Inspiração em crimes famosos, conflitos na produção e disputa com a Globo: os bastidores de Corpo Santo



- Corpo Santo deu início a um novo tempo na Manchete. José Wilker, recém-saído de Roque Santeiro (1985/1986), assumia o departamento de teledramaturgia do canal, com três sinopses "na manga": a adaptação do romance Helena, de Machado de Assis, alocada às 19h45; Kananga do Japão, projeto nababesco de Adolpho Bloch que só saiu do papel em 1989 (quando Wilker já havia retornado à Globo); e Corpo Santo, que se aprofundava "na crônica policial apenas tocada pela Globo em Pecado Capital (1975) e Bandidos da Falange (1983)", segundo Wilker.



- Foi a estreia de José Louzeiro como autor de televisão, após a bem-sucedida carreira literária - sempre com obras ligadas a casos policiais, como o da menina Araceli Cabrera Crespo e o de Cláudia Lessin Rodrigues - e a incursão no cinema, com Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia (1976) e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980).

- Por conta da inexperiência em novelas, Louzeiro optou por uma atípica divisão de trabalho com os colaboradores Cláudio MacDowell e Eliane Garcia: eles se reuniam uma vez por semana, debatiam os rumos da trama e cada um se encarregava de dois capítulos (de um bloco de seis, equivalente a uma semana no ar). Comumente, o titular orienta os auxiliares através da escaleta - resumo das cenas sem diálogo - distribui o roteiro e responde pela redação final.

- A produção pretendia contar com Mariana de Moraes, bem-sucedida protagonista do filme Fulaninha (1986) - e neta de Vinícius de Moraes -, como a paranormal Lucinha, entregue a Sílvia Buarque - afilhada de Vinícius, primogênita de Chico Buarque e Marieta Severo.

- Demitida por Paulo Ubiratan por "indisciplina", Lúcia Veríssimo também entrou no radar da Manchete. Estabeleceu-se então um impasse com a Globo: Lauro César Muniz, autor de Roda de Fogo (1986/1987), queria reintegrar Lúcia à trama em seus capítulos finais; mas, a esta altura, ela já teria de estar rodando suas primeiras cenas em Corpo Santo. A atriz acabou escalada para Mandala (1987/1988), de Dias Gomes, que a Globo estreou às 20h exatos dez dias após o término de 'Corpo'.

- A intenção da Manchete era estrear Corpo Santo em 23 de março - data escolhida pela Globo para lançar a substituta de Roda de Fogo, O Outro (1987). O folhetim de Aguinaldo Silva transitava pelo mesmo universo da obra de José Louzeiro: o da crônica policial. Tanto Aguinaldo, quanto Louzeiro atuaram como repórteres em coberturas do gênero.

- O ponto de partida de Corpo Santo, aliás, foi o caso Aída Curi, violentada e atirada do alto de um prédio por três rapazes (incluindo um menor de idade), ocorrido no Rio de Janeiro em 1958. Visto como o início do fim dos "anos dourados", o crime chocou todo o país em razão da violência contra a imagem maculada de Aída, recém-saída de um colégio de freiras, e das tentativas dos réus de fraudar a investigação. O autor abandonou a ideia inicial, optando por uma "novela-reportagem", que refletia na televisão a criminalidade das ruas e a influência desta no cotidiano de pessoas comuns.

- As semelhanças com O Outro renderam a Corpo Santo, entre os funcionários da Manchete, a irônica alcunha de "A Outra".



- Na estreia, em 30 de março de 1987, a ousada proposta da Manchete atingiu 14% de participação no Ibope; na segunda-feira anterior, 23 de março, com os últimos capítulos de Mania de Querer (1986/1987), o placar apontou 9,5%.

- Naquela noite, a Globo esticou o quanto pode o sétimo capítulo de O Outro, o que levou a Manchete a publicar, ainda naquela semana (2 de abril, quinta-feira), um anúncio nos jornais intitulado "Não estica, nem encolhe", que "alertava" o telespectador: "Para fazer novela, é preciso, antes de mais nada, respeitar o público. Por isso, quando a Rede Manchete informou o horário de Corpo Santo, cumpriu. Às 21h20min, a novela foi ao ar em sua estreia. Sem esticar nem encolher nada na programação. Porque a Rede Manchete respeita o tempo e os horários do telespectador. Novela boa começa e termina no horário certo".

- A emissora-líder revidou no sábado, 4 de abril, minimizando o impacto da produção nacional da concorrente. No anúncio "Mais vale um Pecado Original do que um Corpo Santo", celebrou os feitos da série importada, com 48,5% de participação nos índices, que sequer havia competido com o primeiro capítulo da novela, segundo os boletins de programação da época. O tiro saiu pela culatra: o canal foi acusado por veículos da imprensa de enaltecer produtos enlatados em detrimento às realizações tupiniquins. Além, claro, de ter "passado recibo" do "incômodo" gerado pela Manchete.

- Concebida para o público das classes A e B, a TV de Adolpho Bloch arregimentou telespectadores das faixas C e D, restritos aos subúrbios e periferias, após a estreia de Corpo Santo.

- Em 1987, Globo e Manchete "trocaram" de afiliadas na Bahia. Mas a TV Aratu insistia em retomar a parceria com a emissora de Roberto Marinho. E nos primeiros dias de abril, conseguiu judicialmente "reaver" o sinal, então de posse da TV Bahia. A Manchete acabou ficando fora do ar no estado - o que gerou uma enxurrada de reclamações dos telespectadores de Corpo Santo, que, logo na primeira semana, havia se posicionado apenas dois pontos percentuais atrás de O Outro (então o maior índice alcançado pela rede de Adolpho Bloch com a produção em todo o país). O impasse chegou ao fim em julho: a Aratu se tornou oficialmente afiliada da Manchete.



- O título Corpo Santo fazia referência à castidade de Simone Reski (Christiane Torloni) e a paranormalidade de sua filha, Lucinha. A mãe, vendedora de livros, estava há 11 anos (desde a morte do marido) sem sexo. Eis que ela se envolve com Téo (Reginaldo Faria), ligado ao submundo do contrabando, da prostituição em inferninhos na Lapa e dos filmes pornôs. Téo induz Lucinha a participar das fitas: o corpo da jovem, contudo, não aparece nos negativos, o que lhe confere uma suposta "santidade".

- Tia Maria (Nathalia Timberg), irmã de Simone, também possuía dons sobrenaturais: conseguia estabelecer diálogo com o cunhado morto. As duas, mais Lucinha, dividiam o apartamento com a empregada Isaura (Cristina Pereira).

- Logo no início da trama, um policial é morto ao interceptar contrabando. A ordem para a execução parte da gangue de Grego (Sérgio Viotti), que, no passado, se submeteu a uma cirurgia plástica para regressar ao Brasil e continuar praticando, sem medo da lei, seus atos ilícitos. Ulisses Queiróz e Adriana (José Wilker e Maitê Proença, em participações especiais) cuidam de seus negócios no exterior; no Brasil, Téo e Russo (Jonas Bloch) disputam o poder dentro da organização.

- O corrupto Arturzão (Otávio Augusto) é o braço de Grego na polícia. Seu chefe, o delegado Portinho (Roberto Frota), embora honesto, faz vista grossa para a conduta controversa de seus policiais. Já o perito aposentado Vidigal (Luís Carlos Arutin) atua à favor da lei. As práticas criminosas da quadrilha mobilizam a repórter Bárbara Diniz (Lídia Brondi), interessada em desmantelar o esquadrão da morte que contribui para o aumento dos índices de violência do Rio de Janeiro. Em seu encalço, o fotógrafo e fiel escudeiro Anselmo (Alexandre Marques).

- A novela também abordava as pequenas corrupções: o síndico Perdigão (Rogério Fróes), envolvido com Marta (Ana Lúcia Torre), afanava o dinheiro dos condôminos.



- Por volta do capítulo 90, no ar em julho, José Louzeiro assassinou a protagonista Simone! Grego, então infartado, determina que Téo abandone a namorada para assumir a organização. Mas Russo - que cultivava uma paixão enrustida pelo rival - trama para deixar o produtor de filmes eróticos na mira da polícia: ele dispara contra Simone usando a arma de Téo.

- Com esta cena, Corpo Santo registrou seu melhor número até então: 31 pontos no Ibope.

- Christiane Torloni negou, na época, ter pedido para sair da novela. No entanto, em 1989, quando escalada para Kananga do Japão, a atriz admitiu ter padecido com a precariedade das condições de trabalho na emissora, dois anos antes, e a insatisfação com os rumos de sua personagem, Simone: "Eu saí de Corpo Santo porque a novela estava ficando boba, sem alma. E eu não conseguia perceber como o autor ia resolver aquilo. Ator não tem que fazer qualquer papel, não", disse ao jornal O Dia (18/06/89).

- José Louzeiro confirmou as críticas que recebeu do elenco, ainda durante a exibição de Corpo Santo: Reginaldo Faria teria questionado o emprego de frases sem conteúdo dramático; Christiane Torloni e Jonas Bloch sugeriram uma narrativa mais ágil.

- O autor também se desentendeu com o colaborador Cláudio MacDowell. Ele e Eliane Garcia foram substituídos por Wilson Aguiar Filho.



- A prostituta Marina (Eliane Narduchi) transitava por um dos cenários mais requisitados da trama, o River Bar. Sempre acompanhada de sua cartela de camisinhas, Marina se descobre portadora do vírus HIV, ao constatar um gânglio que apareceu em seus pescoço. Amante de Arturzão, a garota de programa definhou dia após dia, sempre amparada pelos tipos discriminados que a acompanhavam nas ruas e boates. Foi a primeira vez que uma novela debateu a AIDS, cujos sintomas, desdobramentos e tratamentos ainda eram praticamente desconhecidos.

- O tráfico de drogas, que começa a assolar as comunidades, também foi discutido. Grego hesitou ao entrar neste "meio"; sucumbiu diante dos apelos de seu filho bastardo, Orlando (Chico Diaz).

- No último capítulo, Téo repete a trajetória de seu mentor: simula a própria morte e foge do país ao lado de Mara (Ângela Vieira), amante de Grego, deixando a prostituta Wanda (Divana Brandão) à espera de um filho seu.

- Ângela Vieira, aliás, foi premiada com o APCA de melhor atriz coadjuvante. A Associação Paulista de Críticos de Arte também elegeu Corpo Santo a melhor novela de 1987, José Louzeiro como o melhor texto, Sérgio Viotti como melhor ator coadjuvante e Chico Diaz como revelação masculina do ano.

- No Troféu Imprensa, também indicada como melhor novela, Corpo Santo levou os votos de Carlos Imperial, Leão Lobo e Nelson Rubens. Perdeu para Brega & Chique (1987), de Cassiano Gabus Mendes, com 8 votos. O Outro, a terceira indicada, não foi votada.

- A novela foi reprisada na íntegra, com seus 161 capítulos, entre 5 de dezembro de 1988 e 20 de julho de 1989, de segunda-feira a sexta-feira, às 13h. Depois, compactada em 121 capítulos, de segunda a sábado entre 19h30 e 19h50, de 21 de janeiro a 15 de junho de 1991. Por fim, em 94 capítulos, às 18h30 e também de segunda a sábado, de 2 de agosto a 27 de outubro de 1993.

- Em setembro de 2010, surgiram informações acerca da exibição de Corpo Santo no SBT. O canal de Silvio Santos já havia reapresentado Xica da Silva (1996/1997), em 2005; Pantanal (1990), em 2008; e Dona Beija (1986), em 2009. E transmitia, naquela altura, A História de Ana Raio e Zé Trovão (1991). Os boatos sobre Corpo Santo, contudo, nunca se confirmaram. Não há notícias sobre o paradeiro das fitas da novela, que integram a massa falida da Manchete.

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