Como não amar Explode Coração? Novela em exibição no VIVA é ótima pedida!


Em exibição no VIVA às 23h30 - com reapresentação às 13h30 e aos domingos, 19h - desde o último dia 29, Explode Coração já reavivou boas lembranças no público que a acompanhou entre novembro de 1995 e maio de 1996, bem como atiçou a curiosidade dos telespectadores que, por conta da idade ou qualquer outro motivo, não conferiram a novela em sua apresentação original. Agora, depois de rever (e melhor compreender) os doze primeiros capítulos do folhetim, listo dez bons motivos para ficar de olho neste repeteco.



Há os que apontam O Clone (2001) como o "nascimento" de uma "identidade novelística" para Gloria Perez. Ledo engano. Foi com Explode Coração que a autora passou a apostar no contraponto de culturas. A diferença para o clássico da década seguinte está na opção pelos ciganos daqui mesmo, evitando a ponte aérea Brasil - país "exótico". Evidente que a caracterização deixou o povo "diferente" um tantinho estereotipado; o texto, porém, embora foque justamente no "incomum", faz questão de tornar os ciganos críveis e, por isto, tão interessantes. A aposta no casal Dara (Tereza Seiblitz) - apaixonada por esse povo, mas inconformada com as tradições - e Júlio Falcão (Edson Celulari) - um homem distante de sua essência - consistiu num acerto e tanto; especialmente por conta dela, mocinha "afrontosa", como só Gloria sabe fazer.



O meio pelo qual Dara e Júlio se conhecem, através de uma embrionária internet, mudou muito de 1995 para cá. É curioso constatar que a trama de Explode Coração, naquele tempo, era considerada inverossímil. ICQ, Orkut, MSN, Facebook, WhatsApp e Stories depois, estamos aqui, sem a certeza de onde a tal rede mundial de computadores ainda pode chegar. É curioso acompanhar a reação dos personagens às máquinas - Odaísa (Isadora Ribeiro) trata por "bicho" - bem como a antecipação de Hans Donner à tecnologia do touch screen e do iPad, presentes na abertura, com direito a "download" de Ana Furtado! Curiosamente, o visual dos personagens não difere tanto assim do que vemos hoje. Ninguém mais usa o cabelo de Yone (Deborah Evelyn), claro, mas em termos de moda, 'Explode' até que tá bem moderninha...



Moderninha também é a produção! Primeira novela totalmente gravada no antigo Projac (hoje, Estúdios Globo), Explode Coração soa atual por conta de suas imagens. Há mais luz e cor do que em cartazes exibidos no mesmo ano ou no anterior, já vistas no VIVA - como História de Amor (1995), A Próxima Vítima (1995) e A Viagem (1994). Talvez por conta da "modernidade" dos estúdios, a equipe liderada pelo diretor-geral Dennis Carvalho se permitiu cenários maiores - embora a sala da casa de Júlio pareça pequena diante do apartamento de Dara. O folhetim é de um tempo em que se preservava certa "veracidade" nos ambientes. Como exemplo, a lanchonete de Lucineide (Regina Maria Dourado), com cara de estabelecimento do subúrbio - hoje, até o mais simples dos botecos aparece entulhado de produtos da Globo Marcas.



Concebida às pressas para cobrir o buraco deixado pela suspensa Mar Morto e a adiada O Rei do Gado (1996), Explode Coração conta com uma escalação um tanto quanto atípica. Tereza Seiblitz já havia se destacado em Pedra Sobre Pedra (1992) e Renascer (1993), mas ainda não tinha status de protagonista - aliás, ótima à frente do elenco. Cássio Gabus Mendes já era uma estrela quando topou viver o nerd Edu, certamente pela amizade com Dennis, na correria para fechar o time; talvez, caso também de Deborah Evelyn, Débora Duarte (Marisa) e Herson Capri (Ivan). Bom ver Daniel Dantas num tipo arrivista, Tadeu; assim como Françoise Forton e os ares de vilã de Eugênia. O tom choroso de Maria Luísa Mendonça é incômodo, mas a atriz transitou bem entre a perturbada Letícia, de Engraçadinha (1995), para a ciumenta Vera.



Há também novatos promissores! A começar por Rodrigo Santoro, óbvio, remanescente de Olho no Olho (1993) e Pátria Minha (1994). Da primeira, veio Felipe Folgosi (Vladimir), bom ator lamentavelmente relegado a papeis menores; da segunda, Cássia Linhares (Natasha), na mesmíssima situação. Ainda, Roberta Índio do Brasil, em sua última novela; a jovenzinha promissora, que havia se destacado em A Viagem, como a musicista Sofia, se afastou do vídeo para se dedicar à carreira em ciências econômicas e à família. Também a estreia de Leandra Leal, na Globo e em horário nobre! Nestes primeiros capítulos, Ianca incomoda por estar sempre se esgoelando... O tom, contudo, é corrigido no decorrer da narrativa. E a personagem ganha relevância, assim como Leandra ganhou importância no cenário artístico brasileiro.



Em contraponto a tantos talentos, Ricardo Macchi. Definitivamente, o intérprete do Cigano Igor passa longe de um desempenho, no mínimo, satisfatório. Robótico, o ator só não incomoda quando está em cena apenas como adereço, galopando ou "testemunhando" acontecimentos na tenda dos ciganos. Mas, justiça seja feita: Macchi melhora consideravelmente da metade para o final de Explode Coração - em parte, auxiliado por Gracindo Jr, que se integra à direção e ao elenco, como o malandro Geraldo. Neste período - tome spoiler! - a torcida se divide entre Júlio e Igor, os candidatos ao coração de Dara. Tarde demais para os críticos e para boa parcela do público: o Cigano virou sinônimo de atuação ruim, do "rostinho bonito, sem nenhum talento". Quem sabe agora, nesta reprise, a audiência não o redima.



Dando suporte aos novinhos, bons ou ruins, uma turma de veteranos da melhor qualidade! Os personagens, aliás, parecem pequenos para o talento da trupe; todos, porém, conseguiram em Explode Coração mais uma chance de brilhar: Paulo José e Eliane Giardini, o casal Jairo e Lola, pais que ora protegem, ora se opõem a Dara; Nívea Maria, como a ambiciosa Alícia, e Reginaldo Faria, seu marido César, enfrentando Renée de Vielmond (que falta faz!), a Beth - ex dele e namorada do filho dela, Serginho; Zezé Polessa como a esnobe Mila e Cláudio Cavalcanti, o capacho Tolentino. Ainda, Laura Cardoso como a "bába" dos ciganos, Soraya; Elias Gleizer, o vovô que se aventura na faculdade, Augusto; Stenio Garcia, grande demais para o pequeno Pepe; e os bissextos Ivan de Albuquerque (Mío) e Ester Góes (Luzia).



Evidente que Explode Coração traz os coadjuvantes comuns às obras de Gloria Perez, como Eri Johnson (o mesmo de sempre, atendendo por Adilson Gaivota) e Guilherme Karan (Bebeto). Contudo, há tipos muito mais interessantes nos núcleos periféricos, que, de tão bons, quase tomaram a novela no laço! Caso de Lucineide (Regina Maria Dourado), do "Stop, Salgadinho!", jeitinho "meigo" de silenciar o marido, Salgadinho (Rogério Cardoso, numa curiosa incursão por novelas). Floriano Peixoto parece desconfortável neste início, com o cabelão e o vestuário de sua Sarita Vitti; logo, porém, já estará dominando a personagem. E Isadora Ribeiro, tão subjugada por ter emergido como modelo, na pele da mãe Odaísa, desemparada pelo namorado malandro (Gaivota) e alvejada pelo desaparecimento do filho, Gugu (Luís Cláudio Jr).



Aliás, o engajamento na busca por crianças desaparecidas constituiu-se num dos melhores merchandisings sociais da ficção, não só pela forma como o tema foi inserido na narrativa, como pelo efeito da abordagem na "vida real", com a localização de muitos pequenos. Em 2000, a Globo conseguiu a liberação de Explode Coração para o Vale a Pena Ver de Novo. A imprensa chegou a noticiar a intenção da emissora de "atualizar" a campanha, inserindo fotos de crianças ainda não localizadas nos capítulos. Sabemos que o VIVA, pelo acordo estabelecido com a "matriz", não pode alterar o conteúdo que lhe é fornecido. Mas nada impede uma nova ação do tipo. Vai de encontro às "diretrizes do canal", de (re) contextualizar antigas produções; configura também num tremendo auxílio a tantos pais e mães aflitos.



Diferente de outras seleções da mesma época, a trilha nacional de Explode Coração não conta com nenhum grande hit - embora o repertório, com Marina Lima, Marisa Monte e Milton Nascimento, seja da melhor qualidade. Já o internacional conta com duas canções que marcaram a novela e o período: 'Estoy enamorado', dos latinos Donato & Estéfano, executada exaustivamente nas cenas de Dara e Igor, "contemplada" com uma versão brazuca, da dupla João Paulo & Daniel. E 'Macarena', do grupo espanhol Los del Río, no caminho inverso de 'Enamorado': estourou nas paradas e acabou na novela! Também, uma trilha complementar, 'Coração Cigano', talvez mais eficiente do que os discos "oficiais". É só tocar 'Che Chovorriho', do grupo Encanto Cigano, para Dara se materializar nas lembranças, tal qual Ana Furtado...

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