Malhação - Vidas Brasileiras apresenta boas ideias diluídas pela correria


Um novo ciclo se iniciou nesta quarta-feira em Malhação. A autora Patrícia Moretzsohn, com passagens pela novela desde sua primeira temporada em 1995 e cuja última história foi a esquecível 'Casa Cheia' (2013-14), está de volta com um novo enredo: 'Vidas Brasileiras', que tem o desafio de manter a audiência e qualidade da aclamada antecessora 'Viva a Diferença', de Cao Hamburger. E a temporada chega apresentando duas curiosas mudanças.



A primeira é o fato de seu enredo ser, pela primeira vez na história, uma adaptação de outra obra: a canadense 30 Vies, quatro vezes indicada ao Emmy Internacional (inclusive concorrendo com novelas brasileiras, como Lado a Lado (2012) e Verdades Secretas (2015)). Chama atenção ainda o fato de a autora contar com a supervisão de texto de Daniel Ortiz, pupilo de Sílvio de Abreu e com menos experiência que a titular (em especial pelo fato de suas duas novelas no Brasil terem sido também sinopses de outros autores).

A outra é a mudança de foco de seu protagonismo. Assim como 'Viva a Diferença', que rompeu com o modelo do casal de mocinhos perseguido por vilões e apostou na história de cinco garotas, o novo enredo desta vez tem como elemento principal uma personagem adulta: a professora Gabriela (Camila Morgado), do colégio Sapiência. Sua trajetória se alterna entre a convivência com os alunos de sua turma e os problemas de sua própria família. Os jovens, desta vez, terão suas histórias conduzidas a partir da atuação da educadora e cada um terá um momento de protagonismo por duas semanas, em uma espécie de revezamento.

O primeiro capítulo da trama dirigida por Natália Grimberg buscou impactar. Logo na primeira cena, uma garota tentava se matar ao descobrir que uma foto íntima sua foi vazada entre os colegas. Logo depois, Gabriela presenciou um arrastão no Rio de Janeiro - para onde a trama voltou a ser ambientada, após a passagem por São Paulo na história anterior.

Mais tarde, foi mostrada a prisão de Eduardo (Edson Celulari), pai da jovem Pérola (a estreante Rayssa Bratillieri) e, encerrando a estreia, uma festa promovida pelos alunos da Sapiência para convencer a professora a não deixar o colégio. Bons conflitos, mas que não tiveram o efeito desejado porque o roteiro confundiu agilidade e vários acontecimentos - que nem sempre se misturam. Seria mais adequado se ao menos um destes entrechos fosse mais aprofundado, para que houvesse uma apresentação mais eficiente de Gabriela. Aliás, a cena da festa, apesar de bonita, não soou tão convincente para uma estreia. Era necessário que se criasse um envolvimento do telespectador com o enredo, e não jogar tudo logo de cara.

Ainda assim, o capítulo teve pontos positivos. No elenco, pode-se dizer que Camila Morgado foi uma escolha acertada para interpretar a obstinada e idealista educadora Gabriela. Nas primeiras cenas, já deu mostras de que tem tudo pra ser o maior destaque do enredo, ao menos entre o elenco adulto. Também merecem elogios a sempre maravilhosa Ana Beatriz Nogueira, mesmo interpretando mais uma dondoca mãe controladora, um tipo recorrente em sua carreira; e Guta Stresser, vivendo a governanta Rosália. No elenco jovem, a julgar pelo que foi apresentado, uma aposta que merece menção é Rayssa Bratillieri, intérprete de Pérola. A jovem teve um bom começo nos primeiros capítulos e sua personagem tem um perfil (teoricamente) atraente.

Na abertura, merece destaque a aparição dos atores, algo que foi abandonado nas últimas temporadas e era uma marca da trama (vide a consagrada fase do Colégio Múltipla Escolha). Os créditos em tamanho grande também facilitam a leitura, ao contrário do que ocorre nas aberturas de Tempo de Amar e O Outro Lado do Paraíso. E, no encerramento, a disposição dos nomes da equipe passou a ser feita em telas divididas e não mais subindo a imagem, como ocorre na novela das nove e em Deus Salve o Rei (atual das sete). Porém, o conjunto de cores utilizado deixou o resultado um tanto poluído, exagerado. E, ao mesmo tempo, é perceptível a diminuição da logomarca Malhação, evidenciando a tentativa de setores da Globo de acabar com o nome - o que não faz o menor sentido, pois a marca ainda tem muita força em 23 anos de história.

No grande desafio de se apresentar como uma temporada à altura da antecessora e quebrar a alternância de enredos bons e ruins dos últimos anos, Malhação - Vidas Brasileiras chegou mostrando que tem boas ideias para mostrar ao público e personagens atraentes. É preciso apenas um cuidado maior para que cada história tenha a devida valorização e que não se deixe tudo "atropelado" e superficial. O enredo é promissor e tem boas chances de dar certo.


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