werner Schünemann, também subaproveitado) não rendeu o esperado. Fernão (Jayme Matarazzo) também decepcionou. O ator esteve muito bem e o papel tinha tudo para ser o melhor de sua carreira, mas simplesmente não aconteceu. "Vendido" como um dos empecilhos para o amor de Maria Vitória e Inácio, o personagem só teve destaque nas primeiras semanas e depois simplesmente desapareceu. Só ressurgiu para dar um golpe em Tereza (Olívia Torres) e na reta final acabou unido a Lucinda (através de um amor e jogo de interesses nada convincentes) em uma clara tentativa do autor de destacá-lo um pouco. A própria Lucinda "murchou" ao longo da novela. Inicialmente, parecia uma vilã complexa, uma vez que sempre sofreu pela perda da mãe (vitimada em um incêndio provocado por ela, implicando em uma queimadura em seu rosto), mas acabou virando uma víbora maniqueísta e sem nuances. Nada contra o maniqueísmo e isso foi o de menos. A decepção mesmo acabou ocorrendo por causa da dependência dela por Inácio. Lucinda viveu em função apenas do mocinho e bastou ele sair de casa para o perfil se apagar.

A única malvada realmente interessante foi Delfina, vivida por Letícia Sabatella. A atriz esteve muito bem e a personagem tinha boas camadas, sempre nutrindo um amor doentio por José Augusto e um ódio por Maria Vitória e todos que tentavam atrapalhar seu caminho de colocar a filha Tereza como a única herdeira do todo poderoso de Portugal. As cenas da intérprete com Tony e Olívia, por sinal, eram sempre boas. Outro acerto, desta vez no time dos ''bonzinhos', foi o próprio José Augusto. Um perfil denso e que mesclava momentos de vilania com outros de integridade. Responsável pelo início das desgraças na vida da própria filha, acabou se arrependendo dos seus atos, indo atrás da mocinha e reencontrando também seus erros do passado. Tony brilhou, não havendo surpresa alguma nisso.

Celeste Hermínia foi mais um excelente perfil, destacando o talento dramático de Marisa Orth. A atriz pela primeira vez viveu uma mulher que não tinha traço algum de comicidade em uma novela, mostrando que não é uma profissional de um gênero só - já havia provado na série Dupla Identidade (2014) e em Haja Coração (2016), ainda que no segundo caso tenha mergulhado um pouco no humor também. A fadista foi um dos tipos mais cativantes de Tempo de Amar e a revelação em torno da verdadeira identidade de sua filha desaparecida a destacou ainda mais, a ligando diretamente ao drama de Maria Vitória e José Augusto. A bela relação da milionária com a empregada Eunice (Lucy Alves) também merece menção, embora o seu romance com o Conselheiro tenha decepcionado e pouco acrescentado. A mesma Eunice valorizou a talentosa Lucy Alves e o par formado com o justo médico Reynaldo (Cássio Gabus Mendes) funcionou.

Há também elogios de sobra para Bruno Ferrari, que roubou a cena e virou o verdadeiro mocinho da trama, conquistando a todos com o seu carismático Vicente. Sua química com Vitória Strada era visível e os dois protagonizaram lindas cenas de amor e cumplicidade. Não por acaso terminou com o coração da mocinha no final da história. Françoise Forton é mais um nome que merece menção, pois emprestou sua elegância para a querida Emília e emocionou várias vezes com o sofrimento contido da personagem. Seus embates com Andreia Horta eram ótimos. Já Olívia Araújo se saiu muito bem vivendo a simpática Dona Nicota, enquanto Bárbara França se firmou de vez defendendo a sua determinada Celina, protagonizando boas cenas com Débora Evelyn (esta vivendo a fútil Alzira, mais uma perua amargurada na carreira). A revelação de Malhação - Pro Dia Nascer Feliz (2016), no entanto, merecia um par romântico melhor: Guilherme Leicam esteve robótico na pele de Artur.

Aliás, em matéria de pares românticos, a novela fracassou. O que não deixa de ser irônico, levando em conta o título Tempo de Amar. Com exceção de Maria Vitória / Vicente (que só surgiu em virtude do equívoco de Vitória e Inácio), Eunice / Reynaldo e Dona Nicota / Seu Geraldo, nenhum casal funcionou. Sabrina Petraglia, por exemplo, após o sucesso da Shirley, em Haja Coração, ganhou uma personagem apagada e que não teve a menor química com Marcelo Mello Jr., intérprete de Edgar. Tanto que o autor separou o casal sem mais nem menos e o juntou com Mayana Moura, que estava avulsa no enredo vivendo Carolina de Sobral. E também não deu certo. Outro par insosso. O mesmo vale para Helena (Jéssika Alves) / Giuseppe (Guilherme Prattes), Tomaso (Ricardo Vianna) / Natália (Giulia Gayoso), Teodoro / Felícia (Amanda de Godoi) e Angélica (Lívian Aragão) / Lucas (Gustavo Piaskoski). Por sinal, como alguns dos personagens citados eram italianos, não deu para entender o porquê deles terem sotaque e os portugueses não. A única portuguesa que tinha sotaque era Henriqueta, vivida pela ótima Nivea Maria, mais uma grande atriz que fez figuração de luxo - e não dá para esquecer de Karine Teles, na pele da adoentada Odete, esposa do Conselheiro, que entrou muda e saiu dizendo uma frase antes de morrer.

Vale mencionar as abordagens panfletárias e cansativas em torno dos militantes políticos e do racismo, por exemplo, que em nada contribuíram para o andamento do roteiro. Tanto que despertava atenção quando Vicente se envolvia com os dramas de sua família e de Maria Vitória, mas não causava interesse algum a temática em torno de seus planos de revolta com os colegas, enfrentando o governo. O mesmo ocorreu em cima do racismo sofrido por Edgar, que em nada contribuiu para a trama. Já a exploração do assédio, tendo Olímpia como protagonista, em plena reta final da novela, merece elogios, pois proporcionou ótimas cenas e ainda serviu para expor o verdadeiro pai de Pepito (Maicon Rodrigues), após a empregada Balbina (Walkiria Ribeiro) ter se dado conta que era assediada desde sempre - aliás, o enredo sobre as geleias fabricadas pelo rapaz foi interessante no começo, mas logo passou a andar em círculos.

A reta final do folhetim deixou evidente a limitação do enredo, pois não houve qualquer acontecimento relevante. Parecia que a novela já deveria ter terminado há uns dois meses. Foram vários capítulos com muitas cenas praticamente iguais: Maria Vitória e Vicente se declarando perdidamente apaixonados, Inácio se lamentando pelos cantos, Lucinda e Fernão armando contra Emília e demais personagens sem maior função. O autor até tentou transformar o mocinho em um herói perto do fim, o colocando para salvar Vicente de uma queda de cavalo e desmascarando Lucinda e Fernão, mas soou forçado, pois o próprio Alcides destruiu a condução do personagem e não adiantava tentar consertar só no último mês. Para culminar, reservou o desaparecimento de Vicente para o penúltimo capítulo (em uma ótima cena de tempestade em alto mar), deixando todos os desdobramentos que isso renderia apenas para o último capítulo. Até mesmo o seu retorno, para o final feliz com Maria Vitória, seria mais impactante se a tragédia tivesse acontecido há uma semana, pelo menos. O lado positivo foi o destaque do talento dramático de Vitória Strada, irretocável no sofrimento da protagonista.

Já o desfecho de Lucinda e Fernão foi decepcionante. Claro que vários vilões terminaram impunes na teledramaturgia, mas colocá-los escapando em um navio cargueiro foi praticamente uma recompensa por todas as suas manipulações ao longo do enredo. Tudo bem que estavam surrupiando comida, mas ainda assim nada impedia um novo golpe bem-sucedido. E ela acabou sendo a primeira vilã da teledramaturgia que teve seu objetivo alcançado: separou os mocinhos com suas mentiras, fugindo no fim com "o seu novo amor"; enquanto seu parceiro se deu "bem" escapando, em contraponto a Teresa, que ficou sozinha com um filho para criar. Ao menos o reencontro de Maria Vitória e Vicente foi bonito, sendo necessário elogiar também o final de Delfina, atolada em dívidas e constatando que a parva era ela. E a última cena, com José Augusto desabafando sobre a vida, em um desempenho arrepiante de Tony Ramos, fechou lindamente a trama. A foto final ficou belíssima.

Tempo de Amar foi uma novela mediana, cujos erros acabaram camuflados pelo texto bonito de Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago, enquanto as qualidades se sobressaíram através da direção competente de Jayme Monjardim, aproveitando as belíssimas imagens e cenários do enredo. Mesmo assim, o roteiro limitado e o ritmo modorrento foram perceptíveis em todos os momentos, assim como o subaproveitamento de vários atores e personagens que simplesmente não aconteceram. Teria sido uma obra bem melhor se fosse uma minissérie de uns 20 capítulos.


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