Record é a única culpada pelo atual fracasso de sua teledramaturgia


Na última sexta (26/01), chegou ao fim Belaventura trama medieval de Gustavo Reiz, ocupando a faixa das sete. A trama teve seis pontos de média geral, um índice pífio. Mas não foi o único fracasso da Record no atual período. A reprise de Os Dez Mandamentos (2015) também amarga baixos índices e a novela Apocalipse faz jus ao seu título, sendo uma verdadeira catástrofe nos números do Ibope. Entretanto, tudo isso tem uma única culpada: a própria emissora.



Começando pelo folhetim que substituiu a re-reprise de Escrava Isaura (2004). O enredo de Gustavo teve um começo promissor, mas aos poucos o autor foi se perdendo. A trama tinha poucos acontecimentos e não prendia o telespectador. Para culminar, o casal protagonista teve dois atores limitados: Bernardo Velasco e Rayane Moraes, que não transmitiam emoção. O elenco, por sinal, deixou bastante a desejar com raras exceções (Helena Fernandes, por exemplo, que deu show como a grande vilã Marión).

Ficou claro que o escritor não esteve inspirado, não conseguindo repetir o êxito de Escrava Mãe (2016). Todavia, a novela ainda conseguia se manter com uns 9 pontos de audiência. Bem longe do que a emissora pretendia e marcando menos do que a re-reprise que a antecedeu, mas, ainda assim, uma média razoável para a faixa das sete. O naufrágio de Belaventura se deu quando a Record resolveu reprisar Os Dez Mandamentos na faixa das seis, tentando copiar a Globo com três novelas no ar.

Afinal, a trama bíblica foi exibida em 2015, transmitida nos cinemas pouco tempo depois, e ainda teve uma péssima segunda temporada com o intuito de esticar ainda mais o sucesso. O público naturalmente não aguenta mais.

Reprisar um folhetim que foi exibido há dois anos é o cúmulo do absurdo. O resultado, obviamente, foi o pior possível. Concorrendo com a primorosa Novo Mundo (2017), na Globo, e as tramas mexicanas do SBT, a obra de Vivian de Oliveira ficou em terceiro lugar e muitas vezes perdia do Brasil Urgente, da Band. Sofria para alcançar míseros 5 pontos. Tentando plagiar mais a líder, o canal também colocou um jornal local logo depois. Não surtiu efeito algum. O efeito "dominó" se mostrou inevitável. Ou seja, derrubou os índices da emissora dos bispos, piorando ainda mais a média de Belaventura, que caiu para 5 pontos. Antes a produção ao menos herdava índices favoráveis do Cidade Alerta e se continuasse conseguiria se manter com uns 8 pontos.

O que salvava relativamente a Record nessa época era a exibição de O Rico e Lázaro, novela bíblica que conseguia ao menos uns 11/12 pontos. Todavia, já havia um claro desgaste desse tipo de formato, observado melhor com o enredo de Paula Richard ---- o folhetim anterior, A Terra Prometida (2016), marcava por volta de 14 pontos. Havia uma aposta alta em Apocalipse, por ser de autoria da responsável pelo fenômeno Os Dez Mandamentos. Também contava a favor da nova obra o fato de ser uma história baseada na bíblia, mas contemporânea, quebrando a longa sequência de formatos de época.

Mas a emissora não tinha ideia do fiasco que viria. O que estava ruim podia piorar. E piorou muito. Apocalipse teve um primeiro capítulo com excelente audiência e o enredo de Vivian de Oliveira parecia promissor, apesar de algumas "tosquices" observadas durante as aparições do diabo, narrado por Sérgio Marone. No entanto, ao longo das semanas, a audiência foi caindo assustadoramente e o clima pesado do roteiro foi afastando o público, assim como a quantidade excessiva de fases e núcleos desconexos. A Record, então, resolveu interferir na produção da autora, mexendo no texto (a própria narração do demônio já era uma imposição da Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo, dono do canal). A catástrofe pôde ser observada com mais clareza quando a igreja católica começou a ser 'satanizada' através de cenas que a revelavam sombria e dominada por um cardeal sem caráter (Stefano - Flávio Galvão). Já o pastor Ezequiel representa a honestidade, interpretado pelo ótimo Zécarlos Machado. A audiência diminuiu ainda mais.

Atualmente, a atual trama de Vivian de Oliveira vem marcando cinco pontos, se firmando como um dos maiores fracassos da emissora. A própria autora demonstra insatisfação e chegou a retirar do seu perfil em uma rede social que era escritora dessa obra. Para culminar, a Record resolveu cancelar a produção de Topíssima, folhetim que substituiria Belaventura na faixa das sete. Escrita por Cristianne Fridman, a história era baseada em um argumento da filha do Edir Macedo e já tinha todo o elenco escalado (e contratado). Sem maiores explicações, a emissora cancelou o projeto e deixou todos os responsáveis apreensivos. Agora o objetivo da cúpula da Record é aproveitar os intérpretes contratados em outros projetos, como séries e a novela Jesus, que substituirá Apocalipse (decisão que também foi de última hora). Ou seja, a obra de Gustavo Reiz ficaria sem substituta.

Porém, novamente houve outra mudança repentina. A emissora resolveu transferir a reprise de Os Dez Mandamentos para às 19h45, encerrando sua exibição na faixa das seis. A mudança começou na última segunda-feira (29/01) e até aumentou um pouco a média da reexibição. Portanto, atualmente só há uma novela inédita no ar e sendo produzida pelo canal, que investiu milhões no projeto. O resto virou uma grande incógnita. Topíssima voltará a ser produzida no futuro? Jesus, escrita por Paula Richard, vai realmente sair do papel, substituindo Apocalipse? Que séries seriam essas que serviriam para aproveitar o elenco da trama cancelada? Com o fim da faixa das seis e das sete, haverá mesmo só tramas às 20h30?

Lamentavelmente, toda essa catástrofe é fruto da incompetência da própria Record, que demonstrou mais uma vez não saber lidar com o sucesso e nem administrar um setor de teledramaturgia. Tanto que o autor Marcílio Moraes, contratado da emissora e na geladeira desde a excelente minissérie Plano Alto (2014), escreveu um texto deixando bem claro que o sucesso da Globo se deve ao fato de sempre dar total liberdade aos autores e planejar muito bem todas produções que vão ao ar. Ele, ironicamente, deteve nos últimos meses a maior audiência da emissora dos bispos, pois a reprise de Ribeirão do Tempo (2011), trama de sua autoria e encerrada no último dia 23, conseguia ótimos índices à tarde. Se continuar enfiando os pés pelas mãos em busca de Ibope a qualquer custo, o canal com certeza verá a vice-liderança voltar definitivamente para o SBT, como já vem ocorrendo há um bom tempo, vide o êxito de Carinha de Anjo, por exemplo. É uma pena que isso ocorra, pois todos perdem: o público, o mercado dos atores e a concorrência.


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