Ambientação, elenco e texto forte definem estreia de O Outro Lado do Paraíso



"Na vida tudo tem volta". Foi com esta premissa que Walcyr Carrasco voltou ao horário das 21h nesta segunda-feira, fazendo sua segunda novela na faixa -a primeira foi Amor à Vida, em 2013-14.

O Outro Lado do Paraíso marca o retorno do incansável autor, um dos mais produtivos da emissora, a ponto de, nesta década, fazer praticamente uma novela por ano - e deter grandes sucessos em seu currículo, como as recentes Verdades Secretas (2015) e Êta Mundo Bom! (2016). A nova história de Carrasco tem a missão de manter aquecido o ibope da faixa das 21h, após o sucesso da aclamada A Força do Querer, de Glória Perez.



Saindo do eixo Rio-São Paulo e apostando em novas localidades, a história desta vez se passa no Tocantins, entre a capital Palmas e a belíssima região do Jalapão. Lá, vive a mocinha da história: Clara (Bianca Bin), uma garota da região que vive com o avô Josafá (Lima Duarte). Ela desperta a paixão de Gael (Sérgio Guizé), um ricaço da capital. Logo se casam, mas o relacionamento vira um grande tormento, graças ao comportamento violento do rapaz.

Ao mesmo tempo, ela entra na mira da mãe dele, a milionária e gananciosa Sophia (Marieta Severo), que descobre que as terras onde Clara vive escondem uma grande mina de esmeraldas. Para isto, ela manipula filho e nora e chega a ponto de mandar a garota para ser internada em uma clínica psiquiátrica distante. Após 10 anos, ela terá a chance de se vingar de todos os que fizeram mal a ela.

Em paralelo à história principal, desenrola-se o drama de Elizabeth (Glória Pires), casada com o diplomata Henrique (Emílio de Mello), que vive viajando e nem sempre tem tempo para a família. O relacionamento desagrada o pai dele, Natanael (Juca de Oliveira), que quer acabar com o casamento do filho através de uma mulher com quem Henrique teve um caso anteriormente: Jô (Bárbara Paz), que se passa por amiga de Elizabeth.

O primeiro capítulo foi introduzido por um certo maniqueísmo, especialmente no núcleo da mocinha Clara - quando o pai, Jonas (Eucir de Souza, em participação especial), decide explorar a mina de esmeraldas, a contragosto da filha e do avô, e acaba morrendo na explosão. Porém, esta dicotomia acabou se diluindo ao longo do episódio, especialmente no comportamento aparentemente dúbio de Gael.

Ao contrário do que aconteceu em Pega Pega e Tempo de Amar, onde a construção dos casais principais pecou pela correria, aqui o roteiro deixou claro que a relação entre Clara e o mauricinho se trata de um encantamento arrebatador, tornando o resultado mais crível - inclusive em cenas que sugerem uma passagem de tempo.

A competente direção artística de Mauro Mendonça Filho também foi decisiva nos momentos em que Mercedes (Fernanda Montenegro) tem visões e alerta Clara sobre os perigos. Uma sequência que remontou ao realismo fantástico das novelas de Aguinaldo Silva nos anos 90. Não fosse o talento da equipe de Mendonça, a cena talvez não tivesse a mesma força.

Mas foi no núcleo de Sofia (Marieta Severo) e família que a marca mais forte de Carrasco se fez presente. O texto ácido e direto, às vezes criticado pela falta de sutileza, ganhou evidências nos diálogos e perfis dos personagens, especialmente a vilã e a filha rebelde Lívia (Grazi Massafera). A impressão que ficou é a de que o autor tinha a intenção de fazer Sofia já dizer a que veio logo em sua primeira aparição.

No elenco repleto de estrelas, Bianca Bin mostrou sua maturidade cênica logo nos primeiros momentos. Clara é uma personagem difícil e a atriz vem dando conta do recado, além de formar uma boa parceria com Lima Duarte. Sérgio Guizé também mostrou que se livrou totalmente do Candinho de Êta Mundo Bom e compôs um Gael perigoso e ciumento, como se viu em sua primeira briga com o mocinho Renato.

Marieta Severo e Fernanda Montenegro, duas de nossas grandes atrizes, têm tudo para roubar a cena, pelo que já mostraram; bem como os igualmente fantásticos Juca de Oliveira, Emílio de Mello e Glória Pires - apesar de a história da personagem Elizabeth ter ficado aparentemente deslocada na estreia.

Esteticamente, chamaram atenção a belíssima fotografia, explorando ao máximo a beleza da região do Jalapão sem recorrer a filtros exageradamente berrantes, como em A Regra do Jogo e Velho Chico. A trilha sonora de João Paulo Mendonça foi outro achado, com canções como Vou Te Encontrar (Paulo Miklos), Bicho Feio (Almir Sater e Renato Teixeira), Morro Velho (Elis Regina), Weird Fishes/Arpeggi (Radiohead) e I Don't Wanna Talk About It (Fernanda Takai). Assim como foi feito em Verdades Secretas, não foi exibida a abertura e os créditos finais foram exibidos no estilo de série, em telas separadas, e não subindo a tela com a fonte padrão da emissora.

Vale lembrar que Walcyr voltou ao ar antes do previsto, pois o antigo planejamento da emissora estabelecia que A Força do Querer fosse sucedida por O Homem Errado, de autoria de Duca Rachid e Thelma Guedes, pupilas do veterano, que fariam sua primeira novela às nove horas da noite. No entanto, após avaliação dos capítulos, a produção do enredo da dupla foi cancelada e Carrasco foi chamado para desenvolver a atual trama.

O Outro Lado do Paraíso fez uma estreia eficiente e até ágil, em se tratando de uma novela ambientada no interior (um enredo que normalmente costuma ser mais lento). Com o tempo, novas histórias devem ganhar espaço e as atitudes dos personagens deverão provocar pesadas consequências em suas vidas. E é este desenrolar que dirá se a nova novela de Walcyr Carrasco manterá o alto nível do horário. A Força do Querer merece uma substituta à sua altura.

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