Márcia Cabrita era o retrato do sarcasmo e da alegria de viver



Nesta sexta-feira (10/11), o Brasil ficou mais triste. Márcia Cabrita faleceu, aos 53 anos, após lutar por sete anos contra um câncer no ovário. Diagnosticada em 2010, retirou os ovários e o útero, iniciando um tratamento que lhe acompanharia até o fim da vida. A atriz estava internada no Hospital Quinta D`Or, no Rio de Janeiro, há dez dias. Apesar de doente, nunca desistiu de trabalhar e sempre que apresentava alguma melhora participava de uma produção, sendo filme, novela ou série.



Sua última aparição na televisão foi na pele da impagável Narcisa, em Novo Mundo, na Globo. A atriz seria a suja Germana (Vivianne Pasmanter) na novela primorosa de Alessandro Marson e Thereza Falcão, mas, em virtude do estágio do câncer, acabou não conseguindo ficar com um papel tão grande e precisou de um tempo para voltar. Os autores, então, escreveram a nova personagem especialmente para ela, que brilhou sempre que surgiu em cena. As tiradas da esposa de José Bonifácio (Felipe Camargo) eram hilárias e o sotaque português da intérprete idem.

Entretanto, infelizmente, Márcia precisou se afastar novamente da trama e Narcisa saiu antes do previsto, não retornando mais. Era um sinal da gravidade do seu estado. E a atriz ter conseguido forças para participar ao menos de alguns capítulos do folhetim apenas comprovou o quanto amava seu ofício e a vida.

Vale citar, ainda, seus outros trabalhos mais recentes, como nas séries Treme Treme (2017), Vai que Cola (2016), As Canalhas (2014) e Trair e Coçar é só começar (2014), todas do canal a cabo Multishow.

A atriz fazia sucesso no teatro com a peça Subversões, ao lado de Luis Salém e Aloísio de Abreu, desde 1990, quando estreou na televisão em As Noivas de Copacabana, em 1992, vivendo a Adelaide. Entre 1993 e 1995 esteve no elenco de apoio de Os Trapalhões, até ganhar o papel de maior importância de sua carreira, em 1997, quando entrou para o elenco de Sai de Baixo, substituindo Cláudia Jimenez. A dita cuja era, claro, a inesquecível Neide Aparecida, empregada com voz esganiçada e língua solta. A missão era complicada: ficar no lugar da icônica Edileuza, um dos melhores perfis do sitcom. Tanto que a talentosa Ilana Kaplan não conseguiu, ficando na trama por apenas um episódio. Mas Márcia alcançou o objetivo com louvor.

Não demorou para a personagem cair nas graças do público, passando a integrar aquela família impagável do Largo do Arouche. As suas cenas com Miguel Falabella, Aracy Balabanian, Luís Gustavo, Tom Cavalcante e Marisa Orth eram sempre divertidas, principalmente quando a gargalhada involuntária surgia diante de algum imprevisto ou esquecimento do texto. Riam eles e ria o público.

Neide foi um divisor de águas na carreira da atriz, que só se despediu da produção na época que engravidou de sua única filha - em 2000, sendo substituída por Cláudia Rodrigues - e ainda retornou revivendo a empregada em 2013, quando o Canal Viva promoveu um especial de quatro episódios do humorístico.

Ela ainda esteve no elenco de novelas como Desejos de Mulher (2002), Sete Pecados (2007), Beleza Pura (2008) e Morde & Assopra (2011); além de ter feito participações em outras séries, vide Brava Gente (2001), Sítio do Pica-Pau Amarelo (2003/2005), Sob Nova Direção (2005), Dicas de um Sedutor (2008), A Grande Família (2009) e Pé na Cova (2013).

Márcia Cabrita era uma humorista nata e uma atriz que adorava trabalhar. Seu sarcasmo característico muitas vezes migrava para suas personagens e o sorriso no rosto era uma constante, mesmo durante a dolorosa batalha contra o câncer durante sete anos. Sua morte deixa as artes cênicas mais pobre e o humor nacional mais vazio. Que siga em paz.

SÉRGIO SANTOS é apaixonado por televisão e está sempre de olho nos detalhes, como pode ser visto em seu blog. Contatos podem ser feitos pelo Twitter ou pelo Facebook. Ocupa este espaço às terças e quintas

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