Até que ponto o humor é realmente necessário nas novelas?



Na primeira fase de O Outro Lado do Paraíso, atual novela das 21h de Walcyr Carrasco, muito se falou do ar sombrio e pesado da história. Haviam reclamações de que tinha maldade demais - em função da ambição de Sophia (Marieta Severo), o sofrimento de Clara (Bianca Bin) e o racismo de Nádia (Eliane Giardini) contra Raquel (Érika Januza) - e pouco humor. Com a passagem de tempo, o enredo abriu mais espaço para um ar menos soturno, o que motiva uma importante questão: até que ponto é realmente necessário que as novelas tenham humor e leveza?



O humor é um dos gêneros mais difíceis de se produzir em dramaturgia - não apenas em novelas, como também em séries e filmes. E há muitas variações. Muitos produtos optam por uma linha mais popularesca e despretensiosa, unicamente para divertir. Outros exploram a vertente da sagacidade e a reflexão através do humor, exercitando mais o senso crítico, embora nem sempre compreendido.

Dito isso, a comicidade nem sempre exige núcleos com esta função específica, mas pode se fazer presente pela personalidade dos personagens. Protagonistas e antagonistas podem ter perfis que, a depender do desenvolvimento (e do talento de seus intérpretes), tenham tendências cômicas. Como bons exemplos, Nazaré Tedesco (Renata Sorrah em Senhora do Destino) e Flora (Patrícia Pillar em A Favorita). As duas grandes vilãs, a despeito da crueldade e frieza de seus atos, também divertiam o público com seu sarcasmo e deboche, um quadro que ajudava a atenuar o peso de seus comportamentos pérfidos.

Mais recentemente, tivemos em A Força do Querer o caso de Sabiá (Jonathan Azevedo). O comparsa de Rubinho (Emílio Dantas) seria apenas uma participação pequena, mas seu perfil e linguajar agradou tanto que ficou até o fim da novela. O carisma do personagem, mesmo sendo um perigoso criminoso, conquistou o público graças à boa condução do perfil e ao talento de Jonathan.

Ainda assim, deve-se frisar: a elogiada novela das 21h estava longe de ser uma novela leve. Perseguições policiais, tráfico de drogas, crime organizado, tudo isso foi retratado pela autora - inclusive sob a famosa acusação de "glamourização do crime" através de Bibi (Juliana Paes). E é natural que as faixas mais tardias apresentem tramas mais pesadas, como também foi o caso de Os Dias Eram Assim, a novela das 23h, que retratou o período do regime militar brasileiro.

Pode-se, assim, concluir que o que se acusa como falta de humor e leveza na verdade se traduz como maniqueísmo e falta de sutileza. E esta é uma característica muito presente tanto em O Outro Lado do Paraíso como também na trama das 23h deste ano. Além disso, alguns temas importantes que mereciam uma abordagem mais naturalista sofrem com este problema, como é o caso do racismo de Nádia contra Raquel. A cena em que a ex-patroa da nova juíza desmaia ao vê-la chegar beirou o pastelão. Não precisava disso.

Outro núcleo que também ganhou espaço na nova fase é o do salão de Nick (Fábio Lago), destinado a ser o contraponto humorístico da novela de Walcyr. Até agora, não teve muito espaço e, no pouco que apresentou, também não disse a que veio. O tom caricato do cabeleireiro dificulta a situação, tornando o resultado "over", quando deveria divertir de uma forma mais espontânea.

Como exemplo recente, uma trama que também sofreu desse mal foi A Regra do Jogo (2015-16), de João Emanuel Carneiro. O pesado enredo central, capitaneado pelo ativista de fachada Romero Rômulo (Alexandre Nero) e seu envolvimento com a facção criminosa, foi norteado por três núcleos cômicos, dois deles ambientados na favela da trama (o Morro da Macaca). E o pior: nenhum deles deu certo. Parecendo esquetes, as situações se repetiam, não tinham a menor graça e ocupavam um excessivo tempo dentro do capítulo, quebrando bastante o ritmo do núcleo principal.

Em compensação, Rock Story (2015-16), exibida recentemente no horário das sete, não tinha um núcleo de humor propriamente dito, mas a função de divertir o público foi brilhantemente exercida por Neia (Ana Beatriz Nogueira), a interesseira mãe do cantor teen Léo Régis (Rafael Vitti), que divertiu com o ciúme excessivo da personagem em relação ao filho.



Em função disso, a reclamação de que "as novelas precisam de mais humor e leveza" nem sempre procede. Não é imprescindível que as tramas tenham obrigatoriamente núcleos de humor. Afinal, há autores que não se dão bem com a comicidade e por isso preferem estilos mais dramáticos e/ou pesados para as histórias que pretendem contar - o que também é importante para a teledramaturgia. Muitas vezes é melhor que uma novela tenha uma história bem desenvolvida sem ter núcleo de humor do que outra que tenha personagens cômicos que não funcionam como deveriam.

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