Os 30 anos de Brega & Chique, um dos maiores sucessos de Cassiano Gabus Mendes



Exibida entre 20 de abril e 6 de novembro de 1987, Brega & Chique completou 30 anos em 2017. A novela do saudoso Cassiano Gabus Mendes foi um dos maiores fenômenos do horário das sete da Globo, entrando para a história da teledramaturgia e chegando a marcar mais audiência que a trama de horário nobre da época - O Outro, de Aguinaldo Silva. A produção teve como grandes destaques Marília Pêra, Glória Menezes e Marco Nanini, entre tantos outros grandes nomes, como o excepcional Raul Cortez. Há três décadas ela chegava ao fim.



Dirigido por Jorge Fernando, o folhetim caiu nas graças do público com um enredo popular, cuja inverossimilhança não prejudicou em nada o êxito da obra. Ambientada em São Paulo, a novela tinha duas mulheres de universos opostos como protagonistas: a perua Rafaela Alvaray (Marília) e a humilde Rosemere da Silva (Glória), que tiveram suas vidas cruzadas por causa do empresário Herbert Alvaray (Jorge Dória), casado com ambas.

A família 'oficial' de Herbert morava em uma mansão de bairro nobre e era formada por Rafaela e seus filhos Ana Cláudia (Patrícia Pillar), Teddy (Tarcísio Filho) e Tamyris (Cristina Mullins), além da sogra Francine (Célia Biar) e do genro Maurício (Tatu Gabus Mendes).

Ou seja, para Rosemere, o empresário se chamava Mário Francis e os dois tinham apenas uma filha: Márcia (Fabiane Mendonça). Mas, a amante de Herbert tinha outros dois filhos: Amaury (Cacá Barrete) e Vânia (Paula Lavigne), além de um pai que ajudava a sustentar (Lourival - Fabio Sabag).

Ao contrário da chique Rafaela, a humilde mulher era brega e morava em um bairro de periferia, lutando com dificuldades para manter a casa. As duas representavam o título da novela e não poderiam ter ganhado intérpretes melhores. Marília Pêra e Glória Menezes honraram o protagonismo, embora Marília tenha se sobressaído mais em virtude do lado cômico de sua personagem, protagonizando cenas hilárias ao lado do secretário e fiel escudeiro do marido, o atrapalhado Montenegro (Marco Nanini).

A novela engrena de fato quando Herbert simula a própria morte e foge do país para escapar da falência. Isso porque o empresário deixa sua família 'oficial' na miséria, pois a mesma herda as dívidas da empresa, mas faz questão de não desamparar sua amante, deixando uma ótima quantia em dólares para ela se sustentar.

As situações das protagonistas se invertem e esse ato do calhorda acaba unindo as duas, uma vez que Rafaela se vê obrigada a se mudar para o bairro de Rosemere, iniciando, assim, uma até então improvável proximidade, que resulta em uma forte amizade. A cena em que a mulher humilde ensina a perua (usando um casaco de pele) a fazer compras em uma feira, por exemplo, foi uma das mais marcantes da história, sendo sempre citada ou exibida quando a trama é relembrada.

Aliás, as personagens, embora diferentes em inúmeros aspectos, apresentavam outra semelhança além de terem o mesmo marido: também tinham admiradores. Rafaela era fruto do amor platônico de Montenegro, que sempre soube da armação de Herbert, e Rosemere era o sonho do apaixonado Baltazar (Dennis Carvalho), o xucro marceneiro do bairro.

Mas, como já mencionado, a dupla que fez um estrondoso sucesso foi a protagonizada por Marília Pêra e Marco Nanini. Tanto que as cenas deles muitas vezes tinham ótimos improvisos que acabavam indo ao ar. Não por acaso, ganharam cada vez mais destaque ao longo da produção e, vale lembrar, a trama marcou a volta da grandiosa atriz aos folhetins, após 13 anos ausente (sua última novela inteira havia sido Supermanoela, em 1974).

A grande virada da história se dá quando Herbert volta ao Brasil após uma cirurgia plástica completa, adotando o nome de Cláudio Serra. E é justamente essa reviravolta que beirou o absurdo, pois saiu de cena Jorge Dória e entrou Raul Cortez. Não há plástica que faça tamanho milagre. Entretanto, a situação não provocou rejeição e o público comprou a trama, que já fazia um imenso sucesso.

O desempenho de Raul foi outro ponto que mereceu elogios e o enredo ganhou um novo fôlego com o empresário descobrindo que as suas mulheres viraram melhores amigas e passaram a detestá-lo. Ele acaba colocando como meta de vida reconquistar suas esposas, rendendo ótimas situações. Por sinal, vale lembrar ainda como Rafaela e Rosemere eram chamadas pelo cara de pau: Alfa I e Alfa II. Ao longo do enredo, inclusive, é descoberto que há ainda uma Alfa III: Zilda (Nivea Maria), a melhor amiga de Rafaela.

Além da maravilhosa história central, é necessário mencionar também o núcleo secundário protagonizado por Bruno (Cássio Gabus Mendes). Sobrinho de Baltazar, o rapaz cometia erros crassos de português e era virgem. Ele vivia levando bronca do tio e tinha aulas de português com a professora Mercedes (Patricya Travassos), que se apaixonou pelo aluno.

As cenas eram repletas de humor e Cássio conseguiu destaque na obra do pai por mérito próprio. O elenco era bem enxuto e ainda contava com Cássia Kiss, Ângela Figueiredo, José Augusto Branco, Jayme Periard, Neuza Amaral, entre outros, além de ter marcado a estreia da grande Ana Rosa na Globo em uma pequena participação como Madalena.



A abertura da novela merece uma citação especial, pois foi marcada pela ousadia. Ao som de Pelado, um dos maiores sucessos do Ultraje a Rigor, o modelo Vinicius Manne aparecia com a bunda de fora e isso chocou alguns telespectadores, que exigiram mudanças. A Globo acabou colocando uma folha em cima do bumbum do rapaz no segundo capítulo, mas a atitude também gerou revolta de outra parcela do público. No final das contas, a retaguarda foi liberada e permaneceu na abertura até o desfecho da trama.

Ironicamente, inclusive, a questão ainda gera controvérsia, pois o Vídeo Show sempre coloca uma tarja quando a clássica abertura é reprisada. Uma censura desnecessária que só comprova como o politicamente correto hoje em dia exagera em alguns pontos.

Brega & Chique foi uma das novelas mais marcantes da televisão brasileira e um dos grandes êxitos de Cassiano Gabus Mendes, que escreveu dois anos depois, em 1989, outro grande sucesso: Que Rei Sou Eu?. O autor veio a falecer em 1993, deixando um legado para a teledramaturgia, tendo o enredo protagonizado por Rafaela e Rosemere como um dos mais lembrados.

SÉRGIO SANTOS é apaixonado por televisão e está sempre de olho nos detalhes, como pode ser visto em seu blog. Contatos podem ser feitos pelo Twitter ou pelo Facebook. Ocupa este espaço às terças e quintas

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