Oito fatos sobre o remake de Irmãos Coragem que você, provavelmente, não sabia


Há 23 anos, a Globo estreava o remake de Irmãos Coragem, abrindo as comemorações de suas três décadas de existência. A segunda versão deste clássico de Janete Clair reserva inúmeras histórias de bastidores. O TV História lista oito delas aqui; confira!


O autor Benedito Ruy Barbosa (João Miguel Jr / TV Globo)

1 - Benedito Ruy Barbosa foi o primeiro autor cotado para adaptar Irmãos Coragem. Quando a Globo enfim se decidiu pela regravação da novela - após duas tentativas frustradas, em 1989 e 1993 - José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, procurou Benedito, colhendo os louros de seu brilhante trabalho em Renascer (1993) e já envolvido com O Rei do Gado (1996). Ruy Barbosa recusou a incumbência: "Não me senti à vontade para mexer no universo de Janete Clair. É quase uma intromissão", declarou ao jornal Folha de São Paulo, de 14/09/1994. Boni então recrutou Dias Gomes, viúvo de Janete, que só aceitou retomar o texto por ser esta "a deixa que os diretores da Globo encontraram para homenagear Janete. Ela merece - colocou muitos tijolos no edifício do Jardim Botânico", disse, na mesma matéria. Dias esteve à frente dos primeiros vinte capítulos; Marcílio Moraes, Ferreira Gullar e Lílian Garcia conduziram o barco - auxiliados, posteriormente, por Antônio Mercado e Margareth Boury.


Patrícia Pillar como Luana, em O Rei do Gado (Divulgação / TV Globo)

2 - Patrícia Pillar recusou o convite para viver a protagonista Lara. A princípio, a atriz chegou a topar o "papel triplo" - Lara sofria de distúrbio de personalidade: sempre agia de forma contida como a tia Dalva (Suzana Faini), mas era tomada pelo destempero, tal e qual a mãe Estela (Eliane Giardini), quando "dominada" por Diana; por fim, unia as duas mulheres que a "habitavam" em uma terceira, a equilibrada Márcia. Letícia Sabatella acabou se encarregando da personagem, após se submeter a testes com o diretor Luiz Fernando Carvalho. Marcos Palmeira foi a primeira e única escolha para João Coragem; já para os outros irmãos do título, Jerônimo e Duda - defendidos por Ilya São Paulo e Marcos Winter - foram cotados Cássio Gabus Mendes, Marcos Frota e Maurício Mattar. Chico Diaz surgiu nas primeiras listas de elenco como o delegado Rodrigo, posteriormente entregue a Giuseppe Oristânio. Como bem lembra o leitor Lincoln Bastos, Bernadete Lys, então esposa de Dias Gomes, chegou a gravar como Cema, mas acabou substituída por Denise Milfont.


Glória Menezes como Júlia, em A Próxima Vítima (Nelson di Rago / TV Globo)

3 - Glória Menezes e Tarcísio Meira foram convidados, mas não gravaram "participações afetivas" no remake. Do elenco da trama de 1970, participaram da nova versão Cláudio Marzo (Duda / Coronel Pedro Barros), Emiliano Queiróz (Juca Cipó / Dr. Maciel) e Suzana Faini (Cema / Dalva). Para reverenciar o original, as equipes de texto e direção desenvolveram pequenas participações, quase figuração, para nomes como Cláudio Cavalcanti, Regina Duarte e Zilka Salaberry. Cláudio, o Jerônimo de 1970, surgiu como o motorista do ônibus que levava o Jerônimo de 1995 para o Rio de Janeiro; chegando na rodoviária, o irmão Coragem "do meio" se depara com Zilka, uma vendedora de cafezinho - na primeira versão, a atriz respondia por Sinhana, a chefe do clã central; no remake, a cargo de Laura Cardoso (também presente na cena). Já Regina era a prostituta em quem Ritinha esbarrava ao sair de uma boate; a jovem defendida pela "namoradinha do Brasil" em 1970 fora entregue à sua filha, Gabriela Duarte, em 1995. Apenas Glória e Tarcísio, embora cotados, não gravaram. Glória - que viveria uma beata com quem Lara cruzava na igreja - estava comprometida com a novela das 20h, A Próxima Vítima; Tarcísio vinha da estafante Pátria Minha, também das 20h.

4 - Um diamante de verdade fora encontrado na locação! A produção escolheu um garimpo real, em Extração - cidadezinha a dez minutos de Diamantina, Minas Gerais -, para ambientar a fictícia Coroado. Na véspera do primeiro dia de gravações, o filho de um garimpeiro da região pisou no cascalho e acabou se deparando com uma pedra bruta. O episódio emocionou o produtor executivo, Sérgio Madureira, e os 80 profissionais que participaram da primeira bateria de cenas no local, conforme conta matéria do jornal O Globo, de 11/12/1994.

5 - A saída do diretor geral, Luiz Fernando Carvalho, já estava agendada desde a estreia de Irmãos Coragem. A ideia, a princípio, era entregar a produção aos parceiros Mauro Mendonça Filho e Carlos Araújo. O insucesso do remake, contudo, acabou implicando numa drástica mudança de estilo. Maurinho, hoje diretor artístico de O Outro Lado do Paraíso, fora demitido. E o remanescente Carlos passou a responder a Reynaldo Boury, tarimbado profissional da casa, atualmente responsável pela teledramaturgia do SBT. A morosidade da narrativa e a pobreza estética foram apontadas como causadoras da fuga de telespectadores; além, claro, da equivocada opção pelo horário das 18h, onde figuram folhetins "água-com-açúcar", diferentes de 'Irmãos', uma trama masculina adequada à faixa das 20h. Boury deu "ritmo de novela" ao enredo e repaginou cenários e figurinos - segundo ele, era impossível, por exemplo, o jogador de futebol Duda manter a mãe Sinhana num casebre caindo aos pedaços e usando roupas esfarrapadas.


Pablo Uranga, Ana Paula Tabalipa, Cláudio Heinrich, Carolina Dieckmann, Luigi Baricelli e Juliana Martins em Malhação (Christina Bocayuva / TV Globo)

6 - A estreia de Malhação ajudou a turbinar os índices da novela. Os primeiros cinco capítulos da soap opera tupiniquim auxiliaram Irmãos Coragem, então em processo de reestruturação, a reconquistar o público. A audiência da trama das 18h, que girava em torno de 30 pontos na Grande São Paulo, saltou para índices próximos aos 35 na semana de 24 a 28 de abril. Os números se estagnaram neste patamar, rodando a casa dos 40 da segunda metade de maio até o último capítulo, em 1° de julho - recorde de toda a produção, com 43 pontos. Durante o "padecimento" de Irmãos Coragem, a concorrência cresceu: o SBT, com o jornalístico Aqui Agora, e a Manchete, com o anime Cavaleiros do Zodíaco, foram os mais beneficiados.


Cláudia Abreu como Alice, em Pátria Minha (Divulgação / TV Globo)

7 - Em Portugal, Irmãos Coragem foi transformada em novela das oito. A SIC, da qual a Globo era sócia, costumava reservar o horário mais nobre, das 20h30, para folhetins de êxito por aqui. Como a aposta em Irmãos Coragem era alta, tanto no Brasil como em Portugal, a emissora alocou o remake na faixa. Substituindo, aliás, outra regravação: a de A Viagem (1994), produzida originalmente pela Tupi, em 1975. O esquema adotado nos primeiros capítulos auxiliou 'Irmãos' a emplacar rapidamente: a novela era transmitida entre o primeiro e os dois últimos blocos da antecessora. Logo abriu larga vantagem sobre a principal concorrente, a RTP, com a também brasileira 74.5 - Uma Onda no Ar, da Manchete - estrelada, vejam só, por Letícia Sabatella. Com Irmãos Coragem às 20h30, a novela das oito daqui, Pátria Minha (rebatizada como Vidas Cruzadas) era exibida às 18h em Portugal.


Dira Paes como Potira, em Irmãos Coragem (Divulgação / TV Globo)

8 - Sucesso do casal Jerônimo e Potira (Dira Paes) motivou mudanças no último capítulo. Queridinhos do público, os personagens foram poupados do trágico desfecho dado por Janete Clair aos dois na primeira versão: em fuga, são baleados pela polícia e morrem abraçados. Aqui, optou-se pelo lúdico: também em fuga, os dois se atiram no rio. E desaparecem... Se minha memória não falha, há uma passagem, nos momentos finais, com Jerônimo e Potira a bordo de um veleiro. Estariam vivos ou em "outra dimensão"? Também foram alterados os desfechos do Coronel Pedro Barros - morto num incêndio causado por ele em 1970; enlouquecido e sob os cuidados da esposa em 1995. Juca Cipó (Murilo Benício), após deixar a prisão, amargava a pobreza ao lado da mulher e dos cinco filhos; na segunda versão, herda os bens de Pedro, seu pai biológico.


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